A cada cem brasileiros, apenas um tinha sido vacinado
Quinze dias após o início da campanha de vacinação contra a Covid-19, o Brasil revelava uma contradição dolorosa: um país capaz de imunizar um milhão de pessoas por dia contra a gripe estava vacinando apenas 136 mil diariamente contra o coronavírus, utilizando somente um quarto das doses já distribuídas aos estados. O que estava em jogo não era apenas logística ou burocracia, mas o tempo — e o tempo, naquele momento, media-se em vidas. Especialistas alertavam que, mantido aquele ritmo, a proteção plena da população adulta levaria entre quatro e cinco anos para se concretizar.
- Com apenas 2 milhões de vacinados em 15 dias, o Brasil corria em câmera lenta enquanto o vírus seguia em velocidade plena.
- Estados acumulavam doses nos estoques: Roraima havia aplicado apenas 11% do que recebera, enquanto a média nacional não passava de 25%.
- A comparação era constrangedora — 40 países com menos tradição em campanhas de imunização superavam o desempenho diário brasileiro.
- A escassez de doses impedia acelerar: chegar a um milhão de vacinados por dia esgotaria o estoque disponível em menos de uma semana.
- Especialistas apontavam falha dupla — falta de insumos e ausência de planejamento — e projetavam um horizonte sombrio de até cinco anos para imunizar todos os adultos.
No dia 17 de janeiro de 2021, o Brasil deu início à sua campanha de vacinação contra a Covid-19. Duas semanas depois, o balanço era desanimador: cerca de 2 milhões de pessoas tinham recebido ao menos uma dose, numa média de 136 mil vacinações por dia. Para um país que, em campanhas anuais contra a gripe, já aplicou mais de um milhão de doses diárias, o número soava quase como uma confissão de fracasso.
O problema não era apenas a lentidão — era o desperdício de oportunidade. Os estados tinham doses em mãos, mas usavam apenas 25% delas. Paraná liderava com 38% de aproveitamento; Roraima havia aplicado míseros 11% do que recebera. Parte da cautela era justificada: era preciso reservar metade do estoque para garantir a segunda dose, sem a qual a imunidade plena não se completaria. Mas mesmo assim, algo claramente não funcionava.
O microbiologista Luiz Gustavo de Almeida traduziu o cenário em números brutais: a cada cem brasileiros, apenas um havia sido vacinado. O país entregava menos doses por dia do que 40 outras nações em processo de imunização. Mantido aquele ritmo, seriam necessários entre quatro anos e meio e cinco anos para vacinar toda a população adulta com as duas doses exigidas — de CoronaVac ou Oxford/AstraZeneca, únicas aprovadas pela Anvisa naquele momento.
O economista Thomas Conti identificava a raiz do impasse: escassez de doses. Diferente das campanhas de gripe, quando o estoque completo chegava de uma vez, a vacinação contra a Covid dependia de remessas incertas e fragmentadas. Se o Brasil atingisse sua capacidade real — um milhão ou mais de doses por dia —, o estoque disponível se esgotaria em menos de uma semana. A infraestrutura existia. A vontade de vacinar existia. O que faltava era o insumo.
O que tornava tudo ainda mais amargo era a consciência de que havia havido tempo para planejar. As vacinas não surgiram de surpresa. O país conhecia seus próprios gargalos. E ainda assim, entre a capacidade demonstrada em outras campanhas e a execução daquele momento, havia uma lacuna que especialistas e gestores lutavam para explicar — e que, a cada dia sem aceleração, custava mais caro em saúde, em tempo e em vidas.
No dia 17 de janeiro de 2021, o Brasil começou a vacinar sua população contra a Covid-19. Pouco mais de duas semanas depois, apenas 2 milhões de pessoas tinham recebido pelo menos uma dose. A conta é simples: 136 mil vacinados por dia. Para um país que consegue aplicar mais de um milhão de doses diárias durante campanhas de gripe, o número parecia quase irrisório.
Mas havia um problema ainda maior escondido nos números. Os estados brasileiros tinham recebido doses suficientes para começar, mas estavam usando apenas uma de cada quatro. Paraná liderava o aproveitamento com 38% de suas doses aplicadas. Roraima, por outro lado, havia usado apenas 11% do que recebera. No geral, a taxa média de utilização era de 25%. Parte dessa cautela era necessária — as autoridades precisavam reservar metade do estoque para garantir que todos pudessem receber a segunda dose, essencial para a proteção máxima contra o vírus. Mas mesmo assim, o ritmo deixava claro que algo não estava funcionando como deveria.
O desafio era monumental. Para que cada um dos 400 milhões de brasileiros maiores de 18 anos ficasse imunizado, seria necessário aplicar mais de 800 milhões de doses — duas de CoronaVac ou de Oxford/AstraZeneca, as únicas vacinas aprovadas pela Anvisa naquele momento. A primeira dose oferecia alguma proteção, embora ninguém soubesse exatamente quanto, já que os testes em humanos não tinham feito essa medição. Era a segunda dose que garantiria a imunidade real.
Luiz Gustavo de Almeida, microbiologista do Instituto Questão de Ciência, não poupou palavras ao avaliar o cenário. A cada cem brasileiros, apenas um tinha sido vacinado. O país estava entregando menos doses por dia do que 40 outras nações que também estavam em processo de imunização. Se o ritmo continuasse assim, alertava, levaria entre quatro anos e meio e cinco anos para vacinar toda a população adulta com as duas doses necessárias. Era um cálculo que assombrava.
Thomas Conti, economista e integrante do grupo Infovid dedicado a divulgar informações sobre a Covid, apontava a raiz do problema: falta de doses. Durante a campanha anual de vacinação contra gripe, o Brasil tinha praticamente todo o estoque disponível nos três meses da campanha. Isso facilitava enormemente o processo logístico. Mas agora, com a pandemia, o país não tinha doses suficientes para sustentar o ritmo que era capaz de alcançar. Se chegasse a um milhão ou 1,5 milhão de vacinados por dia — o que o Brasil sabia fazer — as doses disponíveis acabariam em uma semana.
O que tornava a situação ainda mais frustrante era que havia tempo para planejar. As vacinas não tinham ficado prontas de um dia para o outro. O país teria tido oportunidade de se preparar melhor, de fazer o que sempre soube fazer bem. Mas algo na execução tinha falhado. Mesmo para quem trabalhava dentro do sistema de imunização, era difícil explicar por que tudo estava indo tão devagar. O Brasil enfrentava não apenas a escassez de doses, mas também uma deficiência no planejamento que ameaçava transformar a vacinação em um processo de anos, não de meses.
Notable Quotes
Continuando nesse ritmo, a gente vai demorar 4 anos e meio, 5 anos para vacinar com duas doses todo mundo— Luiz Gustavo de Almeida, microbiologista do Instituto Questão de Ciência
Se nós chegarmos nessas taxas de um milhão, 1,5 milhão de vacinados por dia, as doses que o país dispõe hoje acabam em uma semana— Thomas Conti, economista e integrante do Infovid
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Brasil estava usando apenas 25% das doses que recebia nos primeiros 15 dias?
Parte era necessário — precisavam guardar metade do estoque para a segunda dose. Mas mesmo assim, 25% era muito baixo. Havia problemas de logística, planejamento e capacidade de aplicação que não estavam sendo resolvidos rápido o suficiente.
Como isso se compara com outras campanhas de vacinação que o Brasil já tinha feito?
Durante a gripe, o Brasil consegue vacinar mais de um milhão de pessoas por dia. Aqui estávamos em 136 mil. A diferença é que na gripe o país tem todo o estoque disponível de antemão. Na Covid, não tinha doses suficientes para sustentar nem o ritmo que o Brasil era capaz de fazer.
Se continuasse nesse ritmo, quanto tempo levaria?
Quatro anos e meio a cinco anos para vacinar toda a população adulta com as duas doses. Para um país de 400 milhões de pessoas, era uma perspectiva assustadora.
O que diferenciava estados como Paraná e Roraima?
Paraná conseguiu aplicar 38% de suas doses nos primeiros 15 dias. Roraima apenas 11%. Não estava claro se era questão de infraestrutura, planejamento local ou capacidade de distribuição, mas a disparidade era grande.
Qual era o maior obstáculo — falta de doses ou falta de planejamento?
Os dois. Havia falta de doses para sustentar um ritmo maior, mas também havia falta de planejamento. O Brasil teria tido tempo para se preparar melhor. Mesmo quem trabalhava dentro do sistema de imunização não conseguia explicar por que tudo estava tão lento.