Maradona não era um cidadão comum. Era um símbolo cultural inteiro.
Durante a Copa do Mundo de 2026, uma versão digital de Diego Maradona — recriada por inteligência artificial — foi usada para promover apostas online, seis anos após sua morte. A campanha, autorizada pelos herdeiros, reacendeu um debate que vai além do direito de imagem: quem, afinal, é o guardião da memória de um símbolo nacional? O episódio revela que a tecnologia avançou mais depressa do que a lei, e que figuras que pertencem a uma nação inteira não se encaixam facilmente nas categorias jurídicas pensadas para indivíduos comuns.
- Um Maradona jovem e digitalmente ressuscitado apareceu nos estádios da Copa de 2026 vendendo apostas — produto que o ídolo, em vida, havia criticado publicamente.
- A indignação nas redes sociais foi imediata: torcedores argentinos classificaram a propaganda como 'lamentável' e 'desrespeitosa', num país onde um em cada quatro adolescentes já apostou ilegalmente.
- A BetWarrior alegou ter autorização dos herdeiros, mas especialistas apontam que consentimento familiar não resolve a questão da identidade pública de um símbolo cultural compartilhado por milhões.
- Juristas da UBA e da Torcuato Di Tella alertam que a legislação atual não contempla clones digitais ultrarrealistas de falecidos, deixando um vazio legal perigoso.
- O caso Maradona é visto como o prenúncio de uma era de 'fantasmas generativos' — e a pressão por regulação específica começa a ganhar força antes que novos episódios se multipliquem.
Durante os intervalos da Copa do Mundo de 2026, uma propaganda incomum começou a circular nas telas argentinas: Diego Maradona jovem, olhando direto para a câmera, falando sobre coragem e apostas online. O detalhe perturbador era que Maradona estava morto há quase seis anos. A figura na tela era uma recriação por inteligência artificial, produzida pela plataforma BetWarrior.
A reação foi rápida e visceral. Nas redes sociais, torcedores chamaram a peça de 'lamentável' e 'desrespeitosa' — não por falha técnica, mas por colocar na boca de um ídolo nacional exatamente o que ele havia criticado em vida. Maradona havia se posicionado contra comportamentos compulsivos e os riscos das apostas, especialmente entre jovens. O contexto agravava o incômodo: dados do Unicef indicavam que um em cada quatro adolescentes argentinos já havia apostado, apesar da proibição para menores de 18 anos.
Houve, porém, uma camada que complicava o debate. O advogado Fernando Burlando confirmou que as filhas Dalma e Gianinna haviam autorizado o uso da imagem do pai. Se havia consentimento familiar, por que a polêmica persistia? Juan Gustavo Corvalán, diretor do Laboratório de IA da Faculdade de Direito da UBA, respondeu: Maradona não era um cidadão comum, mas um símbolo afetivo de milhões. A questão real era se os herdeiros podiam autorizar usos que reinterpretassem a identidade pública de uma figura que pertencia, em algum sentido, a uma nação inteira.
O pesquisador Emmanuel Iarussi, da Universidade Torcuato Di Tella, situou o episódio num fenômeno mais amplo: o surgimento dos chamados 'griefbots' e 'fantasmas generativos' — sistemas capazes de recriar digitalmente pessoas mortas a partir de registros deixados em vida. O caso Maradona, concluíram os especialistas, era apenas o primeiro de muitos. A tecnologia havia ultrapassado a lei, e o vazio resultante ameaçava não apenas herdeiros, mas a memória coletiva de figuras que transcendem o indivíduo.
Durante os intervalos de hidratação da Copa do Mundo de 2026, uma propaganda começou a circular nos estádios e nas telas dos argentinos. Nela, um Diego Maradona jovem olhava direto para a câmera e falava sobre coragem, personalidade e apostas online. O problema era que Maradona estava morto há quase seis anos, e o homem na tela tinha sido recriado por inteligência artificial.
A campanha era da BetWarrior, uma plataforma de apostas. Rapidamente, a peça virou notícia não por sua sofisticação tecnológica, mas pela mensagem que colocava na boca de um ídolo nacional. Nas redes sociais, torcedores argentinos chamaram a propaganda de "lamentável" e "desrespeitosa". O incômodo não era técnico — era ético. Maradona, em vida, havia se posicionado contra comportamentos compulsivos e riscos associados a apostas, especialmente entre jovens. Agora, uma versão digital dele estava vendendo exatamente aquilo que ele havia criticado.
O contexto tornava a polêmica ainda mais aguda. Segundo dados do Unicef citados pela imprensa, um em cada quatro adolescentes argentinos já havia feito alguma aposta, apesar de a prática ser proibida para menores de 18 anos. O crescimento dos problemas relacionados às apostas esportivas no país era documentado e preocupante. Colocar Maradona — um símbolo cultural que transcendia o futebol — a promover essa indústria tocava um nervo.
Houve, porém, uma camada de complexidade que a maioria dos críticos não mencionava inicialmente. Segundo Fernando Burlando, advogado que representa as filhas Dalma e Gianinna Maradona, a campanha havia recebido autorização dos herdeiros. A família havia consentido no uso da imagem do ex-jogador. Isso levantava uma questão incômoda: se os herdeiros podiam autorizar, por que a polêmica persistia?
Juan Gustavo Corvalán, diretor do Laboratório de Inovação e Inteligência Artificial da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, ofereceu uma resposta. Para ele, o debate transcendia direitos patrimoniais. Maradona não era um cidadão comum — era um símbolo cultural e afetivo para milhões de pessoas. A questão real era até que ponto os herdeiros poderiam autorizar usos que alterassem ou reinterpretassem a identidade pública de uma pessoa falecida. A legislação atual, segundo Corvalán, ainda não oferecia respostas completas. Embora existissem normas sobre direito de imagem, propriedade intelectual e consentimento familiar, poucos países possuíam regras específicas para clones digitais ultrarrealistas de pessoas mortas.
Emmanuel Iarussi, pesquisador da Universidade Torcuato Di Tella, conectou o episódio a um fenômeno crescente na tecnologia: os chamados "griefbots" e "fantasmas generativos". Tratava-se de sistemas capazes de recriar digitalmente pessoas mortas com base em vídeos, áudios, mensagens e registros deixados em vida. O caso de Maradona era apenas o primeiro de muitos que viriam. A tecnologia havia avançado mais rápido que a lei, deixando um vazio onde deveria haver proteção — não apenas para os herdeiros, mas para a memória pública e a identidade de figuras que pertenciam a uma nação inteira.
Citas Notables
Maradona não foi um cidadão comum. Foi um símbolo cultural e afetivo para milhões de pessoas. O debate deixa de ser apenas patrimonial e passa a envolver memória, identidade e legitimidade.— Juan Gustavo Corvalán, diretor do Laboratório de Inovação e Inteligência Artificial da Universidade de Buenos Aires
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a autorização da família não encerrou a polêmica? Afinal, as filhas consentiram.
Porque Maradona não era propriedade privada. Era um símbolo nacional. A questão não é se a família pode vender a imagem dele, mas se alguém deveria poder recriar a voz e o rosto dele para dizer coisas que ele nunca diria.
Mas as pessoas já usam imagens de celebridades mortas em publicidade o tempo todo.
Verdade. Mas há uma diferença entre usar uma foto de arquivo e criar uma versão digital que fala, que gesticula, que parece estar vivo. É quase como ressuscitar alguém para fazer um comercial.
E se a tecnologia melhorar ainda mais? Se ficar impossível distinguir o real do artificial?
Aí o problema fica ainda maior. Porque não será apenas sobre Maradona. Será sobre qualquer pessoa morta — políticos, ativistas, vítimas — sendo recriada para dizer o que alguém quer que ela diga.
Então a lei precisa agir rápido?
Precisa. Mas é complicado. Como você legisla sobre algo que não existia cinco anos atrás? Como você protege a memória de alguém sem censurar a tecnologia?
E a Argentina, especificamente? Qual é o risco maior ali?
Um em cada quatro adolescentes já aposta, apesar de ser ilegal. Agora coloca Maradona — o herói deles — dizendo que apostar é corajoso. É propaganda direcionada a uma população vulnerável, usando a imagem de alguém que não pode se defender.