Todos nós fomos surpreendidos com a força da economia
Em outubro de 2023, a economista-chefe do Santander reconheceu publicamente que o Brasil surpreendeu até os mais experientes analistas: a economia cresceu 3% no ano, impulsionada por uma safra histórica e um mercado de trabalho resiliente. É o retrato de um país que avança com vigor em alguns fronts enquanto carrega, em silêncio, o peso de um desequilíbrio fiscal que nenhuma colheita abundante resolve sozinha.
- O mercado subestimou o Brasil: a revisão do PIB de 2,5% para 3% pegou de surpresa bancos, analistas e até o próprio Santander.
- A supersafra de soja — 25% maior que a do ano anterior — e o avanço de 10% no milho transformaram o campo no motor silencioso do crescimento nacional.
- O superávit comercial caminha para superar US$ 85 bilhões, colocando o Brasil em posição externa confortável com déficit em conta corrente de apenas 2% do PIB.
- A inflação recua e os juros devem cair, mas o verdadeiro nó permanece intocado: o governo gasta mais do que arrecada, e a dívida pública segue sem âncora firme.
- Para estabilizar a dívida, o país precisaria de um superávit acima de 1% do PIB — mas a estimativa aponta para um déficit de 1%, uma distância que o crescimento robusto, por si só, não fecha.
No final de outubro de 2023, em um evento em Madri, Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, admitiu sem rodeios: o Brasil havia surpreendido o mercado. O banco revisou sua projeção de crescimento do PIB de 2,5% para 3% — um ajuste que, em linguagem econômica, representa uma admissão coletiva de que o país foi subestimado.
Grande parte dessa surpresa veio do campo. A safra de soja cresceu 25% em relação ao ano anterior, e o milho avançou 10%, projetando um PIB agrícola de 13,5% para 2023. O mercado de trabalho também contribuiu: o emprego se manteve firme, o consumo resistiu, e os litígios trabalhistas caíram 50% após a reforma — sinal de relações mais estáveis entre empresas e trabalhadores.
No plano externo, o superávit comercial deve ultrapassar US$ 85 bilhões, e o déficit em transações correntes deve ficar em apenas 2% do PIB — um número historicamente favorável. Na frente de preços, o IPCA deve encerrar 2023 em 4,6%, abaixo do teto da meta, com perspectiva de queda adicional para 3,8% em 2024 e Selic chegando a 9,5% ao fim do mesmo ano.
Mas Vescovi não deixou o otimismo falar sozinho. O déficit fiscal estimado em 1% do PIB contrasta com a necessidade de um superávit acima de 1% para estabilizar a dívida pública. O Brasil cresce, exporta e controla a inflação — mas ainda gasta mais do que arrecada. Essa lacuna estrutural é a sombra que acompanha, discreta e persistente, cada número positivo do ano.
A economia brasileira em 2023 fez algo que poucos esperavam: cresceu com força. No final de outubro, quando Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, apresentava as projeções do banco em um evento em Madri, ela não hesitou em admitir que o mercado havia subestimado o país. O Produto Interno Bruto fecharia o ano com expansão de 3%, bem acima dos 2,5% que a instituição havia previsto meses antes. "Todos nós fomos surpreendidos", disse ela, reconhecendo que nem o banco nem o mercado em geral havia antecipado um desempenho tão robusto.
O que explica essa recuperação? Parte significativa vem do campo. A safra de soja deste ano foi 25% maior que a do ano anterior, resultado de avanços tecnológicos e condições climáticas favoráveis. O milho também respondeu bem, com crescimento de 10%. Juntos, esses números projetam um PIB agrícola de 13,5% para 2023. Mas não é apenas a agricultura que sustenta o crescimento. O mercado de trabalho permanece resiliente, com pessoas continuando a encontrar emprego e a consumir. A reforma trabalhista também deixou sua marca: litígios relacionados a questões trabalhistas caíram 50%, sinalizando relações mais estáveis entre empresas e funcionários.
No comércio exterior, as perspectivas são igualmente positivas. O superávit comercial deve ultrapassar US$ 85 bilhões, um número expressivo que reflete a capacidade de exportação do país. O déficit em transações correntes, por sua vez, deve ficar em apenas 2% do PIB — historicamente baixo, o que significa que o Brasil está em posição confortável em relação ao resto do mundo.
Na frente de preços, o Santander projeta que a inflação oficial, medida pelo IPCA, termine 2023 em 4,6%, abaixo do teto da meta estabelecida pelo governo federal, que é 4,75%. Para 2024, a expectativa é de inflação ainda menor, em 3,8%. A taxa básica de juros, a Selic, chegaria a 9,5% no fim de 2024. Esses números sugerem que o Banco Central conseguiu controlar as pressões inflacionárias sem sufocarem completamente a atividade econômica.
Mas há uma sombra nesse quadro otimista. Enquanto a economia cresce e a inflação cede, a situação fiscal do país permanece preocupante. Vescovi estima um déficit de 1% do PIB para este ano — ou seja, o governo gasta mais do que arrecada. Para que a dívida pública se estabilize ao longo do tempo, o país precisaria alcançar um superávit acima de 1% do PIB. A distância entre onde o Brasil está e onde precisa estar é significativa, e essa lacuna fiscal ameaça comprometer os ganhos econômicos que o país está experimentando. O crescimento robusto, portanto, não resolve o desafio estrutural que o país enfrenta: gastar menos do que ganha.
Notable Quotes
Temos uma recuperação importante desde a pandemia e, em 2023, um crescimento surpreendente. Todos nós, o mercado e o banco, fomos surpreendidos— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
Estimamos um déficit de 1% do PIB. Precisamos alcançar um superávit acima de 1% do PIB para que a dívida se estabilize ao longo do tempo— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o mercado subestimou tanto o crescimento do Brasil em 2023?
Havia pessimismo acumulado. Vinha da pandemia, das incertezas políticas, da inflação alta. Ninguém esperava que a safra fosse tão grande e que o mercado de trabalho resistisse tão bem ao mesmo tempo.
A safra de soja 25% maior — isso é resultado de planejamento ou sorte?
Sorte e planejamento juntos. O clima foi favorável, mas os agricultores também investiram em tecnologia. Não é algo que se repita automaticamente no próximo ano.
Se o crescimento é tão bom, por que a questão fiscal preocupa tanto?
Porque crescimento não resolve déficit. O governo continua gastando mais do que arrecada. Se a economia desacelerar — e ela vai — esse problema fica ainda mais visível.
Qual é o cenário se o Brasil não corrigir o fiscal?
A dívida cresce, os juros ficam mais altos, e eventualmente sufoca o próprio crescimento que estamos vendo agora. É um ciclo que se fecha.
A reforma trabalhista ajudou mesmo?
Ajudou. Menos litígios significam menos incerteza para quem contrata. Empresas contratam mais quando sabem que não vão ser processadas a cada decisão.
2024 vai ser tão bom quanto 2023?
Improvável. A safra deste ano foi excepcional. O crescimento de 3% é resultado de um conjunto de fatores que não se repetem. Espera-se algo mais modesto no próximo ano.