Pesquisa revela abismo digital entre estudantes brasileiros durante pandemia

Milhões de estudantes brasileiros, especialmente das classes C, D e E, têm acesso educacional prejudicado pela falta de conectividade residencial adequada.
Educação na internet não é só plataforma, é equidade no acesso ao conhecimento
Coordenador do Idec resume o horizonte além da pandemia: conectividade é apenas o começo.

Quando a pandemia fechou as escolas brasileiras, revelou-se uma fratura que já existia há décadas: milhões de estudantes das classes C, D e E simplesmente não tinham onde estudar, porque o lar nunca foi conectado. Um relatório do Idec, publicado em junho de 2021, documentou com precisão o que a crise tornou visível — seis milhões de alunos sem qualquer acesso à internet em casa, e um sistema educacional que, ao sair dos muros da escola, deixou para trás quem mais precisava. A desigualdade digital não nasceu da pandemia; ela apenas perdeu o lugar onde se escondia.

  • Quarenta e sete milhões de brasileiros viviam desconectados antes da pandemia, e o fechamento das escolas transformou essa exclusão silenciosa em crise educacional declarada.
  • Nas classes D e E, 85% dos estudantes dependiam exclusivamente de celulares compartilhados para assistir aulas — enquanto na classe A esse número caía para 11%, revelando não uma diferença de grau, mas de realidade.
  • As respostas emergenciais — chips doados, dados patrocinados, aulas por rádio e material impresso — chegaram fragmentadas e insuficientes, construídas sem considerar a infraestrutura real das famílias.
  • O Brasil possui políticas de conectividade desde 1997, mas o pesquisador responsável pelo estudo aponta que o problema nunca foi a existência das políticas — foi a ausência de efetividade.
  • Duas medidas concretas estão na mesa: a aprovação do PL 3477, com R$ 3,5 bilhões para conectar alunos e professores em casa, e o desbloqueio do Fust para ampliar a conectividade nas escolas.
  • Para o Idec, o horizonte vai além da infraestrutura: enquanto o acesso ao conhecimento depender do endereço de quem estuda, a equidade educacional continuará sendo promessa, não realidade.

Quando as escolas fecharam em 2020, o Brasil se deparou com uma verdade incômoda: seu sistema educacional havia sido construído para funcionar apenas dentro dos muros das instituições. Fora deles, quarenta e sete milhões de brasileiros permaneciam desconectados — e 95% deles viviam nas classes C, D e E.

Um relatório do Instituto de Defesa do Consumidor, lançado em junho de 2021, dimensionou o problema com precisão. Seis milhões de alunos não tinham acesso à internet fixa ou móvel em casa. Nas classes D e E, 85% dos estudantes estudavam exclusivamente pelo celular — aparelho que, em 38% dos casos, precisava ser dividido com outros moradores. Na classe A, esse índice era de 11%. Não era uma diferença de quantidade. Era uma diferença de condição.

O pesquisador Jardiel Nogueira, que coordenou o estudo, identificou uma ironia central: o Brasil não carecia de políticas de conectividade — carecia de efetividade nelas. Desde 1997, programas levaram laboratórios às escolas e, mais recentemente, buscaram conectar as próprias instituições. Mas quando os alunos foram para casa, toda essa infraestrutura ficou para trás.

As soluções improvisadas pelas secretarias — aplicativos, dados patrocinados, chips, TV, rádio, material impresso — não eram ruins. Eram insuficientes. Andressa Pellanda, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, sintetizou: as políticas emergenciais foram construídas ignorando a realidade domiciliar das famílias.

O Idec apontou dois caminhos: a aprovação do PL 3477, que destinaria R$ 3,5 bilhões para conectar estudantes e professores em suas residências, e o desbloqueio do Fust para ampliar a conectividade nas escolas. Mas o coordenador Diogo Moyses foi além: educação na internet, disse ele, não é só acesso à aula — é equidade no acesso ao conhecimento. Fechar essa brecha exigirá mais do que recursos. Exigirá a decisão política de tratar o endereço de um estudante como algo que não pode determinar o seu futuro.

Quando as escolas fecharam em 2020, o Brasil descobriu que tinha construído um sistema educacional que funcionava apenas para alguns. Quarenta e sete milhões de brasileiros permaneciam desconectados da internet, e desses, quarenta e cinco milhões — 95% do total — viviam nas classes C, D e E. A pandemia não criou essa divisão. Apenas a tornou impossível de ignorar.

Um relatório lançado pelo Instituto de Defesa do Consumidor em junho de 2021 mapeou a extensão do problema com precisão devastadora. Cerca de seis milhões de alunos viviam completamente sem acesso à internet fixa ou móvel em casa. Nas classes D e E, 85% dos estudantes dependiam exclusivamente de celulares para acessar aulas e materiais — aparelhos que, segundo pesquisa Datafolha de 2020, precisavam ser compartilhados com outras pessoas da casa em 38% dos casos. Na classe A, apenas 11% usavam exclusivamente celular. A diferença não era de grau. Era de tipo.

O pesquisador Jardiel Nogueira, que coordenou o estudo, apontou uma ironia amarga: o Brasil não sofria de falta de políticas de conectividade. Sofria de falta de efetividade nelas. Desde 1997, programas como o de Tecnologia Educacional levaram laboratórios de informática para as escolas. Mais recentemente, o Programa de Inovação Educação Conectada focou em conectar as próprias instituições, adquirir equipamentos e treinar professores. Mas quando as escolas fecharam, toda essa infraestrutura virou inútil. Os alunos estavam em casa. A internet não estava.

As soluções emergenciais que secretarias municipais e estaduais improvisaram durante a pandemia revelaram o tamanho da lacuna. Algumas ofereceram aplicativos com aulas para download. Outras negociaram dados patrocinados com operadoras para que estudantes acessassem plataformas pedagógicas sem consumir seus pacotes. Algumas doaram chips. Algumas transmitiram aulas por TV ou rádio. Algumas entregaram material impresso. Nenhuma dessas medidas era ruim. Todas eram insuficientes. Andressa Pellanda, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, resumiu o problema na hora do lançamento do relatório: as políticas emergenciais foram construídas de forma excludente, ignorando a realidade da infraestrutura domiciliar e a capacidade das famílias de fornecer insumos básicos.

O Idec apontou dois caminhos para frente. O primeiro era a aprovação do Projeto de Lei 3477, que garantiria R$ 3,5 bilhões para conectar alunos e professores em suas residências — o maior aporte de recursos para isso na história do país. O segundo era o desbloqueio do Fundo de Universalização de Serviços de Telecomunicações, que liberaria recursos para expandir a conectividade nas próprias escolas. Mas Diogo Moyses, coordenador da área de telecomunicações e direitos digitais do Idec, deixou claro que o horizonte era maior que infraestrutura. "Educação na internet não é só plataforma, acesso à aula", disse. "É equidade no acesso ao conhecimento." A pandemia havia exposto que o Brasil tinha construído uma elite estudantil — não por mérito, mas por endereço. Fechar essa brecha exigiria mais do que políticas. Exigiria vontade de mudar.

O Brasil não está nessa situação por falta de políticas de conectividade, mas pela falta de efetividade das políticas que já foram lançadas
— Jardiel Nogueira, pesquisador do Idec
Foram construídas políticas públicas emergenciais de base excludente
— Andressa Pellanda, Campanha Nacional pelo Direito à Educação
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que a pandemia tornou esse problema tão visível de repente?

Model

Porque as políticas de conectividade que existiam desde 1997 estavam todas focadas nas escolas. Laboratórios de informática, internet nas instituições. Quando os prédios fecharam, tudo aquilo desapareceu. Os alunos foram para casa e descobriram que não havia internet lá.

Inventor

Mas celular é internet também, não é?

Model

Tecnicamente sim. Pedagogicamente não. Um celular limita o que você pode fazer — pesquisa acadêmica, produção de conteúdo, aprendizado autônomo. E 38% dos estudantes das classes D e E precisavam compartilhar o aparelho com outras pessoas da casa. Não é a mesma coisa que ter uma conexão estável e equipamento dedicado.

Inventor

Então o Brasil tinha políticas, mas elas não funcionaram?

Model

Tinham políticas desde 1997. Mas faltou efetividade. O pesquisador foi bem claro sobre isso. Não é que ninguém tentou. É que o que foi tentado não chegou onde precisava chegar.

Inventor

E agora? O que muda com esse relatório?

Model

Dois projetos importantes estão em jogo. Um libera R$ 3,5 bilhões especificamente para conectar alunos e professores em casa. Outro destranca um fundo que pode expandir a conectividade nas escolas. Mas o coordenador do Idec deixou claro que não é só sobre ter internet. É sobre equidade no acesso ao conhecimento.

Inventor

Equidade é uma palavra grande. O que significa na prática?

Model

Significa que um aluno na classe A e um aluno na classe E deveriam ter as mesmas ferramentas para aprender. Hoje não têm. Um estuda em um computador com internet fixa. O outro estuda em um celular compartilhado quando consegue. Isso não é educação. É loteria.

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