O regulador passaria a ter interesse financeiro no desempenho do ente regulado
Em um momento em que a confiança dos americanos na inteligência artificial despencou para 32%, a OpenAI ofereceu ao governo dos Estados Unidos uma participação de 5% na empresa — um gesto que, mais do que generosidade, revela a urgência de legitimar socialmente uma tecnologia que prometeu transformar o mundo mas acumulou desconfiança pelo caminho. A proposta, que ecoa iniciativas como a do senador Bernie Sanders de criar um fundo soberano de IA, levanta questões antigas sobre quem controla, quem regula e quem, de fato, colhe os frutos das revoluções tecnológicas.
- A confiança dos americanos na IA caiu para apenas 32%, criando pressão política suficiente para ameaçar a agenda tecnológica dos aliados de Trump nas eleições de meio de mandato.
- A OpenAI oferece 5% de si mesma ao governo americano — não por altruísmo, mas para reescrever uma narrativa que associou a IA à destruição de empregos e à concentração de poder.
- O Estado já interfere nos lançamentos de modelos, tendo pedido à OpenAI e à Anthropic que segurassem suas tecnologias mais avançadas — torná-lo sócio cria um conflito de interesse regulatório sem precedentes.
- A simbiose entre Casa Branca e big techs consolida a hegemonia americana sobre a infraestrutura cognitiva global, enquanto países como o Brasil, que alimentam esses sistemas com dados e dinheiro, ficam completamente de fora da partilha.
A OpenAI anunciou esta semana uma proposta que surpreendeu o mundo: entregar ao governo dos Estados Unidos uma fatia de 5% da empresa. À primeira vista parece generosidade corporativa, mas o timing revela outra coisa. Depois de anos prometendo uma revolução tecnológica, as grandes empresas de IA chegam agora dispostas a dividir o bolo — e a pergunta inevitável é por quê.
A resposta está nos números. Uma pesquisa da Edelman mostrou que apenas 32% dos americanos confiam na IA, contra 87% dos chineses e 67% dos brasileiros. Esse desgaste pode virar combustível eleitoral nas eleições de meio de mandato, pressionando os aliados de Trump. É hora de reorganizar a narrativa.
A proposta de Sam Altman dialoga, curiosamente, com um projeto do senador Bernie Sanders, que quer transferir metade das ações das grandes empresas de IA para um fundo soberano que pagaria mil dólares anuais a cada cidadão americano. As diferenças são imensas, mas o diagnóstico é o mesmo: a sociedade precisa acreditar que também ganhará algo com essa tecnologia.
Há, porém, uma contradição difícil de ignorar. O próprio governo já pediu à OpenAI que adiasse lançamentos e pressionou a Anthropic a suspender modelos avançados. Se o Estado virar sócio dessas empresas, o regulador passará a ter interesse financeiro direto naquilo que deveria regular — um conflito de interesse que não desaparece por falta de debate.
O que está em jogo, no fundo, é a hegemonia americana sobre a tecnologia mais estratégica do século. Ao integrar as big techs à estratégia nacional, a Casa Branca ganha controle sobre capital, infraestrutura e acesso global a sistemas capazes de influenciar até como as pessoas pensam.
O Brasil fica de fora dessa conversa. O brasileiro que usa o ChatGPT diariamente, alimenta esses modelos com seus dados e paga a assinatura em dólar não verá nenhum dividendo. A conta de depender de uma tecnologia que não controlamos pode sair muito mais cara do que parece.
A OpenAI fez uma proposta que ecoou pelo mundo esta semana: entregar ao governo dos Estados Unidos uma fatia de 5% da empresa. À primeira vista, pode parecer um gesto de generosidade corporativa — a gigante da inteligência artificial abrindo as portas para que o Estado participe de seus ganhos. Mas o timing é tudo em política e negócios, e o momento dessa oferta revela muito mais do que uma simples mudança de coração.
Por anos, as grandes empresas de tecnologia empurraram a IA para dentro de cada aspecto da vida moderna, prometendo reorganizar o trabalho, aumentar a produtividade, resolver problemas que pareciam intratáveis. Agora, quando essa mesma tecnologia deveria estar transformando tudo, essas empresas aparecem dispostas a dividir o bolo com a sociedade. A pergunta óbvia é: por quê? Ninguém abre mão de uma fatia tão relevante sem um motivo muito bom.
Parte da resposta está em como os americanos estão vendo a IA agora. A confiança caiu dramaticamente. Uma pesquisa da Edelman mostrou que apenas 32% dos americanos confiam na tecnologia — um contraste brutal com 87% dos chineses e 67% dos brasileiros. Esse desgaste é tão profundo que pode virar tema nas eleições de meio de mandato, pressionando a agenda de IA dos aliados de Donald Trump. Depois de anos de promessas sobre uma revolução que quase destruiria o mercado de trabalho, é hora de reorganizar a narrativa.
A proposta de Sam Altman dialoga, curiosamente, com um projeto apresentado em junho pelo senador democrata Bernie Sanders. Sanders quer transferir metade das ações das grandes empresas de IA para um fundo soberano que pagaria mil dólares por ano a cada cidadão americano. As diferenças são enormes, mas o diagnóstico é o mesmo: convencer a sociedade que ela também ganhará algo com a IA. É uma tentativa de compartilhar os ganhos, de fazer a tecnologia parecer menos como um instrumento de concentração de poder e mais como um bem comum.
Mas há uma contradição profunda aqui. Nas últimas semanas, o próprio governo pediu à OpenAI que adiasse o lançamento do GPT-5.6 e pressionou a Anthropic a suspender seus modelos mais avançados. O Estado já interfere, na prática, em quais tecnologias chegam ao público. Agora imagine esse mesmo Estado virando sócio dessas empresas. O regulador passaria a ter interesse financeiro direto no desempenho da entidade que deveria estar regulando. É um conflito de interesse que não desaparece só porque ninguém quer falar sobre ele.
O que está realmente em jogo é a hegemonia americana em uma área que se tornou estratégica demais para ficar apenas nas mãos do mercado. Ao transformar as big techs em parte da estratégia nacional, a Casa Branca ganha mais controle sobre capital, infraestrutura, lançamento de modelos e acesso internacional a uma infraestrutura cognitiva capaz de influenciar até como pensamos. É uma simbiose entre Estado e empresas que consolida o poder americano sobre a tecnologia mais importante do século.
E o Brasil? Fica de fora. Todo esse debate sobre repartir a riqueza da IA é uma conversa entre americanos. O brasileiro que usa ChatGPT todo dia, alimenta esses modelos com seus dados e paga a assinatura em dólar não verá a cor de nenhum dividendo futuro. Não teremos nem o cheque de consolo. A conta de termos aceitado depender de uma tecnologia que não controlamos pode sair muito cara.
Notable Quotes
A tecnologia mais poderosa da época não está sendo desenvolvida pelos Estados, mas por empresas guiadas pelo capital privado— Ben Buchanan, conselheiro de IA da Casa Branca durante administração Biden
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que você acha que a OpenAI está fazendo isso agora, especificamente?
Porque a confiança na IA nos EUA desabou. Apenas 32% dos americanos confiam na tecnologia. Quando você tem um problema de legitimação desse tamanho, você precisa fazer algo visível.
Mas 5% é muito dinheiro. Eles realmente vão abrir mão disso?
Eles abrem mão de 5% para manter controle de 95%. E mais importante: para manter o governo do lado deles, não contra eles.
Qual é o problema real com o governo virando sócio?
O regulador passa a ter interesse financeiro no sucesso da empresa que deveria estar regulando. É um conflito de interesse que não some.
Então é só sobre os EUA consolidarem poder?
Sim. Ao fazer isso, eles garantem que a tecnologia mais poderosa do século fica sob controle americano, não apenas de mercado, mas de Estado também.
E o resto do mundo?
Fica de fora. O Brasil usa a tecnologia, alimenta os modelos com dados, paga em dólar, mas não participa dos ganhos. A conta pode ser muito alta.