Padrão de magreza extrema volta com força e afeta saúde mental de mulheres

Mulheres e adolescentes desenvolvem transtornos alimentares, depressão, ansiedade e problemas de saúde física (cansaço, queda de cabelo, distúrbios menstruais, sarcopenia) ao tentar alcançar padrão de magreza extrema.
A mulher está carregando um peso que não é dela, é da cultura
Psicóloga explica como a pressão por magreza extrema adoece mulheres ao internalizar padrões inatingíveis.

No tapete vermelho e nas passarelas, o corpo feminino volta a ser moldado por um ideal de magreza extrema que ressurge com nova força — alimentado por medicamentos emagrecedores, algoritmos e uma indústria que lucra com a insatisfação. O que parece uma tendência estética é, na verdade, uma pressão histórica e estrutural sobre as mulheres, cujo valor social foi ensinado a depender da aparência. O custo humano é mensurável: transtornos alimentares, adoecimento precoce e uma geração de adolescentes que aprende, cedo demais, a se ver como insuficiente.

  • O 'heroin chic' dos anos 1990 retornou ao Oscar e às passarelas com força renovada, agora acelerado pelo Ozempic e pela comparação infinita das redes sociais.
  • 97,6% dos looks da temporada outono/inverno 2026 usam tamanhos equivalentes ao 34-38 brasileiro, tornando o padrão dominante quase universalmente excludente.
  • 36,1% das adolescentes brasileiras declaram insatisfação com o próprio corpo — o dobro dos meninos —, e o adoecimento por transtornos alimentares começa cada vez mais cedo, na pré-adolescência.
  • Especialistas alertam que dietas iniciadas sem orientação médica e o uso indevido de medicamentos emagrecedores provocam sarcopenia, distúrbios menstruais, depressão e ansiedade.
  • A resposta possível, segundo psicólogas, está na compreensão de que a beleza é uma construção política e histórica — e que desconstruí-la é o primeiro passo para reduzir o sofrimento.

No tapete vermelho do Oscar deste ano, as clavículas salientes e os braços finos das atrizes roubaram a cena tanto quanto os filmes. O corpo extremamente magro voltou a ser sinônimo de beleza e sucesso — não por acaso, mas como resultado de uma combinação de fatores políticos, tecnológicos e comerciais. Pesquisadores chamam o fenômeno de 'Hollyweird': a estranheza gera discussão, e a discussão é exatamente o que a indústria quer. Os padrões são quase sempre inatingíveis, e quem os alcança exibe um atestado de recursos que poucos têm.

Nas passarelas, a exclusão é ainda mais explícita. Segundo relatório da Vogue Business, 97,6% dos looks da temporada outono/inverno 2026 usavam tamanhos equivalentes ao 34-38 brasileiro. A ascensão do Ozempic e similares acelerou essa tendência, medicalizando a relação com o corpo. Em paralelo, o movimento 'body positive' perdeu força — absorvido pelo marketing sem transformações reais.

As mulheres pagam o preço mais alto. Historicamente mais vigiadas e avaliadas pela aparência, elas são submetidas a estímulos que promovem padrões irreais em todos os ambientes — do shopping às redes sociais. Uma pesquisa do IBGE com 12,3 milhões de estudantes revelou que 36,1% das adolescentes brasileiras estão insatisfeitas com o próprio corpo, o dobro dos meninos. Psiquiatras do Hospital das Clínicas relatam aumento de casos de anorexia extrema e adoecimento cada vez mais precoce, já na pré-adolescência.

Os danos físicos são concretos: cansaço, queda de cabelo, distúrbios menstruais, sarcopenia e deficiências vitamínicas. Na adolescência, o emagrecimento excessivo pode comprometer hormônios e função reprodutiva. Transtornos alimentares arrastam consigo depressão e ansiedade, e o gatilho mais comum é simples: o início de uma dieta.

Há, porém, uma saída. Quando a mulher consegue reconhecer que a beleza não é um fato biológico, mas uma construção social moldada por mercado, mídia e tecnologia, o efeito da comparação diminui. A mulher está carregando um peso que não é dela — é da cultura. E construções, lembram as especialistas, podem ser desconstruídas.

No tapete vermelho do Oscar deste ano, o que chamou tanta atenção quanto os filmes indicados foram as clavículas salientes e os braços finos das atrizes que desfilaram. Esse corpo extremamente magro, quase esquelético, virou sinônimo de beleza e sucesso — e não é um acaso. Estamos vivendo o retorno de um padrão que já conhecemos dos anos 1990 e 2000, aquele "heroin chic" que nunca realmente desapareceu, apenas dormiu. Agora acordou mais forte, alimentado por uma combinação de fatores políticos, tecnológicos e comerciais que tornaram mais fácil e rápido do que nunca alcançar esse ideal inatingível.

Rodrigo Sanches, publicitário e doutor em psicologia pela USP que pesquisa a imagem feminina na mídia, explica que a associação entre magreza e beleza não é nova. O que mudou é que esse corpo foi sendo progressivamente emagrecido ao longo das décadas, e agora as pessoas descobriram que existem recursos rápidos para chegar lá. A indústria da dieta, beleza e boa forma — como ele a chama — está empenhada em promover não apenas dietas, mas também procedimentos estéticos e cirúrgicos. Esse fenômeno ganhou até um nome entre os críticos: "Hollyweird", a junção de Hollywood com "weird", o estranho. E a estranheza gera discussão, o que é exatamente o que a indústria quer. Os padrões são quase sempre inatingíveis; quanto mais magro, mais difícil de alcançar, e quem consegue chega lá com um atestado de sucesso que separa os que têm recursos dos que não têm.

Nas passarelas, a situação é ainda mais extrema. De acordo com um relatório de inclusividade de tamanhos da Vogue Business, 97,6% dos 7.817 looks apresentados em 182 desfiles da temporada outono/inverno 2026 usavam tamanhos 0 a 4 nos Estados Unidos — equivalentes aos tamanhos 34 a 38 no Brasil. A situação ficou tão grave que marcas como Zara e Marks & Spencer foram proibidas de veicular anúncios com modelos muito magras. Vanessa Hikichi, especialista em tendências da consultoria WGSN, aponta que a ascensão do Ozempic e medicamentos similares está transformando nossa relação com a imagem corporal. A indústria da moda reflete essa tendência em resposta ao desejo do consumidor por padrões mais medicalizados. Em contraste, o movimento "body positive", que celebrava corpos diversos, perdeu força — absorvido pelo mainstream e esvaziado por estratégias de marketing sem mudanças estruturais profundas.

Mariana Kehl, psicóloga clínica e professora de psicologia da PUC-SP, ressalta que as mulheres são particularmente afetadas por um contexto histórico específico. O corpo feminino é historicamente mais vigiado, avaliado e moralizado. As mulheres aprendem cedo que a aparência não é apenas uma dimensão da vida, mas uma espécie de critério de valor social. Toda vez que a cultura estreita demais essa definição de beleza, ela amplia o sofrimento. Essa pressão é difusa, repetitiva e muito bem embalada. As mulheres são submetidas a estímulos que promovem padrões irreais constantemente — no shopping, na publicidade, no cinema, na TV e, amplificado pelas redes sociais, na comparação infinita com outras pessoas. Automaticamente, a mulher quer ser magra. A partir do momento em que não está de acordo com um padrão que valoriza a magreza, ela se torna uma pessoa frustrada.

Os números revelam o custo humano dessa pressão. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar do IBGE, realizada em 2024 com 12,3 milhões de estudantes de 13 a 17 anos das redes pública e privada, 36,1% das adolescentes brasileiras se declararam insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a própria imagem — o dobro dos meninos. Dessas meninas, 31,7% afirmam tentar emagrecer. Ana Clara Floresi, psiquiatra colaboradora do Ambulim, programa de transtornos alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, relata que a principal demanda de atendimento é de anorexia extrema. Ela também observa um movimento de adoecimento mais precoce, que surge na pré-adolescência. Karen de Marca, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, alerta para os riscos do uso de medicamentos emagrecedores por pessoas que não preenchem os critérios do tratamento ou sem orientação médica. Ela observa, em meio à onda de magreza, mais pacientes adquirindo distúrbios alimentares.

Os problemas de saúde são concretos e graves. Um corpo extremamente magro pode apresentar cansaço, queda de cabelo, náusea, distúrbios menstruais, alterações de sono e deficiência vitamínica. Algumas pessoas desenvolvem sarcopenia, a perda de massa e força muscular. Na adolescência, o emagrecimento excessivo pode impactar hormônios e função reprodutiva, causando ausência de menstruação e hipogonadismo. Transtornos alimentares causam depressão e ansiedade, reduzindo drasticamente a qualidade de vida. Floresi ressalta que transtornos alimentares são causados por uma junção de fatores e podem acometer qualquer pessoa, mas mulheres e adolescentes têm risco maior. O início de uma dieta costuma ser o gatilho. Emagrecer não é indicado para todo mundo e não é para ser feito por conta própria, com base no que uma influenciadora sugeriu.

Kehl oferece uma perspectiva importante: a exposição repetida a corpos inatingíveis altera a forma como a mulher se enxerga e provoca insatisfação com o próprio corpo, piorando o humor e a autoestima. A mulher está carregando um peso que não é dela, é da cultura. A internalização do ideal da magreza vira um problema quando a mulher passa a organizar a vida em torno do peso e da aparência. Mas há esperança: quando ela consegue olhar para essa imagem e entender que se trata de uma construção — política, econômica e histórica — o efeito da comparação diminui. Beleza não é um fato biológico. É uma construção social, moldada por uma combinação de mercado, mídia e tecnologia. E construções podem ser desconstruídas.

Toda vez que a cultura estreita demais essa definição de beleza, ela amplia o sofrimento. Essa pressão cultural é difusa, repetitiva e muito bem embalada.
— Mariana Kehl, psicóloga clínica e professora de psicologia da PUC-SP
Emagrecer não é indicado para todo mundo e não é para ser feito por conta própria, com base no que a influenciadora sugeriu.
— Ana Clara Floresi, psiquiatra colaboradora do Ambulim
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que exatamente agora esse padrão de magreza extrema voltou com tanta força?

Model

Porque convergiram três coisas: conservadorismo crescente, medicamentos como o Ozempic que tornaram o padrão mais alcançável, e uma indústria inteira que lucra com a insatisfação das mulheres. Não é coincidência.

Inventor

Mas as mulheres não escolhem livremente o que acham bonito?

Model

Escolhem, mas dentro de um leque muito estreito que a cultura oferece. E quando a cultura estreita demais, o sofrimento aumenta. A pressão é tão difusa, tão repetitiva, que parece natural.

Inventor

O que diferencia isso dos padrões de beleza de outras épocas?

Model

A velocidade e a medicamentalização. Antes, era difícil alcançar o padrão. Agora é rápido. E isso muda tudo — torna o padrão mais sedutor e mais perigoso ao mesmo tempo.

Inventor

As adolescentes estão realmente adoecendo mais?

Model

Sim. Há um movimento de adoecimento mais precoce, começando na pré-adolescência. Transtornos alimentares extremos estão aumentando. E 36% das meninas brasileiras se declaram insatisfeitas com o próprio corpo.

Inventor

O movimento body positive não conseguiu frear isso?

Model

Foi absorvido pelo marketing. Virou apenas mais uma estratégia de venda, sem mudanças estruturais reais. A indústria é muito mais poderosa que qualquer movimento de resistência.

Inventor

Então o que muda?

Model

Quando a mulher consegue ver que beleza é uma construção — política, econômica, histórica — e não um fato biológico. Aí o efeito da comparação diminui. Mas isso exige consciência crítica, e a cultura não está oferecendo isso.

Contáctanos FAQ