Presidenciáveis se dividem sobre uso de IA nas eleições de 2026

Um político tem que olhar nos olhos do povo e permitir que o povo olhe nos dele
Lula explica por que rejeita inteligência artificial para substituir sua presença em campanhas eleitorais.

Na corrida presidencial de 2026, a inteligência artificial tornou-se um espelho onde cada candidato revela sua concepção de política e autenticidade. Enquanto Lula defende que o olhar humano é insubstituível na construção da confiança democrática, Flávio Bolsonaro e Zema abraçam a tecnologia como ferramenta legítima de alcance e economia. O TSE, árbitro dessa tensão, traçou fronteiras claras para que a inovação não se converta em engano. O Brasil de 2026 será, assim, um laboratório vivo do equilíbrio entre presença humana e mediação algorítmica na política.

  • A divisão entre candidatos sobre o uso de IA expõe uma fissura profunda sobre o que significa ser autêntico na política contemporânea.
  • Lula rejeita versões artificiais de si mesmo, temendo que a tecnologia esvazie o contato humano que, para ele, é a essência do mandato democrático.
  • Flávio Bolsonaro já circula na internet como piloto de caça virtual, enquanto Zema anima críticas a privilégios — ambos dentro das regras, mas provocando o debate sobre os limites do real.
  • O PT contra-ataca chamando a estratégia adversária de 'candidato de mentira em situações de mentira', elevando a disputa tecnológica ao campo da credibilidade moral.
  • O TSE respondeu com novas regras: avisos obrigatórios em todo conteúdo gerado por IA e janela de silêncio digital nas 72 horas antes e 24 horas após o voto.
  • As eleições de 2026 se configuram como o primeiro grande teste brasileiro de como democracia e inteligência artificial podem — ou não — coexistir sem que uma devore a outra.

A disputa presidencial de 2026 revelou uma fratura entre os candidatos que vai além da política tradicional: o papel da inteligência artificial na campanha. De um lado, Lula e Caiado resistem à tecnologia; do outro, Flávio Bolsonaro e Zema já a incorporaram ao cotidiano de suas pré-campanhas.

Lula foi categórico. Recusou permitir que a IA crie versões suas ou substitua sua presença física. Evocou um cenário hipotético — 27 comícios simultâneos sem estar em nenhum — e o rejeitou por completo. Para ele, política é olhar nos olhos, é o eleitor avaliando o caráter de quem fala. O PT reforçou essa posição nas redes, criticando diretamente Flávio Bolsonaro e alertando para o risco de a tecnologia distorcer a verdade.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, publicou vídeos gerados por IA — inclusive um em que aparece como piloto de caça combatendo facções criminosas — sempre com identificação clara, como exige a lei. Aliados afirmam que a estratégia maximiza o que a legislação permite e gera engajamento. Zema adota lógica semelhante: IA é barata, simples e acessível, e seus vídeos animados criticam privilégios sem pretensão de enganar ninguém. Caiado prefere o caminho oposto, restringindo o uso a contextos como apresentação de propostas, para evitar artificialidade que afaste o eleitor.

O TSE estabeleceu as regras do jogo: todo conteúdo eleitoral criado ou alterado por IA precisa de aviso claro e compreensível, e é proibido publicar materiais com voz ou imagem de candidatos nas 72 horas anteriores à eleição e nas 24 horas seguintes. Plataformas que descumprirem devem remover o conteúdo imediatamente.

A divisão entre os candidatos ecoa um debate mais amplo: a IA democratiza a produção de conteúdo ou abre caminho para manipulação e desconfiança? As eleições de 2026 serão o primeiro teste real dessa pergunta sob regras formais.

A corrida presidencial de 2026 está revelando uma divisão fundamental entre os candidatos sobre como a inteligência artificial deve funcionar na política. Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva e Ronaldo Caiado rejeitam ou limitam severamente o uso da tecnologia, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema já a incorporaram em suas estratégias de campanha, apostando que ela reduz custos e amplifica o alcance das mensagens nas redes sociais.

Lula deixou clara sua posição de forma pessoal e direta. O presidente afirmou que não permitirá que inteligência artificial crie versões fictícias suas ou substitua sua presença em gravações de campanha. Ele imaginou um cenário onde poderia fazer 27 comícios simultâneos em 27 estados sem estar fisicamente presente em nenhum deles — e rejeitou categoricamente essa possibilidade. Para Lula, a política exige algo que nenhuma máquina pode replicar: o contato direto com as pessoas, o olhar nos olhos, a possibilidade de o eleitor avaliar o caráter de quem está falando. Ele conectou essa convicção à sua história pessoal, mencionando a mãe como fonte de seus valores éticos.

O Partido dos Trabalhadores amplificou essa mensagem em vídeos publicados nas redes sociais, argumentando que o problema não é a tecnologia em si, mas como ela pode ser usada para distorcer a verdade e atacar pessoas. O partido criticou explicitamente a estratégia de Flávio Bolsonaro, referindo-se a ele como "um candidato de mentira em situações de mentira". Essa crítica aponta para uma preocupação real: a possibilidade de que a inteligência artificial seja usada para enganar eleitores, criando conteúdos que simulam situações que nunca aconteceram.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, já publicou vídeos gerados por inteligência artificial em suas redes sociais, incluindo um onde aparece como piloto de um caça combatendo facções criminosas. Todos esses conteúdos foram identificados como criados por IA, conforme exige a legislação eleitoral. Segundo aliados de Flávio, a estratégia é usar tudo aquilo que a lei permite. Eles argumentam que esses materiais geram engajamento, embora reconheçam que não necessariamente mais do que outros formatos de vídeo. A pré-campanha de Flávio também publica conteúdo tradicional — vídeos de agendas e eventos reais — mantendo um equilíbrio entre a experimentação tecnológica e a presença convencional.

Romeu Zema, do Novo, também investe na ferramenta. Sua abordagem é pragmática: inteligência artificial é simples, barata e acessível. Ele criou uma série de vídeos animados criticando privilégios de autoridades, deixando claro que não há intenção de enganar ninguém. Para Zema, a tecnologia é um meio de comunicação como outro qualquer, sem pretensões de substituir a realidade.

Caiado adota uma posição mais restritiva. Um estrategista de sua pré-campanha afirmou que quanto menos inteligência artificial, melhor. O uso, na visão deles, deve ser limitado a contextos específicos, como a apresentação de projetos e propostas. Essa abordagem busca evitar a artificialidade que pode distanciar o eleitor e alimentar a desconfiança que já existe entre a população e a classe política.

O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu novas regras para 2026 com o objetivo de garantir que a inteligência artificial seja uma ferramenta democrática e não uma ameaça. Todo conteúdo de propaganda eleitoral criado ou alterado por IA deve exibir um aviso claro, visível e fácil de compreender. Além disso, é proibido publicar conteúdos com voz ou imagem de candidatos e figuras públicas nos 72 horas que antecedem a eleição e nas 24 horas posteriores à votação. Se a regra for violada, as plataformas devem remover o conteúdo imediatamente.

Essa divisão entre os candidatos reflete um debate mais amplo sobre tecnologia e democracia. De um lado, há quem veja a inteligência artificial como uma ferramenta legítima que democratiza o acesso à produção de conteúdo e reduz custos de campanha. Do outro, há quem tema que ela abra espaço para manipulação, desinformação e distanciamento entre candidatos e eleitores. As eleições de 2026 serão um teste real de como essas duas visões convivem sob as novas regras.

Se tem uma coisa que um político tem que fazer é olhar nos olhos do povo e permitir que o povo olhe nos dele, para saber quem está mentindo
— Luiz Inácio Lula da Silva
Quanto menos, melhor
— Estrategista da pré-campanha de Caiado, sobre uso de inteligência artificial
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que Lula rejeita tão categoricamente o uso de IA em sua campanha? Parece uma posição quase nostálgica.

Model

Não é nostalgia, é uma leitura sobre o que política realmente é. Para Lula, política é relação. É você estar lá, de verdade, permitindo que as pessoas leiam seu rosto, sua sinceridade ou sua mentira. Uma IA não pode fazer isso. Ela pode replicar a imagem, mas não a presença.

Inventor

Mas Flávio Bolsonaro está usando IA e gerando engajamento. Isso não prova que funciona?

Model

Funciona para gerar cliques, talvez. Mas há uma diferença entre engajamento e confiança. Um vídeo animado de um candidato pilotando um caça é entretenimento. A pergunta é se isso constrói a relação que você precisa com um eleitor para ele votar em você.

Inventor

O TSE está regulando isso. Aviso claro, proibição 72 horas antes da eleição. Isso resolve o problema?

Model

Resolve parte dele. Garante que o eleitor saiba quando está vendo algo artificial. Mas não resolve a questão mais funda: se a tecnologia permite que você crie uma versão melhorada, mais convincente de si mesmo, por que não usá-la? A lei diz que pode, desde que avise.

Inventor

Então Caiado está certo em limitar o uso?

Model

Caiado está sendo cauteloso. Ele lê a mesma desconfiança que Lula lê — a população já não acredita muito em político. Adicionar uma camada de artificialidade pode piorar isso. Mas é uma aposta, não uma certeza.

Inventor

E Zema? Ele parece mais descontraído com tudo isso.

Model

Zema vê como ferramenta. Um vídeo animado criticando privilégios é comunicação clara, sem pretensão de enganar. Não é diferente de um cartaz ou um jingle. A questão é se você está sendo honesto sobre o que está fazendo.

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