MP investiga deputado Val Ceasa por ligações com TCP e patrimônio suspeito

Um assessor do deputado foi morto pelo Comando Vermelho; investigação aponta envolvimento com organização criminosa responsável por violência na região.
A folha de pagamento do deputado parecia um organograma do crime
Investigadores encontraram que Val Ceasa havia contratado parentes de traficantes e assessores com antecedentes criminais.

Val Ceasa teria intercedido junto à PM para impedir demolição de imóveis que funcionavam como resort de luxo da facção TCP, disfarçados de centro social. Deputado empregou parentes de traficantes e assessores com antecedentes criminais; patrimônio declarado de 1 milhão contrasta com bens estimados em 13 milhões.

  • Deputado Val Ceasa procurou PM em dezembro de 2023 para impedir demolição de imóveis do TCP
  • Patrimônio declarado de 1 milhão de reais contrasta com bens estimados em 13 milhões
  • Assessores do deputado incluem parente de traficante, indiciado em homicídio e morto pelo Comando Vermelho
  • 320 mil reais em dinheiro vivo foram apreendidos em endereços ligados ao deputado

Ministério Público do Rio faz operação contra deputado estadual Val Ceasa por suspeita de envolvimento com o Terceiro Comando Puro. Investigação aponta assessores ligados a traficantes e discrepâncias patrimoniais de 13 milhões de reais.

Na manhã de 18 de junho, o Ministério Público do Rio de Janeiro bateu na porta de Roosevelt Barreto Barcelos, conhecido como Val Ceasa, deputado estadual pelo PRD. Os investigadores entraram em sua casa e em seu gabinete na Assembleia Legislativa com um mandado que carregava acusações graves: possível envolvimento com o Terceiro Comando Puro, a segunda maior facção criminosa do estado.

A investigação começou meses antes, em dezembro de 2023, quando Val Ceasa procurou pessoalmente o 16º Batalhão da Polícia Militar em Olaria, na zona norte do Rio. Seu objetivo era direto: impedir a demolição de imóveis no Complexo de Israel que, segundo a polícia, funcionavam como propriedade de luxo da facção. O alerta da PM disparou o processo que levaria, quase dois anos depois, até aquele mandado.

Conforme avançaram as investigações, os procuradores encontraram uma teia de conexões entre o deputado e o crime organizado. Val Ceasa havia contratado para trabalhar na Assembleia o irmão de um traficante do TCP. Um segundo assessor seu havia sido indiciado em um homicídio atribuído a Bruno da Silva Loureiro, conhecido como Coronel, líder da facção na Comunidade do Muquiço. Um terceiro funcionário foi morto pelo Comando Vermelho. Quatro outros servidores comissionados tinham antecedentes criminais ou parentes com registros na polícia. A folha de pagamento do deputado parecia um organograma do crime.

Mas havia também a questão do dinheiro. Em 2022, Val Ceasa declarou à Justiça Eleitoral possuir bens no valor de 1 milhão de reais. Os investigadores, porém, encontraram ligações do deputado com empresas e transações imobiliárias que somavam mais de 13 milhões de reais. Havia a construção de um galpão no Espírito Santo, a compra de um imóvel no Recreio dos Bandeirantes e outro na Barra da Tijuca. A discrepância era gritante: o que ele havia declarado representava menos de 8% do que realmente possuía.

Os imóveis que Val Ceasa tentara proteger da demolição eram descritos como estruturas de grande luxo. Um deles tinha lago artificial com pedalinho, academia e câmera escondida. Havia rotas de fuga por becos pouco movimentados. Imagens da Polícia Civil mostravam criminosos armados nos arredores, alguns com fuzis. Segundo o Ministério Público, o local funcionava como resort para reuniões e eventos da facção. Quando a polícia começou a se mover para derrubar os imóveis, uma faixa apareceu na entrada mencionando um suposto projeto social. Pinturas com símbolos do TCP foram removidas. Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses de Almeida Marins, que também havia comparecido ao batalhão para tentar barrar a demolição, alegaram que o lugar era chamado de Espaço Fazendinha e funcionava como recreação infantil, colônia de férias e reforço escolar. O tenente-coronel Luciano Silva, comandante do 16º BPM, ouviu pessoalmente essa versão do deputado. Mas a Polícia Militar havia feito inúmeras operações no local e nunca encontrou qualquer atividade social.

O procurador-geral de Justiça Antonio José Campos Moreira argumentou que a tentativa de Val Ceasa e Ulisses Marins de interceder junto ao comando do batalhão constituía indício suficiente de comprometimento com a facção. O desembargador Gilmar Augusto Teixeira autorizou a operação, destacando a gravidade dos fatos. Na ação, foram apreendidos 320 mil reais em dinheiro vivo em endereços ligados ao deputado. O juiz também determinou a quebra de sigilo de mensagens dos investigados e autorizou requisições ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras para verificar se o deputado e seus aliados receberam recursos de membros da facção.

Val Ceasa respondeu à investigação com um discurso na Assembleia Legislativa, afirmando sofrer perseguição política e que provaria ser gente de bem. A Assembleia, por sua vez, emitiu uma nota dizendo estar à disposição para colaborar com as investigações. O que vem a seguir é a análise das transações financeiras e das mensagens interceptadas, que pode revelar se houve de fato transferência de recursos da facção para o deputado e seus assessores.

A tentativa dos investigados de interceder junto ao Comando do 16º BPM para impedir a demolição dos imóveis consubstancia indício suficiente do comprometimento de ambos com os integrantes da facção criminosa
— Procurador-geral de Justiça Antonio José Campos Moreira
Sofre perseguição política e que vai provar que é gente de bem
— Val Ceasa, em discurso na Assembleia Legislativa
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Inventor

Por que um deputado estadual iria pessoalmente a um batalhão da PM para tentar impedir uma demolição?

Model

Porque aqueles imóveis não eram apenas propriedades. Eram ativos de uma facção criminosa, e protegê-los significava estar alinhado com a organização.

Inventor

Mas ele alegou que eram centros sociais. Isso não é uma defesa plausível?

Model

Seria, se a polícia tivesse encontrado qualquer evidência disso. Mas fizeram operações repetidas e nunca viram atividade social. A faixa com o nome do projeto apareceu só depois que a demolição começou a ser ameaçada.

Inventor

E quanto aos assessores dele com ligações criminosas? Isso é coincidência?

Model

Não. Quando você contrata o irmão de um traficante, quando seus funcionários têm antecedentes ou foram indiciados em homicídios, quando um deles foi morto por outra facção — isso não é acaso. É padrão.

Inventor

A diferença entre 1 milhão declarado e 13 milhões em bens reais é enorme. Como isso passa despercebido?

Model

Passa porque ninguém estava olhando. Até a PM fazer aquele alerta. Depois disso, os investigadores começaram a rastrear empresas, transações imobiliárias, propriedades. O dinheiro deixa rastro.

Inventor

O que o Coaf pode revelar agora?

Model

Se houve transferências diretas de membros da facção para contas do deputado ou seus aliados. Se o dinheiro da facção financiou aqueles imóveis. As mensagens interceptadas podem mostrar conversas sobre isso.

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