Porto Alegre qualifica profissionais para melhorar atendimento à saúde do idoso

117 mil idosos circulam pela cidade invisíveis ao sistema de saúde
Porto Alegre tem 292 mil pessoas idosas, mas apenas 175 mil estão cadastradas nas unidades de saúde.

Porto Alegre, a capital brasileira com maior proporção de idosos, confronta uma realidade demográfica que exige mais do que reconhecimento — exige ação. Com 292 mil pessoas acima dos 60 anos e mais de cem mil delas invisíveis ao sistema de saúde, a cidade deu um passo deliberado rumo à visibilidade e ao cuidado: reuniu profissionais de toda a rede primária para aprender a classificar fragilidade e construir planos de cuidado personalizados. É o gesto antigo de uma sociedade que decide, enfim, olhar para os seus mais velhos.

  • Mais de 117 mil idosos porto-alegrenses circulam pela cidade sem cadastro na atenção primária — invisíveis para o sistema que deveria protegê-los.
  • O envelhecimento acelerado da capital gaúcha pressiona uma rede de saúde que ainda não estava estruturada para acompanhar quase um quarto de sua população em situação de vulnerabilidade crescente.
  • A Secretaria Municipal de Saúde reuniu equipes multiprofissionais no teatro Moacyr Scliar para formar multiplicadores capazes de aplicar uma avaliação multidimensional de fragilidade em seus próprios territórios.
  • Desde janeiro de 2025, prontuários eletrônicos já registram um índice clínico-funcional que classifica idosos em três graus de fragilidade, orientando planos de cuidado individualizados.
  • Cada equipe saiu do encontro com um projeto de educação permanente — um compromisso concreto de levar a avaliação para sua unidade e alcançar quem ainda não foi alcançado.

Porto Alegre envelhece mais rápido que o restante do Brasil. A capital gaúcha abriga 292 mil pessoas com 60 anos ou mais — quase um quarto de sua população —, mas um problema silencioso persiste: mais de cem mil desses idosos não estão cadastrados nas unidades de saúde da cidade, existindo à margem do sistema que deveria acompanhá-los.

Para enfrentar essa lacuna, a Secretaria Municipal de Saúde promoveu, durante o Outubro Prateado, a Formação de Multiplicadores da Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa na Atenção Primária. No teatro Moacyr Scliar da Universidade Federal de Ciências da Saúde, equipes multiprofissionais, agentes comunitários e estudantes se reuniram com uma missão clara: aprender e replicar.

O instrumento central é um índice de vulnerabilidade clínico-funcional incorporado aos prontuários eletrônicos desde janeiro de 2025. Por meio de perguntas sobre atividades cotidianas — das mais básicas às mais complexas —, o sistema classifica o grau de fragilidade em três categorias: idosos robustos e independentes, aqueles em processo de fragilização com dependência moderada, e os frágeis com dependência total. A avaliação considera também aspectos psicossociais, indo além do diagnóstico clínico.

A coordenadora Clésia Ziemann explicou que cada equipe participante saiu do encontro com um projeto de educação permanente — um plano concreto para implementar a avaliação em seu território. A secretaria acompanhará esses projetos, buscando expandir a capacitação para todas as unidades da cidade.

O horizonte é ao mesmo tempo prático e humano: com base na classificação de fragilidade, cada unidade deverá elaborar um Projeto Terapêutico Singular, um plano de cuidados personalizado voltado a preservar ou recuperar a autonomia do idoso. O verdadeiro teste virá quando os agentes comunitários baterem nas portas daqueles que ainda não foram alcançados — e o sistema finalmente começar a enxergar quem sempre esteve ali.

Porto Alegre envelhece mais rápido que o resto do Brasil. A capital gaúcha abriga 292 mil pessoas com 60 anos ou mais — quase um quarto de sua população — segundo dados do IBGE. Mas há um problema silencioso nesse número: apenas 175 mil desses idosos estão cadastrados nas unidades de saúde da cidade. Isso significa que mais de cem mil pessoas nessa faixa etária circulam pela cidade sem registro formal no sistema de atenção primária, invisíveis aos olhos da saúde pública que deveria acompanhá-los.

Nesta semana, a Secretaria Municipal de Saúde reuniu profissionais de diferentes áreas para enfrentar essa lacuna. No teatro Moacyr Scliar da Universidade Federal de Ciências da Saúde, equipes multiprofissionais, técnicos, agentes comunitários e estudantes participaram da Formação de Multiplicadores da Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa na Atenção Primária. O encontro marca o Outubro Prateado, mês dedicado à população idosa, e representa uma tentativa de transformar como a cidade cuida de seus cidadãos mais velhos.

O ponto de partida é um instrumento novo. Desde janeiro deste ano, os prontuários eletrônicos das unidades de saúde incluem um índice de vulnerabilidade clínico-funcional — um formulário que faz perguntas sobre as atividades cotidianas das pessoas, desde as mais básicas até as mais complexas. Conforme as respostas, o sistema gera um escore que classifica o grau de fragilidade em três categorias: grau 1 para quem é robusto e independente, grau 2 para quem está em processo de fragilização com dependência moderada, e grau 3 para idosos frágeis com dependência total. A avaliação não é apenas clínica — leva em conta também a funcionalidade e o aspecto psicossocial da pessoa.

Clésia Ziemann, coordenadora da área técnica de Saúde da Pessoa Idosa da secretaria, explica que os participantes da formação têm uma tarefa clara: levar esse conhecimento de volta para suas unidades. Cada equipe sairá do encontro com um projeto de educação permanente, um plano específico para implementar a avaliação em seu território. A secretaria monitorará esses projetos, buscando expandir a capacitação para todas as unidades da cidade.

O objetivo final é prático e humano. Com base na classificação de fragilidade, cada unidade de saúde deve elaborar um Projeto Terapêutico Singular — um plano de cuidados personalizado que busca manter ou recuperar a funcionalidade do idoso. Não se trata apenas de diagnosticar fragilidade, mas de agir sobre ela, de oferecer um caminho que permita ao idoso continuar vivendo com autonomia o máximo de tempo possível.

A abertura do evento contou com a presença do secretário municipal de Saúde, Fernando Ritter, da diretora de Atenção Primária, Vânia Frantz, e de representantes do Ministério da Saúde e da universidade. Todos ali reconhecem que Porto Alegre enfrenta um desafio demográfico sem precedentes. A cidade não apenas tem muitos idosos — tem uma população que envelhece rapidamente, e o sistema de saúde precisa se reorganizar para acompanhar essa realidade.

O que está em jogo é simples mas profundo: a diferença entre um idoso que recebe cuidado coordenado e um que fica à deriva no sistema. Com 117 mil idosos ainda fora do cadastro, há muito trabalho pela frente. A formação desta semana é um primeiro passo, mas o verdadeiro teste virá quando cada unidade de saúde começar a aplicar o que aprendeu, quando os agentes comunitários baterem nas portas daqueles que ainda não foram alcançados, quando o sistema começar a enxergar e cuidar de quem sempre esteve ali.

Os participantes terão como tarefa realizar ações de educação permanente nas respectivas unidades de saúde, com o projeto construído na formação, que será monitorado pela área técnica
— Clésia Ziemann, coordenadora da área técnica de Saúde da Pessoa Idosa da SMS
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que Porto Alegre tem tantos idosos sem cadastro nas unidades de saúde? Isso é negligência ou simplesmente falta de estrutura?

Model

Provavelmente os dois. Alguns idosos podem não ter procurado o serviço, outros podem ter dificuldade de acesso. Mas o fato é que 117 mil pessoas nessa faixa etária não estão no sistema — isso é um vazio que a cidade precisa preencher.

Inventor

E esse novo formulário de fragilidade, como funciona na prática? Um agente comunitário consegue aplicar?

Model

Sim, é justamente para isso. O formulário faz perguntas sobre o dia a dia — se a pessoa consegue tomar banho sozinha, se sai de casa, se tem memória. As respostas geram um escore automático. Não precisa de especialista para aplicar, mas precisa de treinamento para interpretar e agir.

Inventor

Qual é a diferença entre um idoso classificado como grau 1 e um grau 3?

Model

Um grau 1 é independente, robusto. Um grau 3 é frágil, precisa de ajuda para as coisas básicas. Mas o ponto não é só classificar — é que cada classificação gera um plano de cuidados diferente. O grau 1 pode precisar de prevenção; o grau 3 precisa de acompanhamento intenso.

Inventor

Então esse Projeto Terapêutico Singular é como um mapa de cuidados?

Model

Exatamente. É um plano feito especificamente para aquela pessoa, naquele momento. Pode incluir fisioterapia, acompanhamento psicológico, ajustes em casa, medicação. O objetivo é manter a pessoa funcionando o máximo possível.

Inventor

E se a unidade de saúde não tiver recursos para oferecer tudo isso?

Model

Essa é a questão real. O formulário e o treinamento são ferramentas, mas sem recursos — profissionais, tempo, estrutura — eles viram apenas papel. Por isso a formação de multiplicadores é importante: cada unidade precisa pensar no que consegue fazer com o que tem.

Inventor

Qual é o próximo passo depois dessa formação?

Model

Cada unidade volta para seu território e começa a aplicar. A secretaria monitora, vê o que funciona, o que não funciona, e expande. Mas o verdadeiro teste é quando baterem na porta daqueles 117 mil idosos que ainda não estão no sistema.

Contact Us FAQ