Rui Águas vê Mundial como oportunidade para valorizar Cabo Verde e facilitar recrutamento

Um país com poucos recursos, mas com uma força humana que consegue pequenos milagres
Rui Águas reflete sobre a capacidade de Cabo Verde em alcançar o Mundial apesar das limitações materiais.

Cabo Verde conquistou uma das nove vagas diretas africanas para o Mundial 2026, vencendo Essuatíni (3-0) na última jornada do apuramento. O recrutamento de jogadores é desafiante em Cabo Verde devido ao campeonato nacional não profissional, obrigando a seleção a procurar talentos no estrangeiro.

  • Cabo Verde conquistou uma das nove vagas diretas africanas para o Mundial 2026, vencendo Essuatíni 3-0 na última jornada
  • 25 dos 37 jogadores com minutos no apuramento nasceram no estrangeiro, 13 em Portugal
  • Roberto Lopes, defesa central nascido na Irlanda, foi contactado por Rui Águas através do LinkedIn em 2018
  • Rui Águas orientou Cabo Verde em 23 jogos durante dois períodos (2014-2015 e 2018-2019)
  • Cabo Verde tem quase 525 mil habitantes, 10 ilhas e 4 mil quilómetros quadrados

Rui Águas, antigo selecionador de Cabo Verde, destaca como a qualificação inédita para o Mundial 2026 pode facilitar o recrutamento de talentos na diáspora e valorizar o país além do futebol.

Rui Águas ainda se lembra do peso daquele trabalho. Não era o tipo de trabalho que se faz num relvado. Era feito por telefone, por redes sociais, através de mensagens em inglês enviadas a homens que talvez nunca tivessem pensado em jogar por Cabo Verde. O antigo selecionador português, que orientou os tubarões azuis em duas períodos distintos entre 2014 e 2019, vê agora na qualificação inédita para o Mundial de 2026 uma oportunidade que pode transformar esse recrutamento na diáspora. Na segunda-feira, Cabo Verde assegurou uma das nove vagas diretas de qualificação africana ao vencer Essuatíni por 3-0 na Praia, na última jornada do apuramento, terminando com 23 pontos e deixando os Camarões, recordistas de presenças em fases finais africanas, em segundo lugar.

O desafio que Águas enfrentou durante seus mandatos era estrutural. Cabo Verde não tem um campeonato nacional profissional. Os jogadores que nascem nas ilhas dificilmente conseguem atingir o nível necessário para uma seleção competitiva sem sair do país. Por isso, a seleção precisou de ser criativa. Dos 37 jogadores que tiveram minutos na caminhada até à fase final, 25 nasceram no estrangeiro. Treze deles em Portugal. Outros espalhados pela Irlanda, Países Baixos, França. Muitos tinham dupla nacionalidade e poderiam ter escolhido representar os países onde viviam. Ninguém foi bater à porta deles pessoalmente. Águas recorda-se de contactos por telefone, por redes sociais, de informações que chegavam através de emigrantes. Foi assim que chegou Roberto Lopes, o defesa central nascido na República da Irlanda, filho de pai cabo-verdiano. Águas encontrou-o no LinkedIn em 2018 e enviou-lhe uma mensagem em português. Lopes ignorou-a. Só respondeu quando recebeu uma segunda mensagem, desta vez em inglês. Tinha 33 anos quando Cabo Verde se apurou para o Mundial, foi totalista em nove das dez partidas do apuramento, e trouxe à seleção um nível de segurança defensiva que nunca tinha existido antes.

Agora, com o prestígio que vem de uma presença num Mundial, Águas acredita que esse trabalho de recrutamento pode tornar-se mais fácil. Os jogadores na diáspora verão Cabo Verde de forma diferente. O país ganha visibilidade internacional. E para além do futebol, há outras consequências. Turismo pode crescer. Investimentos em infraestruturas podem aparecer. Treinadores podem receber mais atenção e recursos. Águas vê apenas vantagens. Não é uma perspetiva ingénua. É a perspetiva de alguém que viveu em Cabo Verde, que sentiu o que significava ganhar para aquele povo, que compreendeu o valor de um resultado numa nação de 10 ilhas, quase 525 mil habitantes e 4 mil quilómetros quadrados.

Cabo Verde começou a competir no futebol internacional em 1978. Levou 50 jogos, repartidos por sete fases de apuramento desde 2002, para chegar a um Mundial. Essa estreia coroa uma década de crescimento ascensional. A seleção detetou talentos na diáspora, ganhou competitividade, passou por vários selecionadores. Rui Águas foi um deles. Orientou a equipa em 23 jogos e levou-a à segunda fase da Taça das Nações Africanas em 2015, embora sem superar a primeira fase. Mas o trabalho que fez, o trabalho de recrutamento, o trabalho de organização e formação, deixou marcas. Deixou também uma perspetiva. Águas diz que estar em Cabo Verde foi uma das melhores coisas que teve em termos de futebol, apesar de todas as outras conquistas da sua carreira. Viveu períodos muito difíceis de esquecer. Viu uma raça talentosa, não explicada pelos meios ou pelo poder, mas pelo talento puro. Uma mistura de sangues que a história trouxe, que se manifesta no desporto, na música, na literatura, na dança. Um país com poucos recursos, mas com uma força humana que consegue pequenos milagres. O Mundial de 2026 será o próximo.

É difícil recrutar em Cabo Verde, onde o campeonato nacional não é profissional e os jogadores dificilmente conseguem atingir o nível necessário
— Rui Águas
Ir ao Mundial vai valorizar pelo futebol um pequeno e pobre país e tem de ser potenciar o mais possível o que esta oportunidade dá
— Rui Águas
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Como é que se recruta um jogador que nunca pensou em jogar por Cabo Verde?

Model

Muitas vezes não se recruta. Contacta-se. Envia-se uma mensagem. Espera-se que responda. Roberto Lopes ignorou a primeira mensagem em português. Só respondeu quando lhe escrevi em inglês. Não há fórmula mágica.

Inventor

E agora, com o Mundial, isso muda?

Model

Muda completamente. Quando Cabo Verde está no Mundial, um jogador na diáspora vê o país de forma diferente. Vê oportunidade, vê prestígio, vê que vale a pena.

Inventor

Mas o país em si não muda, certo? O campeonato continua não profissional.

Model

Verdade. Mas o investimento muda. As infraestruturas mudam. Os treinadores ganham recursos. E isso é o que realmente desenvolve os jogadores.

Inventor

Sentiu isso quando estava lá?

Model

Senti o peso de cada vitória. Aquele povo compreendia o valor de um resultado. Isso marca-nos como treinadores. Não é sobre tática ou formação. É sobre o significado daquilo que fazemos.

Inventor

Então isto não é apenas sobre futebol.

Model

Não. É sobre turismo, sobre visibilidade internacional, sobre um país pequeno que consegue um pequeno milagre. É sobre isso.

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