Rosa Coutinho Cabral: «Tenho vontade de fazer coisas que intervenham no real»

Tenho uma vontade de fazer coisas que intervenham no real
Rosa Coutinho Cabral rejeita sonhos burgueses e define sua prática artística como ferramenta de intervenção social e política.

Rosa Coutinho Cabral cresceu numa família culturalmente ativa em Ponta Delgada, onde teatros e espaços públicos marcaram sua infância e moldaram sua vocação artística. A cineasta enfrentou discriminação de género no início da carreira, mas desenvolveu uma metodologia criativa baseada em experimentação intuitiva e ensaios cinematográficos sem guião pré-estabelecido.

  • Rosa Coutinho Cabral nasceu em Ponta Delgada e mudou-se para Lisboa aos 14 anos
  • Enfrentou discriminação de género no primeiro filme: recusaram-na como assistente de câmara por ser mulher
  • Estudou simultaneamente Sociologia no Instituto de Ciências Sociais e Políticas e Cinema
  • Desde 2011, trabalha de forma cruzada entre teatro, cinema, instalações e exposições
  • Participa como encenadora na peça "Atos Únicos" na terceira edição do POP-Festival em São Miguel

Entrevista com a realizadora, argumentista e encenadora Rosa Coutinho Cabral sobre sua trajetória artística desde Ponta Delgada até Lisboa, sua filosofia criativa e compromisso com arte que intervenha na realidade social.

Rosa Coutinho Cabral cresceu numa casa grande em Ponta Delgada onde as crianças andavam de bicicleta pelos corredores e o pai apitava à porta para que tudo ficasse arrumado antes de entrar. Essa casa funcionava como um palco familiar, um espaço onde a liberdade e a cultura eram respiradas todos os dias. Os pais levavam-na ao Teatro Micaelense, ao Coliseu, ao Relvão, à piscina de São Pedro — lugares que se tornaram pilares de uma infância marcada pela união familiar e pela abertura ao mundo das artes. A mãe interessava-se pela dimensão visual das coisas; o pai era teatreiro, cantava, divertia-se. Essa herança moldou o caminho que Rosa seguiria: o teatro e o cinema.

Aos 14 anos, tudo mudou. A família inteira partiu para Lisboa, e a rapariga que começava a adolescência resistiu com toda a força. Queria ficar com os amigos, com as afinidades que estava a criar. A capital prometida pela mãe como fantástica revelou-se numa casa pequena e decepcionante. Mas havia um jardim ao lado — o Jardim da Estrela — que se tornou refúgio. Rosa passava tempo ali com os irmãos mais novos, João e António José, naquele espaço verde que compensava o aperto das paredes. No Liceu Maria Amália, um estabelecimento feminino e conservador, sentiu-se solitária, tímida, comunicativa apenas através da leitura e da escrita. A sorte foi ter a mãe como professora ali; quando a instituição tentava exceder-se nas restrições, a mãe defendia a liberdade da filha.

O 25 de Abril chegou e transformou tudo. Embora não fosse politizada, Rosa viveu aquele período como o mais feliz da sua vida em termos políticos. Saía à rua, celebrava, compreendia a alegria dos mais velhos, sentia a necessidade urgente de mudança. Essa experiência a levou para Sociologia. Candidatou-se ao Instituto de Ciências Sociais e Políticas, mas naquele verão, num festival de música em Vilar dos Mouros com os irmãos, conheceu alguém que lhe falou de uma escola de cinema. Decidiu fazer ambas as coisas em simultâneo — terminou os dois cursos.

A primeira experiência no cinema foi traumática. Tinha acabado de sair da escola, recebeu um subsídio, fez um filme. A equipa que a acompanhava não compreendeu o que ela queria. Rosa desejava trabalhar de forma improvisada, intuitiva, experimental; eles queriam um guião. Considerou-se traída pelos seus melhores amigos na altura. Pensou em nunca mais fazer cinema. Mas gostava tanto daquela experiência que continuou. Pouco a pouco, consolidou a sua compreensão do cinema como uma experiência estética, criativa, política — não regida por leis, mas por descoberta no contacto com as pessoas e com o próprio processo. Por isso os seus filmes se chamam agora Ensaios Cinematográficos.

No primeiro filme em que trabalhou, o diretor de fotografia recusou-a como assistente de câmara. "A Rosa não, porque é uma mulher, não vai conseguir carregar tripés", disse. Passou para a realização. Sobre discriminação de género, Rosa é clara: há sempre desconfiança, mas depende muito das mulheres não se deixarem perturbar por uma sociedade patriarcal e conservadora. Não se considera feminista — preocupa-a mais a divisão entre ricos e pobres do que entre homens e mulheres. Mas sabe que muitas mulheres morrem, e a forma de lutar por elas é não permitir que as pisem.

O teatro entrou na sua vida sobretudo através do irmão João, ator e encenador. Começou a interessar-se pelo trabalho dele e um dia quis fazer uma peça. Convidou-o. A primeira foi o Principezinho, aqui em São Miguel, há muitos anos. Depois veio "3 Vidas de Sucesso", talvez a mais importante. Desde 2011, a vida de Rosa tem sido dividida entre teatro, cinema, instalações e exposições — uma atividade cruzada quase constante.

O envolvimento com o POP-Festival surgiu através da amizade com Tiago Melo Bento, que a aproximou da Corredor. Tiago já trabalhou muitas vezes com ela; têm afinidade grande. Quando ele convidou João para um workshop, Rosa foi com ele. Na segunda edição do festival estava lá e continuou amiga. Nesta terceira edição, ela e João fazem parte como encenadores da peça "Atos Únicos". Rosa destaca que o POP-Festival é uma iniciativa extraordinária — fazia muita falta criar um festival de teatro em São Miguel, trazer outras experiências teatrais.

Sobre sonhos, Rosa é categórica: não tem sonhos burgueses de espécie nenhuma. Gosta de fazer coisas como um carpinteiro ou um escultor — as mãos não estão lá, mas estão. Tem vontade e desejo de fazer coisas que intervenham no real. Neste momento em que o mundo vira cada vez mais para a extrema-direita, em que mulheres e pessoas precisam agir ou correm o risco de voltar ao princípio do século XX e aos seus fascismos, Rosa não tem sonhos. Tem uma grande vontade e um grande desejo de lutar contra isso. Se o que faz servir para lutar contra isso, já se sente bem entregue neste mundo.

O cinema não se rege por leis, é uma experiência estética, criativa, política, que cada um deve fazer como melhor entende
— Rosa Coutinho Cabral
As mulheres não se podem deixar perturbar com este olhar de uma sociedade patriarcal e conservadora e têm que se impor, que se defender
— Rosa Coutinho Cabral
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Como é que uma rapariga tímida que passava tempo a ler e a escrever em casa se tornou realizadora?

Model

Não foi linear. Havia aquela casa grande em Ponta Delgada, cheia de liberdade e cultura. Depois Lisboa, a solidão, o Jardim da Estrela como refúgio. O 25 de Abril abriu tudo — saí à rua, senti a necessidade de mudança. Isso levou-me para Sociologia, mas o cinema encontrou-me num festival de música.

Inventor

E quando tudo correu mal no primeiro filme?

Model

Considerei-me traída. Queria experimentar, eles queriam um guião. Pensei em desistir. Mas havia algo naquela experiência que não conseguia abandonar. Continuei, e aos poucos percebi que o cinema não precisa de regras — precisa de descoberta.

Inventor

O diretor de fotografia disse que não podias carregar tripés porque eras mulher.

Model

Sim. Passei para a realização. Não sou feminista, mas sei que há uma desconfiança constante. O importante é não nos deixarmos perturbar por isso, é impor-nos, defender-nos. Há coisas muito mais graves — a pobreza, a desigualdade.

Inventor

Porque é que o teatro entrou tão tarde na tua vida?

Model

Não entrou tarde. Estava sempre ali, através do meu irmão João. Comecei a interessar-me pelo trabalho dele, e um dia quis fazer uma peça. Convidei-o. Desde então, a vida tem sido dividida — teatro, cinema, instalações, exposições. Tudo junto.

Inventor

O que te atrai no POP-Festival?

Model

É uma iniciativa extraordinária. Fazia muita falta trazer outras experiências teatrais para São Miguel. Tiago Melo Bento e eu temos afinidade grande, e agora eu e o João estamos como encenadores da peça "Atos Únicos".

Inventor

Quando dizes que queres fazer coisas que intervenham no real, o que significa?

Model

Significa que não tenho sonhos burgueses. Quero trabalhar como um carpinteiro ou um escultor — as mãos não estão lá, mas estão. Neste momento, com a extrema-direita a crescer, com o risco de voltarmos aos fascismos do século XX, a arte tem que ser uma ferramenta de luta. Se o que faço servir para isso, já me sinto bem entregue.

Contáctanos FAQ