Pós-fixados e multimercados dominam carteiras em 2023 com juros elevados

2023 é o ponto de chegada ou uma travessia?
A pergunta que define se o investidor deve ser conservador ou agressivo com sua carteira neste ano.

Selic em 13,75% e expectativas de inflação elevada favorecem investimentos pós-fixados atrelados ao CDI, Selic ou inflação como componente principal das carteiras. Multimercados com estratégias macro, quantitativas e long/short devem se destacar em cenários de volatilidade, enquanto renda fixa global pode brilhar no segundo semestre.

  • Selic em 13,75% no início de 2023
  • Inflação projetada em 5,31% para 2023, 3,65% para 2024 e 3,25% para 2025
  • Multimercados avançaram 13,31% em 2022, acima dos 12,33% do CDI
  • Títulos de empresas brasileiras e americanas oferecem entre 6% e 10% ao ano em dólar

Especialistas recomendam alocar carteiras em ativos pós-fixados, multimercados e renda fixa global para 2023, diante de juros elevados, inflação persistente e volatilidade nos mercados.

No início de 2023, com a taxa Selic fixada em 13,75% e as perspectivas de inflação se deteriorando, especialistas financeiros convergem em uma recomendação clara: os investidores precisam repensar suas carteiras. O ano que começava prometia juros em patamares não vistos há muito tempo, recessão em algumas economias e mercados voláteis — um cenário que exigia estratégia, não improviso.

A resposta dos profissionais de investimento passa por três pilares. Primeiro, os ativos pós-fixados — títulos que acompanham a Selic, o CDI ou a inflação — devem ocupar a maior parte do portfólio. Patrícia Palomo, responsável pelos investimentos da Unicred do Brasil, explica que há consenso no mercado de que os juros permanecerão elevados por mais tempo, o que torna essas posições particularmente atrativas. O Relatório Focus divulgado no início de janeiro apontava que o ponto médio das estimativas para a Selic em 2023 era de 12,25%, acima dos 11,75% previstos quatro semanas antes. Para quem deseja manter investimentos por períodos mais longos, a sugestão é mesclar títulos do Tesouro Direto com papéis privados pós-fixados. Dan Kawa, CIO da TAG Investimentos, destaca alternativas isentas de Imposto de Renda como Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e Imobiliário (CRIs), que oferecem CDI mais 1% ao ano. Para recursos que precisam estar disponíveis rapidamente, CDBs e fundos DI são as escolhas mais prudentes. Arley Junior, estrategista do Santander, também recomenda considerar Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e Imobiliário (LCIs), embora estas tenham carência de 90 dias.

Alocações em papéis atrelados à inflação também devem responder por parcela significativa das carteiras. Os economistas ajustaram para cima as projeções de inflação para 2023, 2024 e 2025, chegando a 5,31%, 3,65% e 3,25%, respectivamente — um aumento em relação às estimativas de um mês antes. O Santander prefere vencimentos em torno de 2035 para títulos públicos, enquanto papéis privados isentos oferecem taxas a partir de IPCA mais 7% ao ano.

Os títulos prefixados, porém, merecem cautela. Não há consenso entre os agentes financeiros sobre se o Banco Central iniciará cortes na Selic durante o ano, e o risco de volatilidade é real. Quando as taxas de juros sobem, os preços dos títulos prefixados caem — um fenômeno conhecido como marcação a mercado. Patrícia Palomo avalia que o balanço de riscos é menos favorável para prefixados naquele momento, preferindo prazos curtos de um a dois anos. Junior do Santander acredita que posições em prazos intermediários entre 2028 e 2029 podem ser bons trunfos, especialmente com retornos acima de 13,5% ao ano, mas reconhece que o investidor precisa estar preparado para forte volatilidade.

Os multimercados emergem como outra classe de ativos promissora. Esses fundos terminaram 2022 com avanço de 13,31%, acima dos 12,33% do CDI, e especialistas acreditam que podem manter o brilho em 2023. A recomendação é mesclar estratégias: fundos macro que alocam em várias classes de ativos, fundos quantitativos que usam algoritmos e modelos matemáticos complexos, e fundos long and short nos quais o gestor compra um ativo e vende outro para lucrar com o desempenho relativo. Fundos de fundos também aparecem como opção para quem busca risco pulverizado e menor volatilidade.

No mercado de ações, a seletividade é essencial. Mesmo em um ano de juros elevados e crescimento econômico reduzido, gestores acreditam que os investidores precisam manter posição na Bolsa brasileira. A reabertura da China, provocada pela flexibilização das medidas contra a covid-19, pode favorecer ações de commodities. O Santander recomendava Vale e Petrobras, além de papéis de saúde, shoppings, bancos, setor elétrico e atacarejo. Porém, após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1º de janeiro, a Petrobras foi retirada do processo de desestatização, e o novo presidente da empresa, Jean Paul Prates, sinalizou mudanças na política de preços. Patrícia Palomo prefere se manter distante de estatais e aposta nas chamadas junior oil. No cenário externo, a recomendação é optar por índices em vez de ações individuais — o S&P 500, por exemplo, em vez do Nasdaq, que depende de condições de juros mais favoráveis.

A renda fixa global também anima especialistas. Rodrigo Sgavioli, chefe de alocação e fundos da XP, defende que o Federal Reserve provocará uma recessão entre suave e mediana em 2023, com possibilidade de corte na taxa de juros a partir do segundo semestre. Títulos de empresas brasileiras e americanas oferecem taxas entre 6% e 10% ao ano em dólar. A nova regulação permite que fundos voltados para o varejo alocem até 100% do capital no exterior, abrindo caminho para fundos de renda fixa global com crédito na carteira e hedge cambial.

No fim das contas, a decisão sobre como estruturar a carteira depende de uma pergunta fundamental: 2023 é o ponto de chegada ou uma travessia? Se for o ponto de chegada — o ano em que o investidor deseja resgatar seus investimentos — o ideal é manter a carteira focada em opções conservadoras como renda fixa pós-fixada. Se for uma travessia, com horizonte mais longo, o investidor pode tomar mais risco com alocações em ativos atrelados à inflação, pós-fixados, multimercados e exposição global. A resposta determina tudo.

O mercado tem um consenso de que os juros devem se manter elevados por mais tempo, o que favorece esse tipo de posição
— Patrícia Palomo, head de investimentos da Unicred do Brasil
O investidor precisa entender se este ano é o ponto de chegada, ou seja, se é quando deseja resgatar os investimentos, ou se é uma travessia para sacar o valor mais à frente
— Rodrigo Sgavioli, chefe de alocação e fundos da XP
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que os especialistas insistem tanto em pós-fixados agora? Não é só porque os juros estão altos?

Model

É mais do que isso. Quando os juros estão altos e há incerteza sobre o futuro, um ativo que acompanha a Selic ou o CDI oferece segurança — você sabe que vai ganhar aquela taxa, não importa o que aconteça. É proteção contra o desconhecido.

Inventor

E os prefixados? Por que não simplesmente travar uma taxa de 13,5% ao ano agora?

Model

Porque ninguém sabe se os juros vão subir ou descer. Se subirem, o preço do seu título cai — é marcação a mercado. Você pode estar preso a uma taxa que fica ruim em poucos meses. É um risco real.

Inventor

Multimercados parecem complicados. Por que um investidor comum deveria confiar neles?

Model

Porque eles fazem o trabalho que seria impossível fazer sozinho. Um fundo macro compra ações, câmbio, juros — tudo ao mesmo tempo. Um quantitativo usa algoritmos. Juntos, eles ganham mesmo quando o mercado está confuso. Em 2022, enquanto muita coisa caía, multimercados subiram 13%.

Inventor

E a Bolsa? Está morta em 2023?

Model

Não, mas você precisa escolher bem. Commodities podem se beneficiar se a China reabrir. Mas ações de consumo, varejo — essas sofrem quando os juros estão altos. O segredo é não entrar em tudo, apenas no que faz sentido.

Inventor

Renda fixa global soa distante para quem tem dinheiro em reais.

Model

Mas oferece algo que o Brasil não oferece: diversificação. Títulos americanos pagam 6% a 10% ao ano em dólar. Se o real cair, você ganha com a moeda. Se subir, você perde — por isso alguns fundos usam hedge cambial para evitar essa volatilidade.

Inventor

Como alguém decide entre ser conservador ou agressivo em um ano como esse?

Model

Perguntando a si mesmo: preciso desse dinheiro em 2023 ou posso esperar? Se precisa, fica em pós-fixado. Se pode esperar, pode arriscar um pouco mais em inflação, multimercados, exterior. O tempo é o que muda tudo.

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