Romário vê personalidade polêmica como vantagem e critica jogadores 'robotizados'

Sempre fui autêntico. Nunca pedi para separar perguntas.
Romário contrasta sua abordagem de comunicação com a dos jogadores modernos, que operam sob supervisão de assessores.

Romário, ex-jogador que se tornou senador e empresário, defende que sua personalidade polêmica nunca foi um obstáculo — foi o próprio caminho. Em tempos em que atletas são geridos por equipes inteiras de comunicação e advogados, ele observa com preocupação o desaparecimento da autenticidade no futebol moderno. A questão que ele levanta é antiga e permanente: o que se perde quando um ser humano aprende a falar apenas o que é seguro dizer?

  • Romário afirma que sua postura combativa e polêmica foi o motor que o levou a presidências, negócios e ao Senado — não um fardo, mas uma vantagem.
  • Mesmo ele cedeu à pressão institucional em Brasília, substituindo respostas cruas por siglas codificadas como VTNC — uma concessão mínima, mas simbólica.
  • Jogadores atuais operam sob um filtro permanente de advogados, assessores e consultores de imagem que controlam cada palavra antes que ela chegue ao público.
  • As redes sociais tornaram o custo de um deslize altíssimo, empurrando atletas para um modo de fala robótico e despersonalizado.
  • Para Romário, o futebol perde uma dimensão humana essencial quando seus protagonistas deixam de ser eles mesmos dentro e fora de campo.

Romário fala sobre si mesmo com a tranquilidade de quem não tem mais nada a provar. Sua natureza polêmica, cultivada ao longo de décadas, não é algo de que se arrepende — é, segundo ele, o que o construiu. Presidente do América, fundador da RomárioTV, senador da República: nada disso teria acontecido, diz ele, se tivesse se dobrado às expectativas de comportamento desde o início.

Houve, é verdade, uma concessão recente. Seus assessores em Brasília pediram moderação, e ele moderou — não silenciou, apenas codificou. As respostas mais brutas viraram siglas. O tom continua afiado, mas menos exposto. É uma mudança pequena que ele admite sem drama.

O que realmente o incomoda é observar a geração atual de jogadores funcionando sob um regime de controle total. Advogados, assessores de comunicação e consultores de imagem formam um filtro permanente entre o atleta e o mundo. Certas palavras são proibidas. Certos temas, intocáveis. O resultado são atletas que parecem programados — esvaziados de qualquer traço genuíno.

As redes sociais aprofundaram esse fenômeno. O risco de uma frase mal interpretada é real e imediato, e os jogadores sabem disso. Então falam o que lhes dizem para falar. Romário nunca operou assim: falava o que pensava e aceitava as consequências. Havia uma integridade nisso, mesmo quando era desconfortável. Para ele, o futebol fica mais pobre sem essa dimensão — sem a capacidade de um atleta ser, simplesmente, ele mesmo.

Romário senta para falar sobre si mesmo com a certeza de quem já venceu muitas batalhas. Sua natureza polêmica, aquela que o acompanha há décadas, não é arrependimento — é ativo. É o que o levou aonde chegou. Presidente do América, dono da RomárioTV, senador da República. Se aquele Romário combativo, aquele que rebatia tudo e todos, fosse um problema, ele diz, nada disso teria acontecido. A controvérsia não o destruiu. O construiu.

Mas há uma concessão nos últimos tempos. Seus assessores em Brasília pediram moderação. Então ele moderou — não parou, moderou. As respostas mais diretas, aquelas que começavam com "vai tomar no cu", viraram siglas. VTNC. É uma mudança, admite, ainda que mínima. O tom segue afiado, só que mais codificado. Menos ofensivo aos olhos de quem lê.

O que o incomoda agora é ver a geração atual de jogadores operando sob um regime completamente diferente. Eles não têm liberdade para ser quem são. Há um aparato inteiro ao redor deles — advogados, assessores de comunicação, consultores de imagem — que funciona como um filtro permanente. Cada resposta passa por esse crivo antes de sair da boca do atleta. Certas palavras são proibidas. Certos temas são evitados. O resultado é uma geração de jogadores que parecem programados, vazios de personalidade real.

As redes sociais amplificaram esse controle. O peso delas é imenso agora, maior que qualquer outra força na carreira de um atleta. Um comentário errado, uma frase mal interpretada, e a máquina de destruição digital se move. Os jogadores sabem disso. Então falam como robôs. Falam o que lhes dizem para falar. Perdem a autenticidade no processo.

Romário vê isso como uma perda real. Ele sempre foi polêmico, sim, mas nunca deixou de ser autêntico. Nunca pediu para separar as perguntas antes de uma entrevista, nunca pediu para revisar as respostas. Falava o que pensava, aceitava as consequências. Havia uma integridade nisso, mesmo quando a integridade era desconfortável. Os jogadores de hoje não têm essa opção. O sistema não permite. E o futebol, segundo Romário, fica mais pobre sem essa dimensão humana, sem essa capacidade de um atleta ser simplesmente ele mesmo.

Se o Romário polêmico fosse ruim, eu não estaria onde estou, nem teria conquistado o que conquistei
— Romário
Esses jogadores são meio robotizados para dar entrevista. Isso tem feito com que percam a personalidade, a autenticidade
— Romário
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Você realmente acredita que ser polêmico foi uma vantagem competitiva, ou é uma forma de justificar o passado?

Model

Não é justificativa. Olho para trás e vejo que as portas que se abriram — presidência, negócios, política — abriram porque as pessoas me conheciam de verdade. Não como um personagem. Como Romário mesmo.

Inventor

Mas você moderou nos últimos anos. Isso não contradiz a ideia de que a polêmica é essencial?

Model

Não. Moderação não é morte. É adaptação. Eu ainda sou quem sou, só que entendo melhor o jogo agora. Antes eu não tinha que pensar nisso. Agora tenho responsabilidades diferentes.

Inventor

Você acha que os jogadores de hoje querem ser autênticos mas não conseguem, ou que eles realmente não têm nada para dizer?

Model

Querem, sim. Mas o sistema não deixa. Tem um advogado no ouvido, um assessor no outro. Eles estão presos. E a gente vê isso nas entrevistas — respostas vazias, sem cor, sem vida.

Inventor

As redes sociais são o vilão aqui?

Model

São parte. Mas o vilão maior é o medo. Medo de errar, medo de ofender, medo de ser cancelado. Isso mata a autenticidade mais rápido que qualquer rede social.

Inventor

Você acha que isso vai mudar?

Model

Não sei. Depende se alguém vai ter coragem de ser diferente de novo. Alguém jovem, com talento, que diga: "não vou falar como robô". Aí muda.

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