Pandemia agrava desigualdade econômica crônica do Brasil

Milhões de trabalhadores informais (diaristas, ambulantes, feirantes) perderam renda e emprego, com mães solteiras como Maiara enfrentando desemprego total e dependência de doações.
Mais do que uma sociedade desigual, teremos uma sociedade desigual mais estagnada
Avaliação de economista sobre o futuro do Brasil após a pandemia e seus efeitos duradouros.

Os dados mostram impacto desproporcional: ricos praticamente imunes à crise, pobres enfrentam queda de 30% na renda familiar descontado o auxílio emergencial. O auxílio emergencial amorteceu temporariamente o impacto, mas seu término revelou a fragilidade dos ganhos dos mais pobres e a estagnação do mercado de trabalho informal.

  • Os 10% mais ricos perderam 3% da renda com a pandemia
  • Os 40% mais pobres perderam 30% da renda, descontado o auxílio emergencial
  • A imobiliária Boutique cresceu 42% em 2020, focada no nicho de elite
  • Trabalhadores informais como diaristas e ambulantes foram severamente impactados pelas restrições

A pandemia agravou drasticamente a desigualdade econômica brasileira: os 10% mais ricos perderam 3% da renda, enquanto os 40% mais pobres perderam 30%, criando uma recuperação em K que beneficia apenas os ricos.

Os números contam uma história de duas economias. Enquanto os 10% mais ricos do Brasil viram suas rendas caírem apenas 3% durante a pandemia, os 40% mais pobres enfrentaram uma queda de mais de 30% em seus ganhos do trabalho — uma vez descontado o auxílio emergencial do governo. A Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio capturou esse abismo em fevereiro de 2021, quando a crise ainda estava em curso e suas cicatrizes começavam a ficar visíveis.

A pandemia não criou a desigualdade brasileira, mas a empurrou para um novo patamar. André Salata, sociólogo da PUC-RS, descreveu o cenário como o pior possível: não apenas as pessoas estavam perdendo renda do trabalho, mas essa renda estava se distribuindo de forma ainda mais desigual. Nas regiões metropolitanas, a tendência de crescimento da desigualdade que vinha desde 2015 foi acelerada pela crise sanitária. O vírus, em outras palavras, não foi democrático — seus efeitos econômicos seguiram as linhas de classe que já dividiam o país.

Em São Paulo, as diferenças tinham endereço físico. Enquanto as famílias vulneráveis nas vielas estreitas ficavam presas sem saída, o valor do metro quadrado nas áreas nobres subia como efeito colateral da quarentena. A imobiliária Boutique, focada no nicho de elite, cresceu 42% em 2020 — um crescimento que surpreendeu até seus sócios. Rafael Guaraná Menezes brincava que faltava produto, não cliente. Do outro lado da cidade, a realidade era inversa.

O auxílio emergencial do governo havia funcionado como amortecedor temporário. Enquanto o dinheiro chegava, a desigualdade até diminuía nos números. Mas quando os pesquisadores removiam esse auxílio da conta, o quadro se invertia: uma queda drástica para os mais pobres, praticamente nenhuma mudança para os mais ricos. Maiara Santana, mãe solteira que trabalhava como diarista e vendedora ambulante, perdeu ambas as fontes de renda. Com o fim do auxílio emergencial, restava-lhe apenas as doações. "Eu não quero viver de doação, eu sou jovem, saudável, eu quero um emprego", disse ela, descrevendo a frustração de quem tinha capacidade de trabalhar mas nenhum mercado disposto a recebê-la.

Os economistas chamavam esse padrão de recuperação em K — a letra que desenha uma queda seguida de dois caminhos divergentes. Um para cima, outro para baixo. Ricos cada vez mais ricos, pobres descendo ainda mais na arquitetura social. Gabriela Chaves, economista da NuFront, apontava que ambulantes, diaristas, lojistas e feirantes foram severamente impactados pelas restrições de circulação. Mesmo com o auxílio emergencial, quando ele terminou, as consequências da crise econômica ressurgiram com força.

Marcelo Neri, diretor da FGV Social, alertava para algo mais duradouro: o efeito cicatriz. A pandemia não era apenas um problema do presente — deixaria marcas na educação, no trabalho dos jovens, em toda uma geração de estudantes que passaria pelos próximos anos carregando as consequências dessa ruptura. André Salata resumiu a perspectiva dos economistas com uma frase sombria: "Mais do que uma sociedade desigual, teremos uma sociedade desigual mais estagnada." O bem-estar seria afetado de várias formas, e o futuro apontava para um aprofundamento do abismo que a pandemia havia exposto.

Você tem uma piora da renda do trabalho e um aumento da desigualdade da renda do trabalho. O pior cenário que você pode ter.
— André Salata, sociólogo da PUC-RS
Eu não quero viver de doação, eu sou jovem, saudável, eu quero um emprego! Quero ter uma renda no final do mês para a minha geladeira vai ter algum alimento.
— Maiara Santana, vendedora ambulante e mãe solteira
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que a pandemia afetou tão diferentemente os ricos e os pobres?

Model

Porque quem tem renda de investimentos, trabalho remoto ou negócios que funcionam online sofreu menos. Quem depende de trabalho presencial — diarista, ambulante, feirante — perdeu tudo de uma vez.

Inventor

O auxílio emergencial não resolveu?

Model

Resolveu temporariamente. Enquanto chegava, até parecia que a desigualdade diminuía. Mas era ilusão. Tirava o auxílio da conta, e a queda dos pobres era brutal.

Inventor

E agora que o auxílio acabou?

Model

Agora a gente vê o que realmente aconteceu. O mercado de trabalho informal não se recuperou. As pessoas que perderam renda não conseguem voltar ao que tinham antes.

Inventor

Isso vai passar?

Model

Não. Os economistas falam em efeito cicatriz. Uma geração inteira de jovens vai carregar as consequências disso — menos educação, menos oportunidade de trabalho, menos renda no futuro.

Inventor

Então a desigualdade vai piorar?

Model

Vai. Porque os ricos continuam ganhando, e os pobres continuam caindo. Não é só desigualdade — é desigualdade com estagnação. O pior cenário possível.

Quieres la nota completa? Lee el original en G1 ↗
Contáctanos FAQ