Projeto Nova Esperança mobiliza empresas açorianas para reinserção de toxicodependentes

Dezenas de açorianos enfrentam toxicodependência com elevado risco de recaída ao regressarem sem colocação profissional adequada.
Se conseguem ultrapassar aqueles seis meses, as perspetivas realmente tornam-se bastante boas
O período crítico após o regresso é quando o apoio e o emprego fazem a diferença entre recuperação e recaída.

Nos Açores, onde a toxicodependência cresce silenciosamente e dezenas de conterrâneos regressam de tratamentos no continente sem encontrar chão firme, nasce uma iniciativa que aposta numa verdade antiga: o trabalho e o pertencimento podem ser, em si mesmos, uma forma de cura. O projeto Nova Esperança propõe que as empresas regionais deixem de ser espectadoras de um problema que também as afeta e se tornem parte ativa da solução, acolhendo pessoas em recuperação com emprego, estrutura e acompanhamento. É uma aposta na dignidade como antídoto à recaída.

  • Cerca de 70 açorianos tratam a dependência em clínicas do continente com financiamento público, e o regresso sem emprego ou suporte transforma a recuperação num caminho de alto risco.
  • Os primeiros seis meses após o regresso são o período mais crítico: sem novos hábitos e rotinas, muitos regressam aos mesmos ambientes e às mesmas influências que alimentaram a dependência.
  • O projeto Nova Esperança — liderado por um economista, uma psicóloga, uma enfermeira e um técnico de intervenção familiar — propõe criar uma ponte direta entre pessoas em fase avançada de recuperação e empresas dispostas a contratá-las.
  • Várias empresas açorianas já manifestaram interesse, especialmente aquelas com compromissos de responsabilidade social, vendo no projeto uma forma concreta de contribuir para a comunidade.
  • A iniciativa não pretende substituir estruturas existentes como a Associação Novo Dia, mas funcionar como facilitador — e poderá contar com o testemunho de pessoas já recuperadas como recurso de acompanhamento.

Nos Açores, a toxicodependência há muito deixou de ser um problema de famílias isoladas para se tornar uma questão que atravessa toda a sociedade — incluindo as empresas. É neste reconhecimento que assenta o projeto Nova Esperança — Acolher/Empregar/Acompanhar, uma iniciativa que procura mobilizar o setor empresarial regional para participar ativamente na reinserção de pessoas em recuperação.

Érico Matias Tavares, economista açoriano regressado à região em 2020, é um dos mentores do projeto, ao lado da psicóloga Cristina Valente, da enfermeira Renata Silva e de Luís Pacheco, técnico com trabalho diário junto de famílias afetadas. Para Tavares, as empresas não são apenas potenciais soluções — são também vítimas indiretas do problema. "Todos nós somos afetados na sociedade", afirma, recusando que a responsabilidade recaia exclusivamente sobre o Estado.

Os números ajudam a perceber a urgência: cerca de 70 açorianos estão em tratamento em clínicas do continente com apoio do governo regional. O problema surge no regresso. Sem emprego, sem rotinas novas, muitos encontram os mesmos ambientes e as mesmas influências de antes — e as probabilidades de recaída disparam. O projeto intervém precisamente aqui, criando um canal direto entre pessoas em fase avançada de recuperação e empresas dispostas a acolhê-las.

Tavares sublinha que os primeiros seis meses são decisivos. Superado esse período, com novos hábitos e estrutura de vida, as perspetivas mudam. Existem já casos de sucesso na região que o confirmam. Nova Esperança não pretende ser mais uma associação — apoia as que já existem, como a Associação Novo Dia — mas funcionar como facilitador entre o mundo empresarial e as pessoas em recuperação.

Várias empresas açorianas já demonstraram interesse, sobretudo aquelas com compromissos de responsabilidade social corporativa. O acompanhamento dos colaboradores em recuperação dependerá dos recursos angariados, podendo incluir pessoas que já superaram a dependência e se disponibilizaram para apoiar outros — transformando a experiência vivida num ativo ao serviço da comunidade.

Nos Açores, a toxicodependência continua a crescer como um problema que atravessa toda a sociedade — não apenas as famílias e os indivíduos afetados, mas também as empresas e as instituições que tentam lidar com as suas consequências. É neste contexto que nasceu o projeto Nova Esperança — Acolher/Empregar/Acompanhar, uma iniciativa que procura mobilizar o setor empresarial regional para participar ativamente na reinserção de pessoas que estão em processo de recuperação da dependência de drogas. O objetivo é simples, mas ambicioso: criar oportunidades de emprego para quem está a tentar reconstruir a vida, oferecendo ao mesmo tempo apoio contínuo que reduza o risco de recaída.

Érico Matias Tavares, economista açoriano que regressou à região em 2020 após vários anos no estrangeiro, é um dos mentores do projeto, juntamente com a psicóloga Cristina Valente, a enfermeira Renata Silva e Luís Pacheco, um técnico que trabalha diariamente com famílias afetadas pelo problema. Tavares sublinha que o envolvimento das empresas é essencial porque elas próprias sofrem as consequências da toxicodependência — seja pela falta de mão-de-obra qualificada, seja pelos impactos indiretos que o fenómeno tem na comunidade. "Todos nós somos afetados na sociedade", afirma, rejeitando a ideia de que este seja um problema isolado ou responsabilidade exclusiva do governo e das autoridades.

Os números revelam a dimensão do desafio. Aproximadamente 70 açorianos estão atualmente em tratamento em clínicas no continente, com financiamento do governo regional. É um custo significativo para a Região, mas necessário — estas pessoas precisam de tratamento especializado que não existe localmente. O problema surge quando regressam. Sem uma colocação profissional adequada, sem novos estímulos e rotinas, muitos encontram-se nos mesmos ambientes, com os mesmos hábitos e as mesmas influências de antes. Nestas circunstâncias, as probabilidades de recaída são extremamente elevadas. É aqui que o projeto Nova Esperança intervém, procurando criar um canal direto entre pessoas em fase avançada de recuperação e empresas dispostas a contratá-las.

Tavares enfatiza que os primeiros seis meses após o regresso são cruciais. Se uma pessoa conseguir ultrapassar este período, criar novos hábitos e recuperar a estrutura da sua vida, as perspetivas mudam significativamente. Existem já casos de sucesso na região que demonstram que a recuperação é possível quando há apoio adequado e oportunidades reais. O projeto não pretende ser mais uma associação — já existem várias a trabalhar no terreno, como a Associação Novo Dia. Em vez disso, Nova Esperança funciona como um facilitador, apoiando as estruturas existentes e criando a ponte entre o setor empresarial e as pessoas em recuperação.

O economista refere-se também a exemplos internacionais. A Islândia é considerada um caso de estudo bem-sucedido, onde o foco foi colocado especificamente nos jovens, envolvendo intensamente os pais na prevenção. Embora reconheça que as liberdades democráticas do Ocidente tornam a gestão da toxicodependência mais complexa do que em contextos mais restritivos, Tavares acredita que existem caminhos viáveis dentro de um quadro de valores ocidentais.

Várias empresas açorianas já demonstram interesse, particularmente aquelas que têm compromissos com boa governança e responsabilidade social corporativa. O projeto Nova Esperança alinha-se naturalmente com estes valores, oferecendo uma forma concreta de contribuir para a resolução de um problema que afeta toda a comunidade. O acompanhamento dos colaboradores em recuperação dependerá dos recursos que o projeto conseguir angariar, podendo incluir o envolvimento de pessoas que já superaram a toxicodependência e que se disponibilizaram para participar. Desta forma, a experiência vivida torna-se um ativo, transformando a recuperação pessoal em capacidade de apoiar outros no mesmo caminho.

Todos nós somos afetados na sociedade. Não é só as famílias, não é só as pessoas, não é só a polícia, não é só o governo
— Érico Matias Tavares, economista e mentor do projeto
Se são colocadas nos mesmos ambientes, com os mesmos estímulos e com os mesmos hábitos de antes, as hipóteses de recaírem no mesmo problema são altamente elevadas
— Érico Matias Tavares
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que é que as empresas deveriam estar envolvidas nisto? Não é responsabilidade do governo e dos serviços de saúde?

Model

As empresas sofrem as consequências também — falta de mão-de-obra, impacto na comunidade onde operam. Mas mais importante: elas têm o poder de oferecer algo que nenhuma instituição consegue dar sozinha: um emprego real, uma rotina, um propósito. Sem isso, a recuperação fica incompleta.

Inventor

E qual é o risco real quando alguém regressar aos Açores depois do tratamento?

Model

Regressam aos mesmos bairros, aos mesmos amigos, aos mesmos hábitos. Se não há nada de novo — nenhum trabalho, nenhuma estrutura — as probabilidades de recaída são muito altas. Os primeiros seis meses são críticos. Se conseguem ultrapassar isso com apoio, as coisas mudam.

Inventor

Porque é que o projeto não quer ser mais uma associação?

Model

Porque já existem várias a fazer bom trabalho no terreno. O que falta é a ligação com as empresas. Não queremos duplicar esforços — queremos ser o elo que falta, o facilitador entre quem está em recuperação e quem pode oferecer emprego.

Inventor

E se uma empresa contratar alguém e ele recair?

Model

Por isso é que o acompanhamento é essencial. Não é deixar a pessoa sozinha. É ter alguém disponível, talvez até alguém que já passou pelo mesmo, para ajudar quando as coisas ficam difíceis. O projeto oferece esse suporte contínuo.

Inventor

Qual é a diferença entre isto e caridade?

Model

Caridade é dar. Isto é criar condições para que as pessoas se reconstruam a si próprias. A empresa ganha um colaborador, a pessoa ganha dignidade e uma vida nova. É uma solução que beneficia todos.

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