Polónia revoga maior honra a Zelensky por homenagem a UPA

O UPA foi responsável pela morte de mais de 100 mil cidadãos polacos durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo massacres de civis polacos e judeus.
A verdade histórica não é moeda de troca
Nawrocki justifica a revogação da honra a Zelensky, recusando-se a separar a diplomacia da memória dos massacres.

A Polónia retirou a sua maior honra nacional a Zelensky após a Ucrânia designar unidade militar como 'Heróis da UPA', organização que matou mais de 100 mil cidadãos polacos na II Guerra. Nawrocki afirma que a decisão não afeta o apoio estratégico à Ucrânia contra a agressão russa, mas Kiev reagiu condenando a revogação como 'erro estratégico' e 'decisão desprezível'.

  • Polónia revoga Ordem da Águia Branca concedida a Zelensky em abril de 2023
  • UPA responsável pela morte de mais de 100 mil cidadãos polacos na II Guerra Mundial
  • Apoio polaco ao acolhimento de refugiados ucranianos caiu de 94% para 48% entre 2022 e 2026
  • Polónia acolheu mais de um milhão de refugiados ucranianos desde fevereiro de 2022

O Presidente polaco Karol Nawrocki revogou a Ordem da Águia Branca concedida a Zelensky em protesto contra a nomeação de uma unidade militar ucraniana em homenagem ao UPA, responsável por massacres de polacos na II Guerra Mundial.

Na manhã de 19 de junho, o Presidente polaco Karol Nawrocki anunciou uma decisão que ecoaria através das relações entre dois países que se consideravam aliados: revogava a Ordem da Águia Branca, a maior honra nacional que a Polónia havia concedido a Volodymyr Zelensky em abril de 2023. O gesto era uma resposta direta ao facto de a Ucrânia ter designado uma unidade das suas forças armadas como "Heróis da UPA" — uma homenagem ao braço armado de um movimento nacionalista ucraniano que, durante a Segunda Guerra Mundial, foi responsável pela morte de mais de cem mil cidadãos polacos.

Nawrocki publicou uma longa nota no site da presidência explicando a sua posição. O Exército Insurgente Ucraniano, conhecido pela sigla UPA, havia cometido crimes brutais contra a população polaca durante a guerra, escreveu. A escolha de nomear uma unidade militar em sua honra representava, aos olhos do Presidente polaco, uma falha em condenar esses crimes históricos. "A verdade histórica não é, nem pode ser, uma moeda de troca", afirmou Nawrocki, reiterando que para a maioria dos polacos, a UPA permanecia fundamentalmente associada aos massacres que perpetrou. Ao mesmo tempo, procurou acalmar as tensões: a decisão não era dirigida contra o povo ucraniano, insistiu, e a Polónia continuaria a apoiar Kiev contra a agressão russa porque essa ameaça representava um perigo para toda a Europa.

A reação de Kiev foi imediata e áspera. O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andriy Sybiga, condenou a revogação como um "erro estratégico" e uma "decisão desprezível". A tensão era particularmente aguda porque a Polónia havia sido um dos apoiantes mais consistentes da Ucrânia desde a invasão russa de fevereiro de 2022, acolhendo mais de um milhão de refugiados e oferecendo apoio militar e humanitário substancial. A condecoração a Zelensky, apenas três anos antes, havia sido vista como um símbolo de solidariedade excepcional entre os dois povos.

Mas a relação entre Nawrocki e a Ucrânia era mais complexa do que a superfície sugeria. Mesmo antes de chegar à presidência, o historiador havia criticado abertamente a adesão de Kiev à NATO e à União Europeia. Após assumir o cargo, bloqueou legislação que teria estendido apoio especial aos refugiados ucranianos. Nunca havia visitado Kiev, apesar dos vários convites. Enquanto diretor do Instituto de Memória Histórica, havia liderado uma política agressiva de eliminação de símbolos soviéticos na Polónia — uma ação que Moscovo condenou, mas que revelava a sua preocupação obsessiva com a história e a memória nacional.

O incidente da UPA não era isolado. Semanas antes, Zelensky havia presidido ao enterro de Andriy Melnik, líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos durante a primeira metade do século XX. Os seus restos mortais foram transferidos do Luxemburgo para um cemitério em Kiev dedicado aos soldados ucranianos mortos em combate. Melnik havia colaborado com a Alemanha nazi em certas fases da guerra, embora tivesse acabado por ser enviado para o campo de concentração de Sachsenhausen. Na Ucrânia, era recordado como um lutador pela independência; na Polónia, a sua reabilitação simbólica era vista como uma provocação.

A história da UPA era ela própria um emaranhado de narrativas conflituantes. O movimento havia lutado contra o Exército Vermelho soviético, mas também havia entrado em confronto com a resistência polaca e matado civis polacos e judeus. Em certos momentos colaborou com os nazis como alternativa à ocupação soviética; noutros, voltou-se contra eles. Na Ucrânia contemporânea, especialmente desde 2022, quando o país enfrentava novamente uma guerra existencial, a UPA era homenageada como uma força de independência. A Ucrânia argumentava que a escolha do nome da unidade militar não pretendia ofender a Polónia.

Mas Kiev havia reconhecido os massacres cometidos pela UPA e emitido um pedido formal de desculpas a Varsóvia. Rejeitava, porém, o termo "genocídio", que o parlamento polaco havia adotado oficialmente em 2016. Em 2025, após anos de interrupção, os dois países retomaram as exumações das vítimas dos massacres da Volínia, no noroeste da Ucrânia atual.

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, um pró-europeu defensor da Ucrânia, encontrava-se numa posição incómoda. Considerou a decisão de Zelensky preocupante, mas apelou aos dois Presidentes para que encontrassem "uma forma melhor do que trocar golpes para apaziguar estas emoções". Instou o lado ucraniano a assumir responsabilidade pela crise. Ao mesmo tempo, reforçou que apoiar a Ucrânia era do interesse estratégico da Polónia: se Kiev perdesse a guerra, a Polónia enfrentaria uma situação "dramaticamente mais difícil". As sondagens revelavam o custo político da tensão. Sessenta e cinco por cento dos polacos acreditavam que a decisão de Zelensky tinha um impacto negativo nas relações entre os dois países. Mais preocupante ainda: o apoio polaco ao acolhimento de refugiados ucranianos havia caído de 94% logo após a invasão para apenas 48% no início de 2026, com 46% a opor-se. A conferência internacional sobre a reconstrução da Ucrânia, agendada para Gdansk no final do mês e coorganizada por Zelensky, decorrer-se-ia agora sob a sombra desta crise diplomática.

A verdade histórica não é, nem pode ser, uma moeda de troca
— Karol Nawrocki, Presidente da Polónia
Se a Ucrânia perder esta guerra, a Polónia encontrar-se-á numa situação dramaticamente mais difícil
— Donald Tusk, Primeiro-ministro da Polónia
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que a Polónia considera a UPA tão ofensiva, quando a Ucrânia a vê como um símbolo de resistência?

Model

Porque para os polacos, a UPA matou mais de cem mil dos seus cidadãos durante a Segunda Guerra Mundial. Para a Ucrânia, a UPA lutou contra a ocupação soviética. São duas histórias completamente diferentes sobre o mesmo movimento.

Inventor

Mas Nawrocki diz que continua a apoiar a Ucrânia contra a Rússia. Então porque é que revogou a honra?

Model

Porque acredita que a história não pode ser negociada. Para ele, nomear uma unidade militar em honra da UPA é uma forma de a Ucrânia dizer que aqueles massacres não importam. É um teste de valores, não apenas de alianças militares.

Inventor

Tusk parece estar dividido. Quer apoiar a Ucrânia, mas também quer que a Polónia seja respeitada.

Model

Exatamente. Tusk está preso entre a realidade geopolítica — a Polónia precisa da Ucrânia como amortecedor contra a Rússia — e a realidade doméstica — os polacos estão cada vez menos dispostos a apoiar os ucranianos. As sondagens mostram isso claramente.

Inventor

O que é que Zelensky ganha ao homenagear a UPA neste momento?

Model

Talvez nada. Pode estar a tentar unificar a Ucrânia em torno de símbolos de resistência histórica, mas escolheu um símbolo que magoa um aliado crucial. É um erro de cálculo político.

Inventor

Isto pode prejudicar o apoio militar polaco à Ucrânia?

Model

Ainda não, porque Tusk e a maioria liberal no poder continuam comprometidos. Mas se Nawrocki ganhar mais influência, ou se as sondagens continuarem a cair, sim. A Polónia é o maior apoiante da Ucrânia na Europa. Perder isso seria catastrófico para Kiev.

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