Se algum criminoso mata um agente nosso, vamos perseguir até que seja capturado
Por quase quatro décadas, o nome de Rafael Caro Quintero pesou sobre a consciência das relações entre México e Estados Unidos como uma ferida que se recusava a fechar. Fundador do Cartel de Guadalajara e mandante do assassinato do agente da DEA Kiki Camarena em 1985, ele escapou da prisão por um tecnicismo legal em 2013 e viveu nove anos na clandestinidade — até que militares mexicanos o encontraram em Sinaloa, aos 69 anos, encerrando uma das mais longas perseguições internacionais da história do combate ao narcotráfico. Sua recaptura não devolve os mortos, mas fecha um capítulo que muitos acreditavam jamais ter fim.
- A libertação de Caro Quintero em 2013 por tecnicismo legal foi recebida como uma afronta pelos Estados Unidos, que imediatamente emitiram pedido de extradição e colocaram recompensa de US$ 20 milhões — a maior já oferecida por um criminoso mexicano.
- Por nove anos, o 'Narco dos Narcos' viveu na sombra, negando publicamente envolvimento no assassinato de Camarena e afirmando querer apenas paz, enquanto a DEA o classificava como alvo de altíssimo valor.
- A morte de Kiki Camarena em 1985 — torturado e assassinado junto ao piloto Alfredo Zavala — transformou o caso em questão de honra institucional para a DEA, que prometeu perseguir Caro Quintero 'por todo o mundo'.
- Militares mexicanos localizaram e prenderam Caro Quintero em Sinaloa na sexta-feira, encerrando uma fuga de quase uma década e entregando à DEA uma vitória que seus agentes descreveram como resultado de 'sangue, suor e lágrimas'.
Rafael Caro Quintero tinha 14 anos quando começou a plantar maconha nas serras de Badiraguato, Sinaloa — órfão, pobre, alimentando irmãos. Décadas depois, era o senhor do Cartel de Guadalajara, sócio de Félix Gallardo e Fonseca Carrillo, com uma fortuna estimada em 500 milhões de dólares e laços com Pablo Escobar e o Cartel de Medellín. Ostentação e poder andavam juntos: joias, roupas de grife, e a habilidade de se apresentar ao mundo como simples agricultor.
Tudo mudou quando o agente da DEA Enrique 'Kiki' Camarena se infiltrou no cartel entre 1982 e 1984, resultando na destruição de um cultivo de mais de mil hectares no Rancho Búfalo, no Chihuahua. Para Caro Quintero, foi humilhação insuportável. Em 1985, Camarena desapareceu. Seu corpo e o do piloto Alfredo Zavala foram encontrados em março daquele ano. As autoridades americanas apontaram Caro Quintero como mandante da tortura e do assassinato. O crime abalou as relações entre os dois países e acelerou a desintegração do cartel. Ele foi preso na Costa Rica em abril de 1985 e condenado a 40 anos.
Em agosto de 2013, um tecnicismo legal o colocou em liberdade. Os Estados Unidos reagiram com pedido imediato de extradição e uma recompensa de 20 milhões de dólares — o dobro do valor oferecido pelo líder do Cartel Jalisco Nova Geração. Na clandestinidade, Caro Quintero negou à revista Proceso qualquer envolvimento na morte de Camarena, dizendo que só queria viver em paz. A DEA não aceitou essa versão. 'Era uma questão pessoal para nós', declarou o ex-chefe de operações internacionais Mike Vigil.
Nove anos depois, militares mexicanos o encontraram em Sinaloa. Aos 69 anos, o 'Narco dos Narcos' foi recapturado. A diretora da DEA, Anne Milgram, celebrou o resultado como fruto de 'sangue, suor e lágrimas'. A perseguição que atravessou décadas e continentes terminou onde tudo havia começado — no mesmo estado que um dia o viu plantar sua primeira roça nas montanhas.
Rafael Caro Quintero tinha 69 anos quando militares mexicanos o encontraram em Sinaloa na sexta-feira. Nove anos antes, um tecnicismo legal o havia libertado da prisão. Nove anos de fuga terminaram em captura — e com ela, o encerramento de uma das maiores perseguições internacionais contra um criminoso mexicano.
Caro Quintero não era um traficante qualquer. Nos anos 1980, ele era o senhor da maconha no México, sócio de Miguel Ángel Félix Gallardo e Ernesto Fonseca Carrillo no que se tornou conhecido como Cartel de Guadalajara. Sua fortuna chegou a cerca de 500 milhões de dólares. Ele começou aos 14 anos em Badiraguato, Sinaloa — a mesma região que produziria depois Joaquín "El Chapo" Guzmán — plantando maconha na serra porque era órfão, pobre, e precisava alimentar seus irmãos. Assim contou à revista Processo em 2016, já na clandestinidade. Mais tarde, o cartel expandiu para a cocaína, graças aos laços que Félix Gallardo mantinha com Pablo Escobar e o Cartel de Medellín.
Caro Quintero era conhecido pela ostentação: joias, roupas de grife, a vida visível de quem acumulava poder e dinheiro. Mas havia também uma habilidade real para os negócios, para navegar o submundo. Ele se apresentava como agricultor honesto enquanto construía um império. Tudo mudou quando Enrique "Kiki" Camarena, agente da DEA de origem mexicana, se infiltrou no cartel entre 1982 e 1984. A infiltração resultou na destruição de um cultivo de 2.500 acres — aproximadamente 1.011 hectares — em uma fazenda chamada Rancho Búfalo, no Chihuahua. Para Caro Quintero, foi humilhação e prejuízo imenso.
Em 1985, Camarena desapareceu. Seu corpo foi encontrado em uma vala em março daquele ano, junto com o do piloto mexicano Alfredo Zavala. Segundo as autoridades americanas, Caro Quintero ordenou a tortura e o assassinato como vingança contra a agência. O crime abalou as relações entre Estados Unidos e México e radicalizou o combate às drogas. O Cartel de Guadalajara começou a desintegrar-se. Caro Quintero foi detido na Costa Rica em abril de 1985 e condenado a 40 anos de prisão pelo duplo homicídio.
Mas em agosto de 2013, um tecnicismo legal o libertou. O governo americano imediatamente pediu sua captura para extradição sob acusações de sequestro, assassinato de agente federal, posse e distribuição de cocaína e maconha. Caro Quintero desapareceu novamente. A DEA ofereceu 20 milhões de dólares por informações que levassem à sua recaptura — o preço mais alto já colocado sobre a cabeça de um criminoso mexicano, superior até mesmo ao oferecido por Nemesio Oseguera, "El Mencho", líder do Cartel Jalisco Nova Geração, por quem se oferecia 10 milhões.
Na clandestinidade, Caro Quintero negou ter participado do assassinato de Camarena. "Não o sequestrei, não o torturei e não o matei", disse à Proceso, afirmando que só queria viver em paz. Mas para a DEA, a questão nunca foi apenas criminal. "Era uma questão pessoal para nós", disse Mike Vigil, ex-chefe de operações internacionais da agência. "Se algum criminoso mata um agente nosso, então vamos perseguir um indivíduo assim como Caro Quintero por todo o mundo até que seja capturado." Anne Milgram, diretora da DEA, descreveu a recaptura como resultado de "sangue, suor e lágrimas", destacando que era um alvo de altíssimo valor. A captura marca uma vitória simbólica para a agência e para a cooperação entre México e Estados Unidos — uma perseguição que durou décadas, atravessou continentes, e finalmente terminou em Sinaloa.
Citações Notáveis
Não o sequestrei, não o torturei e não o matei— Rafael Caro Quintero, em entrevista à revista Proceso na clandestinidade
Era uma questão pessoal para nós. Se algum criminoso mata um agente nosso, então vamos perseguir um indivíduo assim como Caro Quintero por todo o mundo até que seja capturado— Mike Vigil, ex-chefe de operações internacionais da DEA
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Caro Quintero permaneceu tão procurado por tanto tempo, mesmo depois de cumprir sua sentença?
Porque a morte de Kiki Camarena nunca foi apenas um crime para a DEA. Foi uma ferida pessoal. Um agente americano infiltrado, torturado, morto. Isso não se esquece nem se perdoa.
Mas ele foi condenado por isso em 1985. Por que a perseguição continuou após sua libertação em 2013?
Porque a libertação foi técnica, não substancial. Um erro processual o colocou na rua. Para os americanos, isso era inaceitável. Vinte milhões de dólares — mais do que ofereciam por qualquer outro criminoso mexicano — mostra o quanto isso importava.
Ele negava ter matado Camarena. Havia dúvida sobre sua culpa?
Não havia dúvida para as autoridades americanas. Mas Caro Quintero mantinha a negação mesmo na clandestinidade. Talvez acreditasse. Talvez fosse apenas estratégia. O que importa é que, para a DEA, ele era responsável — ordenou, supervisionou, ou permitiu que acontecesse.
O que mudou entre 2013 e 2022 que permitiu sua captura?
Não sabemos os detalhes. Mas nove anos é tempo suficiente para uma rede de informantes se consolidar, para erros de segurança acontecerem, para a vigilância internacional apertar. Ele era velho, cansado talvez. E o México, sob pressão dos EUA, finalmente o encontrou.
Qual é o significado real dessa captura?
É simbólico e prático. Simbolicamente, diz que ninguém escapa para sempre, que matar um agente americano tem consequências que atravessam décadas. Praticamente, reforça a cooperação entre México e EUA no combate ao narcotráfico. Mas também é um lembrete de que a guerra às drogas continua, e seus custos humanos nunca foram pagos completamente.