Vozinha: o goleiro de 40 anos que conquistou 1 milhão de seguidores na estreia histórica de Cabo Verde

Foi sempre na minha força de vontade que cheguei onde cheguei
Vozinha reflete sobre sua trajetória sem estrutura formal de treinamento, apenas determinação pessoal.

Vozinha defendeu Cabo Verde em empate 0 a 0 contra a Espanha, conquistando resultado histórico na primeira participação do país em Copas do Mundo. O goleiro cresceu em São Vicente, Cabo Verde, criado pelos avós, e construiu carreira longe dos grandes holofotes, passando por Angola, Moldávia, Portugal, Chipre e Eslováquia.

  • Empate 0 a 0 contra a Espanha na estreia de Cabo Verde na Copa do Mundo 2026
  • Vozinha ganhou um milhão de seguidores durante a partida, começando com 50 mil
  • Goleiro de 40 anos, nascido em 3 de junho de 1986, em São Vicente, Cabo Verde
  • Segundo jogador com mais partidas pela seleção, com 90 jogos disputados
  • Carreira profissional começou aos 25 anos em Angola, passando por sete países

Josimar José Évora Dias, o Vozinha, goleiro de 40 anos de Cabo Verde, tornou-se sensação nas redes sociais ao defender brilhantemente contra a Espanha na estreia histórica do país na Copa do Mundo, ganhando um milhão de seguidores.

Na segunda-feira, 15 de junho, quando o apito final ecoou no estádio, Josimar José Évora Dias — conhecido como Vozinha — tinha 40 anos completos há apenas uma semana e acabava de viver o momento mais importante de sua carreira. O goleiro de Cabo Verde havia segurado a Espanha, campeã europeia, em um empate sem gols que marcava a estreia histórica de seu país em uma Copa do Mundo. Enquanto seus companheiros celebravam o resultado, algo inesperado acontecia longe do campo: suas redes sociais explodiram. Começou a partida com 50 mil seguidores. Terminou com mais de um milhão.

Vozinha não era um nome desconhecido em Cabo Verde — era o segundo jogador com mais partidas pela seleção, com 90 jogos disputados, atrás apenas de Ryan Mendes. Mas fora das ilhas, poucos sabiam quem era esse goleiro que havia construído sua carreira inteira longe dos grandes holofotes, passando por clubes semiprofissionais em Cabo Verde, depois Angola, Moldávia, Portugal, Chipre e Eslováquia. Sua história começou em 3 de junho de 1986, em São Vicente, quando seu pai, o militar Zé Pedro, quis batizá-lo em homenagem a um jogador campeão da Copa do México. A primeira escolha foi Valdano, em referência ao atacante argentino Jorge Valdano. As autoridades cabo-verdianas recusaram. A alternativa veio do Brasil: Josimar Higino Pereira, lateral-direito que havia brilhado na Copa de 1986 com dois gols memoráveis. Assim nasceu Josimar José Évora Dias.

O apelido que o acompanharia pela vida, porém, tinha origem bem diferente. Vozinha surgiu na infância, em São Vicente, ligado aos avós Maria Senhorinha dos Santos e Manuel da Luz Moraes, que o criaram enquanto seus pais trabalhavam — o pai no serviço militar, a mãe em seus compromissos. Na rua onde morava, os meninos eram mais velhos e os jogos de futebol eram duros. Competitivo desde pequeno, Josimar não aceitava perder nem apanhar sem reagir. Quando voltava para casa irritado depois de levar pancadas, os outros garotos começaram a dizer que ele ia reclamar com os avós. A provocação virou apelido. "Muitas vezes ia com a cara trancada, chateada, cheia de raiva e falavam que eu ia fazer sempre queixas aos meus avós e começaram a me chamar de 'Vozinha'", contou à ESPN. Com o tempo, a provocação ganhou outra dimensão — deixou de ser insulto e virou homenagem aos avós que marcaram sua formação.

Profissionalmente, Vozinha não seguiu o caminho comum. Começou no futebol semiprofissional de Cabo Verde, passando por clubes como Batuque e Mindelense, antes de sair do país aos 25 anos para assinar com o Progresso do Sambizanga, em Angola. "Não tive base ou aquela escola para me ensinar a ser goleiro e as técnicas", disse. "Foi sempre na minha força de vontade, no trabalhar, no saber ouvir e no saber aprender, que cheguei onde cheguei." Sua estreia profissional teve um detalhe especial: foi contra Rivaldo, pentacampeão mundial pela Seleção Brasileira, que na época defendia o Kabuscorp. Entre 2012 e 2014, veio ao Brasil com a equipe angolana para períodos de pré-temporada em Belo Horizonte, enfrentando Cruzeiro e Atlético-MG em jogos-treino. Depois buscou novos caminhos na Europa, passando por Moldávia, Portugal, Chipre e Eslováquia, consolidando-se no AEL Limassol, onde ficou cinco anos. Mais recentemente, jogou pelo Chaves, da Segunda Liga Portuguesa, chegando em 2024 para ocupar a vaga deixada por Hugo Souza, que retornou ao Brasil para defender o Corinthians.

Seis meses após se profissionalizar em Angola, Vozinha estreou pela seleção em 2012, em uma vitória por 2 a 0 sobre Camarões que ajudou Cabo Verde a se classificar pela primeira vez para a Copa Africana de Nações, em 2013. Desde então, disputou quatro edições da CAN e se tornou um dos jogadores mais queridos do país. Capitão durante as eliminatórias, ele viu a classificação para a Copa de 2026 como um marco que transcendia o futebol. "Ver as pessoas chorando de alegria, um choro de orgulho, de sentimento, de pertencimento ao país. A seleção uniu o povo", disse. "Acho que foi o momento mais marcante das nossas vidas. E também do povo cabo-verdiano, porque foi um momento único, um sonho de várias gerações."

A ligação de Vozinha com o Brasil vai além de seu nome. Cresceu consumindo cultura brasileira em Cabo Verde — novelas como Xica da Silva, Malhação e Rei do Gado, músicas de Ivete Sangalo, Seu Jorge e Cidade Negra. Tem um irmão que mora em Recife. No futebol, seus ídolos também passaram pelo Brasil: além de Josimar, admirava Rogério Ceni, Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho. "Gostava muito do Rogério Ceni porque era um goleiro que batia faltas e pênaltis", disse. Essa admiração refletia sua própria personalidade — um goleiro que, antes de se especializar, gostava de jogar com os pés e se definia como competitivo.

Antes da Copa do Mundo, Vozinha encerrou o contrato com o Chaves e chegou ao torneio sem clube. Ainda assim, o retorno a Portugal havia tido importância pessoal. "Era o momento de regressar a um país onde falam a mesma língua. Um lugar onde a comida e a cultura são um pouco idênticas à nossa. E um país mais perto de casa", explicou. Agora, aos 40 anos, uma semana depois de seu aniversário, ele havia vivido seu maior momento esportivo. Não apenas defendeu brilhantemente contra a Espanha, mas unificou um povo inteiro em torno de um sonho que gerações de cabo-verdianos carregavam. O que começou como uma carreira construída longe dos holofotes terminou, pelo menos por enquanto, sob os olhos de um milhão de pessoas que descobriram, em uma noite de junho, quem era Vozinha.

Ver as pessoas chorando de alegria, um choro de orgulho, de sentimento, de pertencimento ao país. A seleção uniu o povo.
— Vozinha, sobre a classificação de Cabo Verde para a Copa do Mundo
Não tive base ou aquela escola para me ensinar a ser goleiro e as técnicas. Foi sempre na minha força de vontade, no trabalhar, no saber ouvir e no saber aprender, que cheguei onde cheguei.
— Vozinha, sobre sua formação profissional
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como um goleiro de 40 anos, sem experiência em grandes ligas, consegue defender tão bem contra a Espanha, campeã europeia?

Model

Vozinha não é um goleiro comum. Ele construiu sua carreira inteira com força de vontade, passando por sete países diferentes, aprendendo em cada um deles. Quando você joga 90 vezes pela seleção, você desenvolve uma inteligência de jogo que nenhuma escola de goleiros pode ensinar.

Inventor

Mas por que ele ganhou um milhão de seguidores em uma noite? Não é apenas sobre uma boa defesa.

Model

É sobre o que ele representa. Um homem que cresceu criado pelos avós em uma rua onde apanhava de meninos mais velhos, que saiu de Cabo Verde aos 25 anos, que jogou em sete países diferentes, e que agora, aos 40 anos, está na Copa do Mundo defendendo seu país contra a campeã europeia. As pessoas não estavam seguindo um goleiro — estavam seguindo uma história.

Inventor

O apelido Vozinha vem de uma provocação infantil sobre reclamar com os avós. Como isso muda de significado?

Model

Muda porque os avós foram tudo para ele. Quando o apelido deixa de ser insulto e vira homenagem, ele carrega toda a história de quem o criou. Vozinha não é mais uma provocação — é uma lembrança de que ele chegou onde chegou porque teve quem o amparasse.

Inventor

Ele tinha um irmão em Recife, cresceu vendo novelas brasileiras, admirava Rogério Ceni. Por que o Brasil importa tanto para Cabo Verde?

Model

Porque compartilham a língua, a cultura, a música. Para Vozinha, o Brasil não era um país distante — era parte de sua vida cotidiana. Quando ele escolheu o nome Josimar, quando admirava Rogério Ceni, estava conectado a algo que fazia sentido em casa.

Inventor

Ele chegou à Copa sem clube. Como isso afeta um jogador nessa situação?

Model

Normalmente seria uma desvantagem. Mas para alguém que construiu uma carreira inteira sem as estruturas que outros têm, estar sem clube é apenas mais um obstáculo. Vozinha já havia superado tantos que um a mais não fazia diferença.

Inventor

O que muda agora, depois dessa noite?

Model

Tudo e nada. Ele continua sendo o mesmo goleiro que aprendeu a jogar nas ruas de São Vicente. Mas agora um milhão de pessoas sabem quem ele é. A questão é se isso vai abrir portas ou se vai ser apenas um momento brilhante em uma carreira que sempre foi construída longe dos holofotes.

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