É como se uma enchente tivesse devastado um estado inteiro
Um ano após as enchentes de maio de 2024, o Rio Grande do Sul carrega a memória de uma tragédia que submergio 418 municípios e alterou a vida de quase um milhão de pessoas — mais do que a população inteira de três estados brasileiros. Porto Alegre reconstruiu seus cartões-postais, mas nos bairros periféricos as cicatrizes ainda sangram: casas destruídas, negócios perdidos, vidas que ainda tentam encontrar o chão firme. A água recuou; o peso que ela deixou, não.
- Em maio de 2024, a enchente mais devastadora da história gaúcha atingiu 418 dos 497 municípios do estado, forçando quase um milhão de pessoas a enfrentar a perda de tudo que construíram.
- Cidades inteiras foram quase completamente submersas — em Eldorado do Sul, 82,2% da população foi afetada; em Muçum, 79,1% — transformando comunidades em ilhas de desespero.
- Marcos históricos como o Mercado Público e o Aeroporto Salgado Filho foram reconstruídos e voltaram a funcionar, sinalizando uma recuperação visível no coração de Porto Alegre.
- Nos bairros periféricos como Sarandi, porém, a reconstrução é lenta e desigual: casas permanecem destruídas e moradores como Lozaldo, que perdeu seu bar, ainda tentam reerguer suas vidas.
- A série 'O Peso da Água' documenta que a tragédia não terminou com a vazante — os traumas persistem, e o barro emocional ainda precisa ser limpo.
Doze meses se passaram desde que a água invadiu o Rio Grande do Sul e transformou 418 municípios em zonas de calamidade. Na capital, Porto Alegre, 125.500 pessoas acordaram em um mundo submerso, com 84.800 endereços atingidos. Os números são abstratos até o momento em que se caminha por uma rua conhecida e se vê a marca da água ainda impressa nas paredes.
O Mercado Público Municipal e o Aeroporto Internacional Salgado Filho — dois dos símbolos mais reconhecíveis da cidade — ficaram completamente submersos. Hoje, ambos funcionam novamente. Mas quem entra no Mercado percebe que algo mudou: prateleiras, produtos e a memória do lugar precisaram ser refeitos do zero. A reconstrução é real, mas carrega o peso do que foi perdido.
No bairro Sarandi, a história é outra. A água subiu tanto que quase cobriu casas inteiras. Um ano depois, algumas se recuperaram; outras permanecem destruídas. Lozaldo perdeu o bar que mantinha há anos — não é um dado estatístico, é uma vida inteira que desapareceu com a correnteza.
Ao todo, 970.788 pessoas foram atingidas no estado — mais do que a população do Acre, do Amapá ou de Roraima. Em Canoas, foram 157.800 afetados; em São Leopoldo, 90.371. A dimensão da tragédia equivale à devastação de um estado inteiro.
Um ano depois, Porto Alegre segue em reconstrução desigual. Nos bairros altos, as marcas são discretas. No centro, os cartões-postais foram restaurados. Mas nas áreas que ficaram submersas por mais tempo, as cicatrizes são profundas. A série de reportagens 'O Peso da Água' acompanha essa recuperação em Eldorado do Sul, Porto Alegre, Canoas e São Leopoldo — documentando não apenas o que foi reconstruído, mas os traumas que a água deixou para trás. A enchente passou. As pessoas continuam limpando o barro.
Doze meses se passaram desde que a água invadiu Porto Alegre e transformou o Rio Grande do Sul em um estado de calamidade. Naquele maio de 2024, a enchente não poupou ninguém—nem os cartões-postais da cidade, nem as casas humildes dos bairros periféricos. Dos 497 municípios gaúchos, 418 decretaram estado de calamidade ou emergência. Na capital, 125.500 pessoas acordaram em um mundo submerso. Outras 84.800 endereços foram atingidos. Os números são abstratos até o momento em que você caminha por uma rua que conhece e vê a marca da água ainda visível nas paredes.
O Mercado Público Municipal, aquele prédio histórico no coração de Porto Alegre que aparece em cartões-postais, desapareceu sob a água. Hoje, um ano depois, ele está de pé novamente. Reconstruído. Mas quem entra percebe que algo mudou fundamentalmente. Há muita coisa nova porque muita coisa foi perdida. As prateleiras, os produtos, a memória do lugar—tudo precisou ser refeito. O Aeroporto Internacional Salgado Filho correu a mesma sorte. Ficou completamente submerso, paralisado. Agora funciona normalmente, os aviões decolam e pousam como se nada tivesse acontecido. Mas as imagens daquele caos ainda existem em arquivos e memórias.
O bairro Sarandi conta uma história diferente. Lá, a água subiu tanto que quase cobriu as casas inteiras. Um ano depois, algumas se recuperaram. Outras permanecem destruídas. Um homem chamado Lozaldo perdeu o bar que tinha há anos naquele bairro. Não é um número em uma tabela. É um negócio, uma vida, uma rotina que desapareceu.
Os números, porém, ajudam a dimensionar o que aconteceu. Em Canoas, 157.800 pessoas foram atingidas. Em São Leopoldo, 90.371. Rio Grande, Pelotas, Eldorado do Sul—a lista é longa e pesada. Mas há outra forma de contar: pela porcentagem. Em Eldorado do Sul, 82,2% da população inteira foi afetada. Em Muçum, 79,1%. Não são cidades que sofreram uma enchente. São cidades que foram quase completamente submersas.
No total, 970.788 pessoas no Rio Grande do Sul foram atingidas pelas enchentes. Para colocar isso em perspectiva: é mais gente do que a população inteira do Acre, do Amapá ou de Roraima. É como se uma enchente tivesse devastado um estado inteiro. Três estados brasileiros têm menos habitantes do que o número de pessoas que perderam suas casas, seus negócios, suas rotinas naquele mês de maio.
Um ano depois, Porto Alegre segue em reconstrução. Nos bairros altos, as marcas da água são discretas se você não souber procurar. No centro, os cartões-postais foram restaurados. Mas nos bairros que ficaram submersos, as cicatrizes são mais profundas. Casas destruídas ainda existem. Pessoas que perderam tudo ainda estão tentando reconstruir. A série de reportagens que acompanhou essa recuperação, visitando Eldorado do Sul, Porto Alegre, Canoas e São Leopoldo, documenta não apenas a reconstrução física, mas os traumas que permanecem. A água recuou. As pessoas continuam limpando o barro.
Citas Notables
Lozaldo perdeu o bar que tinha há anos no bairro Sarandi por conta da enchente— Documentado pela reportagem
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que um ano depois ainda há casas destruídas se a reconstrução começou logo após a enchente?
Porque reconstruir não é apenas colocar tijolos de novo. Muitas famílias perderam tudo e não têm recursos para começar do zero. Outras estão esperando indenizações que não chegam. É um processo muito mais lento do que parece.
O Mercado Público foi reconstruído rapidamente. Por que não aconteceu o mesmo nos bairros?
Um prédio histórico tem visibilidade política e recursos. Uma casa de um trabalhador em Sarandi não tem a mesma prioridade. Além disso, o Mercado é um símbolo—reconstruir ele é reconstruir a imagem da cidade. As casas das pessoas comuns são reconstruir vidas.
Você mencionou que 970 mil pessoas foram atingidas. Como se vive um ano depois de perder tudo?
Muitos ainda estão em casas alugadas ou com familiares. Alguns abriram novos negócios, mas perderam anos de trabalho. Outros simplesmente desistiram e saíram da cidade. A enchente não terminou em maio—ela continua acontecendo nas vidas das pessoas.
O que significa que 82% da população de Eldorado do Sul foi atingida?
Significa que praticamente ninguém escapou. Não há um lado seguro da cidade. Toda a comunidade foi traumatizada junto. Não é como um desastre localizado—é um desastre total.
Por que essa série se chama 'O Peso da Água'?
Porque a água não desaparece quando recua. Ela deixa peso—nas estruturas das casas, nas memórias das pessoas, nas cicatrizes emocionais. Um ano depois, o peso ainda está lá.