Porto Alegre gasta R$ 36 milhões anuais com lixo que poderia ser reciclado

Catadores trabalham em condições precárias desde a infância, expostos a riscos como seringas e lâmpadas descartadas indevidamente, com remuneração flutuante e dependente da venda de materiais.
A gente não está aqui para armazenar nada. Se o resíduo está parado, é rejeito
Tesoureira de cooperativa de catadores explica a dificuldade de vender materiais sem saída no mercado.

Porto Alegre carrega o paradoxo de quem abriu o caminho e ainda assim tropeça nele: pioneira há 35 anos na coleta seletiva, a capital gaúcha desperdiça R$ 36 milhões anuais ao enviar para o aterro resíduos que deveriam ser reciclados. O problema não é apenas de hábito doméstico — é também de estrutura precária, mercado instável e trabalhadores invisíveis que sustentam o sistema com as próprias mãos. Entre o feito e o fracasso, a cidade busca um caminho que ainda não encontrou.

  • Apesar de cobrir 100% do território, Porto Alegre descarta 471 toneladas de recicláveis por dia no aterro sanitário, custando R$ 3 milhões mensais aos cofres públicos.
  • Cooperativas de catadores operam com equipamentos obsoletos, sem capacidade de lavar ou triturar materiais, o que os obriga a vender por preços baixos a intermediários informais.
  • Trabalhadores como Lucineia, que recicla desde os 13 anos, enfrentam remuneração flutuante, preconceito social e riscos físicos como seringas e lâmpadas descartadas incorretamente.
  • O Ministério Público gaúcho emitiu recomendação formal para reajustar contratos de triagem, sinalizando que o poder público reconhece a precariedade do sistema.
  • O Programa Recomeços promete R$ 20 milhões em reformas e a inclusão dos catadores na educação ambiental porta a porta, mas a distância entre o plano e a prática ainda é incerta.

Porto Alegre foi uma das primeiras cidades brasileiras a separar sistematicamente o lixo reciclável, há 35 anos. Hoje, mantém cobertura de 100% — um feito raro no Rio Grande do Sul. Mas esse pioneirismo convive com uma contradição cara: a cidade gasta R$ 36 milhões por ano para descartar em aterro material que deveria ter sido reciclado.

O problema começa nas casas, mas não termina nelas. Separação incorreta, falta de investimento em triagem e um mercado de reciclagem instável fazem com que apenas 4,16% dos resíduos recicláveis sejam efetivamente recuperados — acima da média nacional, mas longe do potencial real. As 471 toneladas diárias enviadas ao aterro de Minas do Leão representam R$ 3 milhões mensais desperdiçados.

No galpão da Associação de Catadores e Recicladores Vila Chocolatão, no Morro Santana, 30 trabalhadores vivem da venda do que separam. Lucineia Inácio, 43 anos, está ali desde 2014 e recicla desde os 13. O trabalho é árduo, a remuneração oscila e o preconceito persiste. Sem equipamentos para lavar ou triturar o material, a associação vende para atravessadores a preços menores do que conseguiria diretamente com empresas de reciclagem. Alguns produtos, como embalagens de salgadinho, simplesmente não têm mais saída no mercado.

O investimento público nas unidades de triagem é desigual, e especialistas apontam que falta de tudo: estrutura, telhado, área, equipamentos. Em novembro, o Ministério Público gaúcho recomendou formalmente o reajuste dos contratos de triagem. Há também o risco físico: catadores lidam com seringas e lâmpadas descartadas indevidamente, sem proteção adequada.

A prefeitura lançou o Programa Recomeços, com R$ 20 milhões previstos para reformas e qualificação das unidades. Planeja ainda a Coleta Solidária, que incluiria os catadores no processo de educação ambiental durante a coleta porta a porta — algo que cidades como Novo Hamburgo já fazem. O desafio agora é transformar esse planejamento em mudança real para quem sustenta o sistema há décadas.

Porto Alegre iniciou seu programa de coleta seletiva há 35 anos, tornando-se uma das primeiras cidades brasileiras a separar sistematicamente o lixo reciclável do orgânico. Três décadas e meia depois, a capital gaúcha mantém cobertura de 100% em seu território — um feito que a distingue em um Estado onde muitos municípios ainda não possuem o serviço. Mas esse pioneirismo esconde uma contradição incômoda: a cidade gasta R$ 36 milhões por ano para descartar em aterro sanitário material que deveria ter sido reciclado.

O problema começa nas casas. Segundo o Departamento Municipal de Limpeza Urbana, 471 toneladas de resíduos com potencial reciclável são enviadas diariamente para o aterro de Minas do Leão — um custo mensal de R$ 3 milhões aos cofres públicos. A culpa não é apenas da população. Embora a separação incorreta nas residências seja um fator significativo, a cidade também enfrenta dificuldades estruturais: falta de investimento em unidades de triagem, equipamentos obsoletos nas cooperativas de catadores e um mercado de reciclagem instável que nem sempre absorve o material coletado. Porto Alegre recupera 4,16% de seus resíduos recicláveis — acima da média nacional de 1,82%, mas ainda longe do que seria possível.

A coleta seletiva funciona em três etapas. A Cootravipa, uma cooperativa, recolhe o lixo seco três vezes por semana em áreas com contêineres automatizados e duas vezes nas demais. Depois, o material segue para uma das 16 cooperativas de catadores contratadas pela prefeitura, onde é separado em vidro, plástico, metal e papel. Cada categoria tem seu valor de mercado. É dessa venda que vivem os trabalhadores — 30 deles na Associação de Catadores e Recicladores Vila Chocolatão, um galpão no Morro Santana, na Zona Leste.

Lucineia Inácio, 43 anos, trabalha naquela unidade desde 2014. Começou a reciclar aos 13 anos, quando morava no Centro Histórico, antes de sua comunidade ser reassentada em 2011. "Tem gente que não gosta, porque trabalhamos no lixo, tem preconceito", diz ela. O trabalho é árduo e a remuneração flutua conforme o mercado. A associação não lava nem tritura o lixo — processos que exigiriam equipamentos caros e mais funcionários, mas que, segundo os próprios catadores, dobraria o valor do material na venda direta para empresas de reciclagem. Em vez disso, vendem para atravessadores, intermediários informais que nem sempre têm interesse em certos produtos. Embalagens de salgadinho, por exemplo, não têm mais saída. "A gente não está aqui para armazenar nada. Se o resíduo está parado, é rejeito", explica Eduarda Sant'Anna, tesoureira e ex-presidente da associação.

O investimento público nas unidades de triagem varia conforme a produtividade: algumas recebem mais de R$ 60 mil por mês; outras, menos de R$ 10 mil. A prefeitura aumentou o aporte total de R$ 1,7 milhão para R$ 3,7 milhões anuais e busca financiamentos junto ao Banco Mundial para comprar prensas e trituradores. Mas, segundo o engenheiro e consultor em resíduos sólidos Geraldo Reichert, falta tudo: "estrutura, telhado, área, equipamentos". A remuneração dos catadores depende exclusivamente da venda do material, que oscila constantemente.

Em novembro, o Ministério Público do Rio Grande do Sul, o Ministério Público do Trabalho e o Ministério Público de Contas publicaram uma recomendação para reajustar o contrato com os serviços de triagem. A promotora de Defesa do Meio Ambiente Annelise Steigleder afirma que há anos o órgão trabalha para melhorar as condições de trabalho nas unidades, incluindo questões de segurança dos prédios e remuneração dos trabalhadores. Há também o risco físico: catadores são expostos a seringas e lâmpadas descartadas indevidamente, colocando sua saúde em risco.

O diretor-geral do DMLU, Carlos Alberto Hundertmarker, defende que "a educação ambiental é fundamental". A prefeitura realiza eventos, palestras e reuniões de orçamento participativo para incentivar a separação correta. Mas há uma lacuna: diferentemente de cidades como Novo Hamburgo, os catadores de Porto Alegre não participam da coleta de porta a porta, realizada apenas pela Cootravipa. Eduarda Sant'Anna acredita que essa participação seria uma oportunidade de educar a população no momento da coleta. O Programa Recomeços, lançado no início do mês, prevê uma injeção de R$ 20 milhões para reformas, manutenção e qualificação das unidades de triagem. A prefeitura também planeja implementar a "Coleta Solidária", que incluiria os catadores no processo de educação ambiental, como parte de uma futura parceria público-privada que consolidará 77 contratos em um único. O desafio agora é transformar esse planejamento em ação concreta.

A educação ambiental é fundamental. As pessoas ainda têm muita dificuldade de entender como separar o lixo.
— Carlos Alberto Hundertmarker, diretor-geral do DMLU
Hoje, a remuneração desses catadores vem exclusivamente da venda do material, que flutua muito. As cooperativas realmente são muito deficientes em termos de estrutura.
— Geraldo Reichert, engenheiro e consultor em resíduos sólidos
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que uma cidade que foi pioneira em reciclagem ainda gasta R$ 36 milhões por ano descartando lixo reciclável?

Model

Porque o sistema foi construído há 35 anos, mas as pessoas que usam não mudaram junto com ele. A coleta chega, mas o lixo que entra nos caminhões já está contaminado — misturado, mal separado. E as cooperativas que recebem esse material não têm ferramentas para consertar o problema.

Inventor

Então o problema é só educação?

Model

Não. Se fosse só educação, campanhas resolviam. O problema é que as cooperativas não têm equipamento para lavar, triturar, processar o material. Vendem para atravessadores porque não conseguem vender direto. E quando o mercado não quer um material, ele vai para o aterro.

Inventor

Os catadores ganham bem?

Model

Ganham do que conseguem vender. Se o mercado cai, eles ganham menos. Alguns recebem R$ 60 mil por mês da prefeitura; outros, R$ 10 mil. Depende de quanto material chega e de quanto conseguem converter em dinheiro. É uma renda muito instável.

Inventor

E por que os catadores não fazem a coleta de porta a porta também?

Model

Boa pergunta. Em outras cidades fazem. Aqui, só a Cootravipa coleta. Se os catadores fossem nas casas, poderiam educar as pessoas no momento exato — mostrar o que vai e o que não vai. Mas a prefeitura ainda está discutindo isso.

Inventor

Qual é a esperança?

Model

O Programa Recomeços traz R$ 20 milhões. A prefeitura quer que as cooperativas se organizem melhor, comprem equipamentos, talvez participem da coleta. Mas isso depende de vontade política e de dinheiro chegando de verdade nas unidades.

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