O vírus trabalha nos bastidores, transformando o fígado saudável em cicatriz
Enquanto o Brasil enfrentava a crise visível da Covid-19, doenças silenciosas aprofundavam sua presença invisível: entre 2019 e 2020, os diagnósticos e tratamentos de hepatites virais despencaram mais de 40%, deixando milhares de pessoas sem saber que carregam vírus capazes de transformar o fígado em cicatriz. Hepatites B e C avançam sem sintomas por anos, e o tempo perdido durante a pandemia pode se converter, nas próximas décadas, em ondas de cirrose e câncer de fígado. Especialistas alertam que recuperar esse terreno exige não apenas reabrir postos de saúde, mas reconquistar a confiança de uma população que aprendeu, por necessidade, a evitar os serviços de saúde.
- A pandemia desarticulou postos de saúde e afastou a população dos serviços, criando um vácuo perigoso para doenças que já eram invisíveis por natureza.
- O número de pessoas em tratamento para hepatite C caiu 48% em apenas um ano — um colapso que representa vidas reais em risco de cirrose e câncer de fígado.
- Hepatites B e C juntas respondem por 74% dos casos notificados no Brasil, e a hepatite C já foi responsável por mais de 76% das mortes por hepatite viral entre 2000 e 2018.
- O SUS oferece testes rápidos gratuitos com resultado em 15 minutos e tratamento com taxa de cura superior a 95% para hepatite C, mas o desafio é fazer as pessoas chegarem até esses recursos.
- Especialistas pedem testagem urgente para maiores de 20 anos e grupos de risco, e disponibilizaram o número 0800 882 8222 para orientar quem não sabe por onde começar.
Durante a pandemia de Covid-19, enquanto o país concentrava sua atenção no novo vírus, as hepatites virais avançaram em silêncio. Entre 2019 e 2020, o número de pessoas em tratamento para hepatite C caiu 48%, segundo o Instituto Brasileiro do Fígado — reflexo de uma queda superior a 40% nas testagens, causada pela desarticulação dos postos de saúde e pelo medo da população de buscar atendimento.
O problema central é que hepatites B e C não se anunciam. Evoluem sem sintomas claros por anos, e quando sinais aparecem — febre, enjoo, mal-estar — são facilmente confundidos com outras doenças. Enquanto isso, o vírus transforma silenciosamente o tecido hepático em fibrose, que pode evoluir para cirrose e, depois, para câncer de fígado. São as chamadas 'mortes silenciosas' que preocupam especialistas: pessoas infectadas que desconhecem sua condição e deixam a doença progredir sem tratamento.
A transmissão ocorre por caminhos muitas vezes despercebidos — compartilhamento de objetos perfurocortantes, tatuagens e piercings sem controle sanitário, relações sexuais sem preservativo. A hepatite A segue rota diferente, ligada à falta de saneamento e higiene.
O SUS oferece respostas concretas: teste rápido gratuito com resultado em 15 minutos, vacina para hepatite B disponível para todos os brasileiros, e tratamento para hepatite C com taxa de cura superior a 95% em três meses. A recomendação é que maiores de 20 anos não vacinados, maiores de 40 anos, usuários de drogas injetáveis e outros grupos de risco procurem diagnóstico. O Instituto Brasileiro do Fígado mantém o canal 0800 882 8222 para orientar a população.
O desafio agora é dimensionar o dano invisível deixado pela pandemia — e alcançar, antes que seja tarde, quem ainda não sabe que está doente.
Durante a pandemia de Covid-19, enquanto a atenção do país se voltava para o novo vírus, outra ameaça silenciosa ganhou espaço. Entre 2019 e 2020, o número de pessoas em tratamento para hepatite C despencou 48%, de acordo com dados do Instituto Brasileiro do Fígado. A queda reflete um cenário mais amplo: testagens para hepatites virais caíram mais de 40% no mesmo período, porque muitos postos de saúde foram desarticulados e a população evitou procurar os serviços de saúde com medo de contrair Covid-19.
O problema é que hepatites B e C não anunciam sua presença. Elas evoluem de forma silenciosa, frequentemente sem qualquer sintoma que alerte o paciente ou o médico. Quando sinais aparecem, são genéricos demais — febre, enjoo, vômitos, tontura, mal-estar — facilmente confundidos com outras doenças. Apenas em alguns casos surge icterícia, aquele amarelamento da pele e dos olhos que finalmente chama atenção. Enquanto isso, o vírus trabalha nos bastidores, transformando o fígado saudável em tecido cicatricial. Essa fibrose hepática, quando avançada, vira cirrose. E pacientes com cirrose têm risco muito maior de desenvolver câncer de fígado.
Os números revelam a gravidade. Hepatites B e C juntas respondem por cerca de 74% de todos os casos notificados de hepatites virais no Brasil. Entre 2000 e 2018, a hepatite C foi responsável por mais de 76% das mortes por hepatite viral no país. Essas são as chamadas "mortes silenciosas" que preocupam especialistas agora: pessoas que não sabem que estão infectadas, que não procuram diagnóstico, que deixam a doença evoluir sem tratamento.
A transmissão ocorre de formas que muitas vezes passam despercebidas. Compartilhar objetos perfurocortantes — seringas, agulhas, alicates de unha — é um caminho. Tatuagens e piercings feitos fora de normas sanitárias também. Relações sexuais sem preservativo. Procedimentos cirúrgicos realizados sem os devidos cuidados. A hepatite A, menos grave, segue outro caminho: falta de saneamento básico e higiene, transmissão fecal-oral.
Mas há esperança no sistema público. O SUS oferece testagem gratuita para hepatite B e C através de um teste rápido que coleta sangue da ponta do dedo e fornece resultado em cerca de 15 minutos. O tratamento também é coberto: hepatite B recebe medicamentos que impedem a progressão da doença; hepatite C conta com um tratamento de três meses com taxa de cura superior a 95%. Existe vacina para hepatite B, disponível gratuitamente para todos os brasileiros desde 2016, com cobertura ampliada. Para hepatite A, a vacina está disponível para menores de cinco anos.
A recomendação é que maiores de 20 anos que não foram vacinados contra hepatite B façam o teste. Também devem procurar diagnóstico maiores de 40 anos em geral, usuários de drogas injetáveis, pessoas que fizeram tatuagens ou piercings, aquelas com múltiplos parceiros sexuais, e quem consome álcool em excesso. O Instituto Brasileiro do Fígado criou um canal de comunicação — o número 0800 882 8222 — para orientar a população sobre onde fazer testes e iniciar tratamento pelo SUS.
O desafio agora é recuperar o terreno perdido durante a pandemia. Enquanto os postos de saúde foram sendo rearticulados e a população retomou a confiança em procurar os serviços, a pergunta que fica é quantas pessoas permanecerão sem diagnóstico, quantas deixarão suas infecções evoluirem silenciosamente para cirrose e câncer. A queda de 48% em diagnósticos não é apenas um número estatístico — é um aviso de que muita gente ainda não sabe que está doente.
Citas Notables
Houve uma redução de mais de 40% nas testagens para as hepatites virais durante a pandemia, porque muitos pontos de testagem foram desarticulados e a população parou de procurar os postos de saúde com receio de contrair a Covid-19— Paulo Bittencourt, gastroenterologista e presidente do Instituto Brasileiro do Fígado
As doenças crônicas do fígado não tratadas têm chance de evoluir para uma fibrose hepática, que, quando avançada, é uma cirrose. Os pacientes com cirrose têm um risco muito maior que a população em geral de ter câncer de fígado— Isaac Altikes, gastroenterologista do Hospital Santa Catarina
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a pandemia causou essa queda tão dramática nos diagnósticos?
Dois fatores principais. Muitos postos de testagem foram desarticulados porque os recursos foram redirecionados para Covid-19. Mas também houve medo na população — as pessoas evitavam ir aos postos de saúde com receio de contrair o novo vírus.
E por que isso é tão perigoso especificamente com hepatite C?
Porque a doença não avisa. A maioria das pessoas não sente nada. O vírus fica trabalhando silenciosamente no fígado, transformando tecido saudável em cicatriz. Quando finalmente causa sintomas, muitas vezes já virou cirrose ou câncer.
Qual é a taxa de cura se alguém conseguir tratamento?
Acima de 95% para hepatite C. O tratamento dura cerca de três meses. O problema é que muita gente nunca vai descobrir que tem a doença porque não fez o teste.
Quem deveria estar mais preocupado em procurar diagnóstico?
Qualquer um acima de 40 anos, na verdade. Mas especialmente pessoas que fizeram tatuagens ou piercings sem cuidado sanitário, usuários de drogas injetáveis, quem tem múltiplos parceiros sexuais, e pessoas que bebem muito.
O teste é complicado?
Não. É rápido e gratuito. Coleta sangue da ponta do dedo e o resultado sai em 15 minutos. Depois, se for positivo, encaminha para um serviço especializado.
E se alguém descobre que tem hepatite C agora, depois de meses sem diagnóstico?
Ainda assim consegue cura com o tratamento do SUS. Mas quanto mais tempo passa, maior o risco de a doença ter evoluído para cirrose. Por isso o alerta agora é tão importante — recuperar as pessoas que ficaram sem diagnóstico durante a pandemia.