Foi um erro e ofereço minhas mais sinceras desculpas
Em meio à retirada final das tropas americanas do Afeganistão, um drone disparou mísseis contra uma casa em Cabul e matou dez civis, sete deles crianças. Duas semanas depois, o Pentágono reconheceu publicamente o erro — uma admissão rara que expõe as fraturas entre a certeza operacional e a realidade humana no campo de batalha. O caso de Zemari Ahmadi, trabalhador civil confundido com terrorista, torna visível o peso moral das guerras conduzidas à distância, onde galões de água podem ser lidos como bombas e vidas inteiras desaparecem em segundos de decisão equivocada.
- A pressão por uma resposta imediata ao atentado do Isis-K no aeroporto de Cabul — que havia matado cerca de 180 pessoas dois dias antes — criou um ambiente em que a urgência sobrepôs a cautela na análise de inteligência.
- O que os operadores do drone identificaram como explosivos eram galões de água; o motorista do carro, Zemari Ahmadi, havia trabalhado para os próprios Estados Unidos e não tinha qualquer ligação com grupos terroristas.
- Por semanas, o Pentágono defendeu o ataque como necessário e correto — até que investigações independentes, incluindo uma do New York Times, tornaram insustentável a versão oficial.
- O general Frank McKenzie compareceu publicamente a uma coletiva em Washington para admitir o erro, oferecer desculpas e declarar responsabilidade total — um gesto incomum na história recente das operações militares americanas.
- O secretário de Defesa Lloyd Austin anunciou revisão dos procedimentos de ataques com drones, reconhecendo que falhas críticas na identificação de alvos precisam ser corrigidas antes que o mesmo erro se repita.
Em 29 de agosto de 2021, um drone americano disparou mísseis contra uma residência em Cabul. Dez pessoas morreram — sete delas crianças da mesma família. A operação havia sido autorizada sob a convicção de que havia uma ameaça iminente do Estado Islâmico do Khorasan, dois dias após o grupo realizar um atentado devastador no aeroporto de Cabul que matou cerca de 180 pessoas.
Os militares acreditavam que um carro estacionado no quintal carregava explosivos para um novo ataque. O motorista era Zemari Ahmadi, um civil que havia trabalhado para os Estados Unidos durante a presença americana no Afeganistão. O que os operadores do drone identificaram como material explosivo eram, na verdade, galões de água. Um pacote menor era um computador. A segunda explosão registrada após o ataque — inicialmente interpretada como prova de que havia bombas no veículo — provavelmente foi causada por um botijão de gás no quintal ou pelo tanque de combustível do carro.
Por semanas, o Pentágono defendeu a operação como necessária e correta. Investigações independentes, incluindo uma reconstituição detalhada feita pelo New York Times, tornaram insustentável essa versão. Em 17 de setembro, o general Frank McKenzie compareceu a uma coletiva em Washington e fez o reconhecimento público: o ataque foi um erro, as desculpas foram oferecidas, e a responsabilidade total foi assumida.
O secretário de Defesa Lloyd Austin também se manifestou, enviando condolências à família e anunciando que o incidente seria investigado para orientar possíveis mudanças nos procedimentos de ataques com drones. O caso expõe com crueza os riscos de decisões tomadas sob pressão extrema — e o custo humano quando a inteligência falha e a urgência supera a cautela.
Em 29 de agosto de 2021, um drone americano disparou mísseis contra uma casa em Cabul. Dez pessoas morreram — sete delas crianças da mesma família. Duas semanas depois, o Pentágono admitiu que tinha se enganado completamente.
O general Frank McKenzie, chefe do Comando Central dos EUA, compareceu a uma coletiva de imprensa em Washington para fazer o reconhecimento. Disse que o ataque foi um erro. Ofereceu desculpas. Afirmou ser "plenamente responsável" pelo resultado trágico. A operação, explicou, havia sido autorizada com base na convicção de que havia uma ameaça iminente — um ataque do Estado Islâmico do Khorasan que poderia atingir as forças americanas ou os afegãos que tentavam fugir pelo aeroporto. Dois dias antes, de fato, o Isis-K havia realizado um atentado devastador no aeroporto de Cabul que matou cerca de 180 pessoas, a maioria afegãos desesperados para sair do país após a chegada do Talibã ao poder.
Mas a inteligência estava errada. Os militares americanos acreditavam que um carro estacionado no quintal da casa carregava explosivos para um novo ataque. O motorista era um homem chamado Zemari Ahmadi, que havia trabalhado para os EUA durante a presença americana no Afeganistão. Ele não tinha nenhuma ligação com terroristas. Ninguém na casa tinha. Segundo análises posteriores, o que os operadores do drone identificaram como explosivos eram, na verdade, galões de água. Um pacote menor era um computador.
O drone sobrevoou a residência por cinco minutos. Os operadores viram um homem saindo do veículo enquanto uma criança o estacionava e outras brincavam nos arredores. Depois dispararam mísseis Hellfire. Houve uma segunda explosão no local, que os militares inicialmente interpretaram como resultado de bombas que estariam sendo carregadas no carro. O general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, havia declarado no início do mês que "uma conclusão razoável a ser feita é de que havia explosivos naquele veículo". Investigações posteriores mostraram que a segunda explosão provavelmente foi causada por um botijão de gás no quintal ou pelo tanque de combustível do carro.
Até o começo daquela semana, o Pentágono havia defendido a operação como necessária e correta. Os militares apontavam para alertas de inteligência sobre um iminente ataque com carro-bomba no aeroporto. Esses alertas se mostraram infundados. O secretário de Defesa, Lloyd Austin, também pediu desculpas em comunicado e enviou condolências à família. Escreveu que o Pentágono "investigará e, se foi o caso, admitirá" quando houver razões para acreditar que matou inocentes. Revelou que partiu dele a iniciativa para revisar o incidente e que as informações obtidas ajudariam a analisar os procedimentos atuais de ataques com drones e sugerir possíveis mudanças futuras.
O ataque ocorreu enquanto os EUA finalizavam a retirada de suas últimas tropas do Afeganistão, concluída em 30 de agosto. A admissão do erro veio semanas depois, quando investigações independentes — incluindo uma do New York Times que reconstruiu os detalhes da operação — deixaram claro que todas as vítimas eram civis. O Pentágono agora enfrenta a tarefa de revisar seus procedimentos de inteligência e de identificação de alvos, e de explicar como um erro tão fundamental pôde ocorrer sob pressão operacional.
Citas Notables
O ataque ocorreu com a convicção de que poderia evitar uma ameaça iminente a nossas forças e aos que tentavam fugir pelo aeroporto, mas foi um erro— General Frank McKenzie, chefe do Comando Central dos EUA
Quando temos razões para acreditar que tiramos as vidas de inocentes, nós investigamos e, se foi o caso, admitimos. Mas também precisamos trabalhar duro para evitar repetições— Secretário de Defesa Lloyd Austin, em comunicado
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o Pentágono levou duas semanas para admitir que tinha se enganado?
A pressão era imensa. Os EUA estavam retirando suas tropas, havia acabado de haver um atentado devastador no aeroporto, e a inteligência dizia que havia uma ameaça iminente. Quando você está nessa situação, a tendência é defender a decisão que tomou, não questioná-la.
Mas como operadores de drone não conseguem distinguir galões de água de explosivos?
É uma questão de tecnologia, distância e interpretação. Você está vendo imagens térmicas, não vendo com os olhos. Um objeto quente pode parecer suspeito. E quando você já acredita que está procurando explosivos, tende a ver o que espera ver.
O motorista do carro trabalhou para os americanos. Isso não deveria ter aparecido em algum banco de dados?
Deveria. Mas a inteligência não conectou os pontos. Zemari Ahmadi era um civil comum que havia feito trabalho de motorista para os EUA. Não havia nada que o marcasse como suspeito — exceto estar no lugar errado, na hora errada, com um carro que alguém decidiu que era perigoso.
E as crianças? Como você mata sete crianças e depois diz que foi um erro?
É o custo real da guerra de drones. Você não vê rostos. Vê pontos de calor em uma tela. E quando comete um erro, sete crianças estão mortas. Não há como desfazer isso.
O que muda agora?
Teoricamente, os procedimentos. Mas a pergunta verdadeira é se essa admissão de erro vai levar a mudanças reais ou se é apenas um reconhecimento público enquanto as operações continuam da mesma forma.