Um dos cinco triplistas que conseguiram ultrapassar os 18 metros
Pichardo desertou da seleção cubana em 2017 aos 23 anos e obteve nacionalidade portuguesa em apenas sete meses, assinando contrato com o Benfica. É um dos apenas cinco triplistas a ultrapassar os 18 metros em competição, com recorde pessoal de 18,08 metros estabelecido em 2015.
- Desertou da seleção cubana em abril de 2017 aos 23 anos
- Obteve nacionalidade portuguesa em dezembro de 2017, após sete meses
- Recorde pessoal de 18,08 metros estabelecido em maio de 2015
- Venceu o Europeu de pista coberta em Torun com 17,30 metros em março de 2021
- Um dos apenas cinco triplistas a ultrapassar os 18 metros em competição
Atleta cubano Pedro Pichardo, que desertou para Portugal em 2017, venceu o campeonato europeu de triplo salto em pista coberta com 17,30 metros, consolidando-se como uma das maiores promessas mundiais da modalidade.
Pedro Pablo Pichardo Peralta nasceu em Santiago de Cuba no último dia de junho de 1993. Vinte e três anos depois, em 2017, desertou do estágio da seleção cubana de atletismo na Alemanha e escolheu Portugal para viver. Nessa altura, já tinha sete saltos acima do recorde nacional português de Nelson Évora. Integra um grupo reduzido de apenas cinco triplistas no mundo que conseguiram ultrapassar a marca dos 18 metros em competição.
Este domingo, aos 27 anos, Pichardo conquistou o ouro nos Campeonatos Europeus de atletismo de pista coberta em Torun, na Polónia, com um salto de 17,30 metros realizado logo na primeira tentativa. Tratava-se da sua estreia em provas continentais representando Portugal. Chegava como favorito absoluto — era o melhor europeu do ano com 17,36 metros e tinha sido o único a ultrapassar os 17 metros na qualificação.
A trajetória de Pichardo revela um atleta que mostrou talento precoce. Aos 19 anos, em 2012, tornou-se Campeão Mundial Júnior. No ano seguinte conquistou prata no Campeonato Mundial. Em 2014, o seu melhor salto do ano foi de 17,79 metros. O ponto de viragem chegou em 2015. Primeiro, em maio, saltou 17,94 metros, colocando-o como o sexto melhor triplista de todos os tempos. Uma semana depois, em Doha, no Qatar, alcançou 18,06 metros — um salto que o elevou para terceiro lugar histórico e o tornou um dos cinco atletas a ultrapassar a barreira dos 18 metros. Nessa mesma competição, Christian Taylor saltou 18,04 metros, criando um momento histórico: a primeira vez que dois homens ultrapassavam os 18 metros na mesma prova. Posteriormente, em maio de 2015, em Havana, Pichardo estabeleceu o seu recorde pessoal de 18,08 metros. Apenas três atletas o superaram na história: os norte-americanos Kenny Harrison com 18,09 metros e Christian Taylor com 18,21 metros, e o britânico Jonathan Edwards com 18,29 metros.
Mas o caminho não foi linear. No início de 2016, uma microfratura no tornozelo o afastou das competições. Falhou o Campeonato Mundial de pista coberta e os médicos cubanos decidiram que não estava pronto para os Jogos Olímpicos do Rio. A decisão custou-lhe aceitar. Incompatibilidades com a federação cubana — incluindo a recusa em deixá-lo ser treinado pelo pai — levaram à sua suspensão.
Em abril de 2017, aos 23 anos, Pichardo desertou do estágio da seleção cubana em Estugarda e viajou para Portugal, onde se estabeleceu como refugiado. Uma semana depois, assinou contrato com o S.L. Benfica. Em dezembro desse ano, obteve a nacionalidade portuguesa após um processo de naturalização que durou apenas sete meses. "Quero agradecer ao Benfica e a Portugal este privilégio. Estou disponível e em boa forma física para dar o melhor pelo clube", declarou na altura. Segundo o perfil no site do Comité Olímpico de Portugal, aprecia o sol do Algarve por ser a região mais semelhante à sua terra natal e gosta da culinária portuguesa, embora não apreciasse o tradicional bacalhau. Se não tivesse seguido o atletismo, teria sido boxeador.
Em 2018, consolidou-se como referência europeia ao estabelecer o recorde nacional português com 17,95 metros no meeting de Doha da Diamond League, vencendo a prova. Meses depois, conquistou o título da Diamond League em Bruxelas. A sua primeira grande competição representando Portugal foi o Campeonato do Mundo de 2019 em Doha, no Qatar. Antes disso, na Diamond League 2019 em Londres, alcançou a melhor marca pessoal da época com 17,53 metros e conquistou ouro. Em 2020, após a paralisação causada pela pandemia de covid-19, demonstrou manter o seu nível ao vencer os Inspiration Games da IAAF e conquistar novamente o ouro na Diamond League 2020 com 17,40 metros. O triunfo em Torun consolida a sua posição como uma das maiores promessas mundiais do triplo salto.
Notable Quotes
Quero agradecer ao Benfica e a Portugal este privilégio. Estou disponível e em boa forma física para dar o melhor pelo clube.— Pedro Pichardo, dezembro de 2017
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que um atleta cubano de topo mundial decide simplesmente abandonar tudo e começar do zero noutro país?
Não foi exatamente do zero. Pichardo já tinha um recorde pessoal de 18,08 metros — era já um dos cinco melhores do mundo. Mas em Cuba, havia conflitos com a federação, recusas em deixá-lo treinar com o pai, suspensões. Portugal oferecia liberdade e uma estrutura através do Benfica.
Sete meses para obter nacionalidade portuguesa é extraordinariamente rápido. Havia algo especial no seu caso?
Provavelmente a combinação de ser um atleta de elite mundial e de Cuba estar num contexto político particular. Mas também Portugal viu nele uma oportunidade — um triplista que já tinha saltado 18 metros, algo que apenas cinco homens no mundo conseguiram fazer.
Ele tinha lesões graves antes de vir para Portugal?
Sim, uma microfratura no tornozelo em 2016 que o afastou dos Jogos Olímpicos. Mas quando chegou a Portugal, recuperou completamente. Em 2018 já era campeão da Diamond League.
O que o torna especial comparado com outros triplistas europeus?
O seu recorde pessoal de 18,08 metros coloca-o entre os dez melhores de todos os tempos. Quando chegou a Portugal, tinha sete saltos acima do recorde nacional português. Não era apenas um bom atleta — era um dos melhores do mundo.
E agora, com este ouro europeu em pista coberta, o que vem a seguir?
Consolida-se como referência europeia. Mas o seu objetivo real são os Jogos Olímpicos — algo que lhe foi negado em 2016 por decisão médica cubana. Agora representa Portugal e tem a oportunidade que lhe foi tirada.