Palestina convoca eleições legislativas após 20 anos de hiato político

Abbas governou por decretos, contornando a necessidade de legitimação legislativa
Reflexo de como a Autoridade Palestina operou por mais de uma década sem processos democráticos.

Após quase vinte anos de silêncio parlamentar, Mahmoud Abbas assinou um decreto convocando eleições legislativas palestinas para 28 de novembro — um gesto que responde às pressões internacionais por reformas, mas que carrega o peso de um histórico de promessas adiadas e instituições esvaziadas. Desde 2007, o Conselho Legislativo Palestino não se reúne, e Abbas governa por decretos com um mandato presidencial tecnicamente expirado desde 2009. A convocação sinaliza uma tentativa de renovação democrática, mas o caminho entre o decreto e urnas verdadeiramente livres permanece incerto.

  • Abbas, aos 90 anos e com legitimidade democrática contestada há mais de uma década, assinou o decreto que pode ser o ato político mais significativo de seus últimos anos no poder.
  • O Conselho Legislativo Palestino está paralisado desde 2007, e a ausência de eleições transformou a Autoridade Palestina em um governo de decretos — alvo de críticas internas e externas por corrupção e déficit democrático.
  • Doadores internacionais condicionaram apoio financeiro e diplomático a reformas concretas, tornando a convocação eleitoral menos uma escolha e mais uma exigência de sobrevivência institucional.
  • Em 2021, Abbas já havia anunciado eleições que foram adiadas indefinidamente, criando um precedente de desconfiança que paira sobre o decreto atual.
  • O papel do Hamas — vencedor das últimas eleições legislativas em 2006 e controlador de Gaza — e as garantias de votação em Jerusalém Oriental permanecem as maiores incógnitas para novembro.

Mahmoud Abbas assinou na quinta-feira um decreto convocando eleições legislativas palestinas para 28 de novembro, as primeiras em quase duas décadas. O ato marca um momento singular para a Autoridade Palestina, que vive há anos sob críticas de esvaziamento democrático: o Conselho Legislativo não se reúne desde 2007, e Abbas governa por decretos presidenciais com um mandato que teoricamente expirou em 2009.

A última eleição legislativa palestina, em 2006, resultou em uma vitória esmagadora do Hamas sobre o Fatah de Abbas — um resultado que fraturou a política palestina e paralisou o parlamento. Desde então, a Autoridade Palestina acumulou críticas por corrupção e ineficácia, enquanto a comunidade internacional passou a condicionar seu apoio financeiro a reformas institucionais concretas. Essa pressão externa é o contexto direto do decreto.

Não é a primeira vez que Abbas anuncia eleições. Em 2021, convocou tanto eleições legislativas quanto presidenciais, mas ambas foram adiadas com a justificativa de falta de garantias para a votação em Jerusalém Oriental — território ocupado por Israel desde 1967. O histórico de adiamentos alimenta o ceticismo sobre o que acontecerá em novembro.

Em abril deste ano, os palestinos elegeram autoridades locais na Cisjordânia pela primeira vez desde o início da guerra de Gaza, em outubro de 2023. A convocação legislativa agora amplia esse movimento de retomada democrática — mas o caminho até eleições verdadeiramente inclusivas, com participação do Hamas e garantias em todos os territórios, permanece repleto de obstáculos.

Mahmoud Abbas, aos 90 anos, assinou um decreto na quinta-feira que convoca os palestinos às urnas em 28 de novembro para eleger membros do Conselho Legislativo Palestino. Será a primeira vez em quase duas décadas que o território realiza eleições legislativas — um marco que reflete tanto a pressão internacional quanto a fragilidade institucional que caracteriza a Autoridade Palestina.

A última vez que palestinos votaram para o Legislativo foi no início de 2006, quando o Hamas conquistou uma vitória esmagadora contra o Fatah, o partido de Abbas que até então dominava a política palestina. Aquela eleição marcou um ponto de inflexão. O Conselho Legislativo Palestino, que funciona como o parlamento da Autoridade Palestina, não se reúne desde 2007. Por mais de uma década e meia, Abbas governou por decretos presidenciais, contornando a necessidade de legitimação legislativa.

O próprio Abbas é uma figura de legitimidade questionável. Ele venceu a eleição presidencial em 2005 com um mandato de quatro anos — que teoricamente expiraria em 2009. Mas seu mandato foi estendido indefinidamente, e nenhuma eleição presidencial ocorreu desde então. Críticos internos e externos apontam essa continuidade no poder sem renovação eleitoral como sintoma de um sistema político esvaziado.

A convocação de agora não surge do vácuo. A comunidade internacional, que fornece apoio financeiro crucial à Autoridade Palestina, tem exigido reformas institucionais como condição para manter esse suporte. Muitos doadores condicionaram sua ajuda diplomática e financeira a mudanças concretas na governança palestina. Essa pressão externa é o pano de fundo direto para o decreto de Abbas.

Não é a primeira vez que Abbas anuncia eleições. Em 2021, ele convocou tanto eleições legislativas quanto presidenciais, marcadas para maio e julho daquele ano. Ambas foram adiadas indefinidamente. O motivo alegado foi a falta de garantias de que a votação pudesse ocorrer em Jerusalém Oriental, a região de maioria árabe ocupada por Israel desde 1967 — uma questão que toca no cerne do conflito israelo-palestino e nas limitações práticas do exercício democrático em territórios ocupados.

Em abril deste ano, os palestinos tiveram a oportunidade de votar pela primeira vez desde o início da guerra de Gaza em outubro de 2023. Naquela ocasião, elegeram autoridades locais na Cisjordânia ocupada. Agora, com a convocação de eleições legislativas para novembro, a Autoridade Palestina sinaliza uma tentativa de restaurar processos democráticos mais amplos — ainda que sob circunstâncias políticas complexas e com histórico de adiamentos.

O que acontecerá em novembro permanece incerto. A Autoridade Palestina enfrenta críticas generalizadas por corrupção e ineficácia administrativa. O Hamas, que venceu em 2006 e controla a Faixa de Gaza, é uma incógnita nas próximas eleições. E as garantias de que a votação ocorrerá de forma livre e aberta em todos os territórios palestinos — incluindo Jerusalém Oriental — continuam indefinidas. O decreto de Abbas é um passo, mas o caminho até eleições realmente inclusivas e legítimas permanece repleto de obstáculos.

O decreto presidencial convoca o povo palestino em Jerusalém, Cisjordânia e Faixa de Gaza a participar de eleições legislativas livres e diretas
— Agência oficial de notícias Wafa, citando o texto do decreto
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que Abbas esperou tanto para convocar essas eleições? Vinte anos é um tempo extraordinário.

Model

Porque ele não precisava. Sem pressão externa real, sem consequências financeiras, um líder pode simplesmente governar por decreto. Abbas fez isso por mais de uma década.

Inventor

Mas a comunidade internacional sempre soube disso. O que mudou?

Model

Os doadores ficaram cansados. Começaram a condicionar o dinheiro a reformas reais. Quando o financiamento está em jogo, as coisas mudam.

Inventor

E o Hamas? Ele vai participar dessas eleições?

Model

Ninguém sabe. Hamas venceu em 2006 e depois tudo desabou. Agora controla Gaza, Abbas controla a Cisjordânia. São realidades separadas.

Inventor

Então essa eleição pode não resolver nada?

Model

Pode resolver legitimidade. Ou pode criar mais divisão. Tudo depende de quem vota, onde vota, e se o resultado é respeitado.

Inventor

E se Abbas perder?

Model

Essa é a pergunta que ninguém quer fazer em voz alta.

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