O negro deixou de ser objeto de estudo para ser sujeito de estudo
Em meados do século XX, quando a academia brasileira ainda tratava populações marginalizadas como objetos silenciosos de análise, dois sociólogos abriram as portas da Universidade de São Paulo para que mais de quarenta lideranças negras falassem, orientassem e construíssem, ao lado dos pesquisadores, o conhecimento sobre a discriminação racial em São Paulo. A pesquisa UNESCO de 1951-1952, coordenada por Roger Bastide e Florestan Fernandes, não foi apenas um estudo — foi um gesto de reconhecimento de que quem vive a injustiça carrega um saber que nenhum observador externo pode substituir.
- A tradição acadêmica brasileira de silenciar os marginalizados era tão enraizada que convidar negros como sujeitos — e não objetos — de uma pesquisa científica representava uma ruptura sem precedentes na USP.
- Mais de quarenta militantes negros, entre jornalistas, professores e dirigentes de associações, ocuparam o salão nobre da Faculdade de Filosofia a cada quinze dias, apresentando conferências e debatendo discriminação racial com autoridade de quem a vivia.
- A tensão com o contexto internacional era visível: enquanto a UNESCO queria provar que o Brasil era livre de preconceitos — ecoando as teses de Gilberto Freyre —, a pesquisa documentava sistematicamente o oposto, colhendo relatos de empregadas domésticas, trabalhadores e lideranças comunitárias.
- O método inovador — seminários, histórias de vida, entrevistas e questionários — transformou a experiência negra no centro da construção do conhecimento sociológico, e não em sua margem.
- Os registros foram preservados no Fundo Florestan Fernandes da UFSCar e culminaram no livro 'A integração do negro na sociedade de classes', publicado em 1953, legando à posteridade tanto os dados quanto o paradigma que os tornou possíveis.
Entre maio e novembro de 1951, nas terças-feiras à noite, o salão nobre da Faculdade de Filosofia da USP recebia algo incomum: dezenas de lideranças negras convidadas não para serem estudadas, mas para falar, orientar e participar ativamente de uma pesquisa sobre relações raciais em São Paulo, encomendada pela UNESCO aos sociólogos Roger Bastide e Florestan Fernandes.
Mais de quarenta militantes colaboraram — jornalistas, políticos, professores, dirigentes de associações. Nomes como Jorge Teixeira, da Associação José do Patrocínio, e Sofia Campos Teixeira, presidenta da Federação das Mulheres do Estado de São Paulo, apresentaram conferências e participaram de debates abertos. Cada encontro utilizava seminários, entrevistas e histórias de vida, colocando o testemunho negro no centro da construção do conhecimento científico sobre discriminação.
O sociólogo Antonio Candido descreveu a virada de paradigma com precisão: ao invés de ir estudar o objeto, Bastide e Fernandes puxaram a comunidade negra para ser sujeito. A conexão entre os pesquisadores e as lideranças não era casual — havia laços forjados no I Congresso do Negro Brasileiro de 1950 e redes políticas compartilhadas na Esquerda Democrática.
A contradição com o espírito oficial da pesquisa era evidente. No último seminário, em novembro de 1951, o diretor da UNESCO Alfred Métraux afirmou que o objetivo era demonstrar que o Brasil estava livre de preconceitos — tese alinhada às ideias de Gilberto Freyre sobre a democracia racial. Enquanto isso, a pesquisa de Bastide e Fernandes documentava sistematicamente o contrário, reunindo relatos de discriminação vivida por empregadas domésticas, trabalhadores fabris e militantes.
Todo o material foi preservado no Fundo Florestan Fernandes da UFSCar e deu origem ao livro 'A integração do negro na sociedade de classes', publicado em 1953. Mas o legado mais duradouro estava no método: o reconhecimento de que as pessoas que vivem a discriminação possuem um saber que a academia precisa aprender, e não apenas catalogar.
Entre maio e novembro de 1951, algo inusitado acontecia nas terças-feiras à noite no salão nobre da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Dezenas de lideranças negras ocupavam aquele espaço a cada quinze dias, convidadas por dois sociólogos — Roger Bastide e Florestan Fernandes — para participar de uma pesquisa encomendada pela UNESCO sobre as relações raciais em São Paulo. Não era para serem estudadas como objetos passivos. Eram convocadas para falar, para orientar, para serem sujeitos da investigação.
A pesquisa, que se estenderia até 1952, representava uma ruptura com a tradição acadêmica brasileira de silenciar os marginalizados. Mais de quarenta militantes negros colaboraram com o trabalho — jornalistas, políticos, professores, funcionários públicos e dirigentes de associações. Entre eles estavam Jorge Teixeira, diretor da Associação José do Patrocínio, e Sofia Campos Teixeira, presidenta da Federação das Mulheres do Estado de São Paulo e coordenadora da Associação das Empregadas Domésticas. Esses encontros não eram palestras unidirecionais. Utilizavam seminários, conferências, questionários, entrevistas e histórias de vida — técnicas que colocavam as experiências e testemunhos das pessoas negras no centro da construção do conhecimento científico sobre discriminação racial.
Os seminários transcorriam com regularidade, atraindo público numeroso. Vicente Custódio apresentou uma conferência sobre preconceito racial no Brasil. Edgard Sant'Anna falou sobre o problema do negro. Raul Joviano do Amaral discutiu reflexões sobre preconceito. Sofia Teixeira abordou a evolução da situação de contato. Adélio Silveira relatou o comportamento da polícia e do juizado de menores com relação ao elemento negro. Luiz Lobato analisou brancos e negros numa sociedade de classes. Nestor Borges examinou a situação econômica do negro brasileiro. Cada apresentação era seguida de debate aberto, onde todos os presentes podiam participar. A professora Maria Isaura Queiroz e o estudante Renato Moreira ficaram responsáveis pela coleta de histórias de vida — Queiroz registrou a história de uma empregada doméstica negra que trabalhava em sua casa; Moreira coletou as narrativas dos militantes Francisco Lucrécio e José Correia Leite.
O sociólogo Antonio Candido, em depoimento posterior, capturou a significância dessa mudança de paradigma. Ao invés de ir estudar o objeto, disse ele, Bastide e Fernandes puxaram a comunidade negra para ser sujeito. O negro deixou de ser objeto de estudo para ser sujeito de estudo — participando, falando, orientando junto com os pesquisadores. Essa transformação não era casual. Bastide e Fernandes haviam participado, em 1950, do I Congresso do Negro Brasileiro, coordenado pelo Teatro Experimental do Negro, onde conheceram muitas das lideranças que depois colaborariam com a pesquisa. Havia também conexões políticas: Antonio Candido fazia parte da Esquerda Democrática, organização que incluía entre seus membros Sofia Campos, Francisco Lucrécio, Luiz Lobato e Geraldo Campos — todos colaboradores da pesquisa.
No projeto publicado em abril de 1951, Bastide e Fernandes justificavam a importância de ouvir as pessoas negras de forma sistemática. A abolição era relativamente recente, argumentavam. Ainda viviam em São Paulo alguns ex-escravos e ex-senhores. Explorar sistematicamente essas fontes vivas — através de entrevistas orientadas e coleta de histórias de vida — era uma possibilidade de conhecimento sociológico que não podia ser desperdiçada. Os registros dessa pesquisa foram meticulosamente arquivados: entrevistas com pessoas brancas, pardas e negras; questionários preenchidos; seminários com a militância; reuniões com mulheres negras; estudos de caso sobre bailes, família, movimento negro, crianças nos parques infantis e imprensa negra. Tudo foi preservado no que se tornaria o Fundo Florestan Fernandes, na Universidade Federal de São Carlos.
O último seminário ocorreu num sábado, 17 de novembro de 1951, com a presença de Oswald de Andrade e Alfred Métraux, diretor da UNESCO. Métraux sustentou que o objetivo da organização era demonstrar que o Brasil estava livre de preconceitos — uma prova concreta das possibilidades de convivência. Essa afirmação ecoava as teses de Gilberto Freyre sobre a democracia racial brasileira, supostamente construída pela colonização portuguesa que não coibia a miscigenação. Enquanto a pesquisa de Bastide e Fernandes documentava sistematicamente as experiências de discriminação vividas por pessoas negras em São Paulo, Freyre viajava para Portugal e África a convite do ditador António Salazar, que usava suas ideias para justificar a colonização portuguesa. Em 1953, ano da publicação da pesquisa UNESCO, Freyre publicaria dois livros somando mais de mil páginas exaltando a colonização portuguesa no continente africano.
Os resultados da pesquisa foram compilados no livro A integração do negro na sociedade de classes, publicado em 1953, que retomava os registros das contribuições da militância negra. Mas o significado mais profundo estava no método, na transformação de como a academia brasileira poderia conhecer e compreender a experiência negra no país. Aqueles seminários nas terças-feiras à noite na USP não eram apenas coleta de dados. Eram um reconhecimento de que as pessoas que viviam a discriminação tinham conhecimento que os pesquisadores precisavam aprender.
Citações Notáveis
Ao invés de ir lá estudar o objeto, eles puxaram a comunidade negra para ser sujeito, ao mesmo tempo. O negro, a partir dessa pesquisa, deixou de ser objeto de estudo, para ser sujeito de estudo: ele participar, ele falar, ele orientar, junto com os pesquisadores— Antonio Candido de Mello e Souza, comentando a pesquisa no documentário O mestre (2004)
A abolição é relativamente recente. Ainda hoje vivem em São Paulo alguns ex-escravos e ex-senhores; uma das possibilidades de conhecimento sociológico desse período consiste em explorar sistematicamente tais fontes vivas— Roger Bastide e Florestan Fernandes, no projeto da pesquisa publicado em abril de 1951
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que essa pesquisa de 1951 importa tanto agora, décadas depois?
Porque ela marca um momento em que a academia brasileira reconheceu que não podia estudar o negro como se estuda um objeto inerte. Precisava ouvi-lo, aprender com ele. Isso era radical para a época.
Mas a pesquisa não apenas documentou discriminação — ela também estava inserida num contexto onde a ideia de democracia racial era dominante. Como Bastide e Fernandes navegaram isso?
Eles coletaram sistematicamente os testemunhos de quem vivia a discriminação. Os dados falam por si. Mas é verdade que a UNESCO esperava encontrar um Brasil sem preconceitos. A pesquisa mostrou algo bem diferente.
Esses mais de quarenta militantes que participaram — eles sabiam que estavam fazendo história?
Provavelmente não da forma que entendemos agora. Mas muitos deles eram intelectuais, jornalistas, dirigentes de associações. Sabiam que estavam contribuindo para um conhecimento que poderia mudar como o Brasil se via.
O que aconteceu com esses registros depois? Ficaram esquecidos?
Foram preservados no Fundo Florestan Fernandes. Mas sim, durante muito tempo ficaram fora do foco principal da academia. Agora estão sendo redescobertos, relidos. As histórias de vida que Renato Moreira coletou, as análises que Jorge Teixeira fez — tudo isso volta à tona.
E a ironia de Freyre publicando livros exaltando a colonização portuguesa exatamente quando essa pesquisa mostrava discriminação no Brasil?
É mais que ironia. É uma disputa sobre qual narrativa sobre o Brasil prevaleceria. Freyre tinha poder, tinha plataforma internacional. A pesquisa tinha verdade, tinha testemunhos. Levou décadas para a verdade ganhar espaço.