OMS: câncer afetará 92% da população mundial nos próximos anos

O câncer causará impacto devastador em bilhões de pessoas globalmente, com disparidades extremas de sobrevivência entre países ricos e pobres, refletindo injustiça profunda no acesso à saúde.
O câncer é uma crise global em evolução, distribuída de forma profundamente injusta
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, sobre a desigualdade no acesso ao tratamento oncológico entre países ricos e pobres.

92% da população mundial será impactada pelo câncer, seja por diagnóstico pessoal ou convivência com pacientes oncológicos nos próximos anos. Desigualdade no acesso ao tratamento é crítica: taxa de sobrevivência de câncer de mama supera 85% em países ricos, mas fica abaixo de 30% em países pobres.

  • 92% da população mundial será impactada pelo câncer nos próximos anos
  • Diagnósticos projetados para dobrar de 20,6 milhões (2024) para 35 milhões (2050)
  • Taxa de sobrevivência de câncer de mama: 85% em países ricos, abaixo de 30% em países pobres
  • Cada dólar investido em prevenção retorna US$ 9,50 aos sistemas de saúde
  • Prevalência de tabagismo caiu de 29,4% (2005) para 19,5% (2024) globalmente

A Organização Mundial da Saúde alerta que o câncer se tornará uma experiência praticamente universal, afetando 92% das pessoas nos próximos anos, com diagnósticos projetados para dobrar até 2050.

A Organização Mundial da Saúde divulgou um levantamento que redefine a escala do problema do câncer: nos próximos anos, a doença deixará de ser uma tragédia isolada para se tornar uma experiência praticamente universal. Segundo a OMS, 92% das pessoas no planeta serão tocadas pelo câncer — seja recebendo um diagnóstico pessoal, seja convivendo diariamente com alguém em tratamento oncológico. Uma em cada cinco pessoas receberá esse diagnóstico. O relatório, lançado globalmente, projeta que os casos de câncer praticamente dobrarão até 2050, saltando de 20,6 milhões em 2024 para 35 milhões daqui a duas décadas e meia. É um crescimento de 70%.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, reconhece que algumas intervenções funcionam. Programas de vacinação contra o HPV e campanhas de controle do tabaco têm reduzido a incidência em certas populações. Mas ele insiste em chamar o câncer de "crise global em evolução" — uma crise que avança lentamente, mas com devastação profunda. O que mais preocupa Tedros é a injustiça embutida nessa crise. O progresso contra o câncer não é distribuído igualmente entre países ricos e pobres, nem mesmo dentro deles.

Os números revelam essa desigualdade de forma brutal. A taxa de sobrevivência em cinco anos para câncer de mama ultrapassa 85% em países de alta renda. Nos países de baixa renda, cai abaixo de 30%. A razão é simples e estrutural: menos de um em cada três países inclui tratamentos oncológicos em seus pacotes de cobertura de saúde pública. Significa que a maioria das pessoas no mundo não tem acesso garantido aos cuidados de que precisam. O acesso à saúde adequada é o gargalo que mata.

Mas o relatório também traz uma lógica econômica que deveria convencer governos a investir. Cada dólar gasto em prevenção e controle do câncer retorna 9,50 dólares aos sistemas de saúde. O impacto econômico do câncer entre 2020 e 2050 será próximo a 0,55% do produto interno bruto global — uma cifra que reflete principalmente as mortes prematuras e a incapacitação causada pela doença. Investir em prevenção não é apenas humanitário; é economicamente racional.

Quase 40% dos novos casos de câncer são preveníveis. O tabaco, as infecções, o álcool e a obesidade são os principais culpados. O tabaco sozinho está ligado a diversos tipos: pulmão, laringe, faringe, esôfago. Aqui há uma boa notícia. A prevalência global de fumo está caindo. Em 2005, 29,4% das pessoas com 15 anos ou mais fumavam (45% dos homens, 13% das mulheres). Em 2024, esse número caiu para 19,5% (32,5% dos homens, 6,6% das mulheres). A tendência continua diminuindo em todas as regiões.

Fernando Maluf, oncologista e diretor médico associado do Centro de Oncologia da BP em São Paulo, explica que o aumento de casos é bem documentado e vem se acelerando. A cada década, há entre 10% e 20% de aumento, dependendo da região e do tipo de tumor. As razões são duas. Primeiro, as pessoas vivem mais. O câncer é uma doença de maior prevalência a partir dos 50 e 60 anos, então uma população envelhecida significa mais casos. Segundo, o estilo de vida. A obesidade crescente, as dietas inadequadas, a poluição e as infecções criam um ambiente cada vez mais propício ao câncer.

O que emerge desse levantamento é um quadro de duas velocidades. De um lado, há ferramentas que funcionam: vacinação, controle do tabaco, hábitos saudáveis. De outro, há uma realidade de acesso profundamente desigual que transforma essas ferramentas em privilégio de quem tem renda. O câncer não é apenas uma doença biológica; é um espelho das injustiças do mundo.

O câncer é uma crise global em evolução. Em todos os tipos de câncer e em todas as etapas da linha de cuidado oncológico, o progresso continua sendo distribuído de forma desigual e profundamente injusta, tanto entre os países quanto dentro deles.
— Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS
A cada década, há de 10% a 20% de aumento de casos, dependendo da região e do tumor. As razões são principalmente duas: o aumento da expectativa de vida da população e o estilo de vida, que impacta de forma muito importante.
— Fernando Maluf, oncologista e diretor médico do Centro de Oncologia da BP
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que a OMS escolheu esse número específico — 92%? Parece alarmante demais para ser verdade.

Model

Não é alarmante porque seja falso. É porque inclui não apenas quem recebe diagnóstico, mas quem convive com alguém em tratamento. Pai, mãe, filho, irmão. A maioria das pessoas conhece alguém. Quando você soma diagnóstico pessoal com convivência próxima, chega perto de 92%.

Inventor

Mas se 92% serão afetados, e apenas uma em cada cinco receberá diagnóstico, o que muda entre agora e 2050?

Model

O volume absoluto. Hoje são 20,6 milhões de casos por ano. Em 2050 serão 35 milhões. Mais gente diagnosticada significa mais famílias afetadas, mais sistemas de saúde sobrecarregados, mais pessoas morrendo sem acesso a tratamento.

Inventor

A OMS menciona que alguns países têm 85% de sobrevivência em câncer de mama, outros têm 30%. Como isso é possível?

Model

Acesso. Um país rico tem mamógrafos, oncologistas, medicamentos, cirurgiões. Um país pobre não. A mesma doença, o mesmo corpo, mas destinos completamente diferentes dependendo de onde você nasceu.

Inventor

O relatório diz que 40% dos casos são preveníveis. Por que não focamos só em prevenção?

Model

Porque prevenção é lenta e exige mudança de comportamento em massa. Parar de fumar, emagrecer, mudar dieta — isso leva décadas. Enquanto isso, as pessoas que já têm câncer precisam de tratamento agora. Prevenção é importante, mas não resolve a crise imediata.

Inventor

Cada dólar investido retorna 9,50. Por que os governos não investem mais?

Model

Porque o retorno é econômico, não político. Um governo que investe em câncer não vê resultado em um mandato. Vê em dez anos. E a política funciona em ciclos curtos. É mais fácil cortar gastos com saúde do que explicar por que você está gastando bilhões em prevenção de uma doença que ainda não matou seu eleitor.

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