Tudo foi conquistado, por isso valoriza as oportunidades
Contratado pelo Sporting por 500 mil euros em 2019, Matheus Nunes superou ceticismo inicial e formação tardia para se tornar titular absoluto. Pep Guardiola considerou-o um dos melhores jogadores do mundo; estreou-se a marcar pela seleção portuguesa contra a Macedónia em qualificação para o Mundial 2022.
- Contratado pelo Sporting por 500 mil euros em janeiro de 2019, aos 20 anos
- Trabalhou numa pastelaria na Ericeira enquanto jogava nos distritais de Lisboa
- Pep Guardiola considerou-o um dos melhores jogadores do mundo após goleada do Sporting (5-0) sobre o Manchester City
- Estreou-se a marcar pela seleção portuguesa contra a Macedónia em qualificação para o Mundial 2022
- O Sporting espera receber 60 milhões de euros pela sua venda no mercado de verão
Matheus Nunes mudou-se do Brasil para Portugal aos 13 anos e trabalhou numa pastelaria antes de se tornar figura no Sporting, elogiado por Pep Guardiola e já marcando pela seleção portuguesa.
Matheus Nunes chegou a Portugal aos treze anos com a mãe e o padrasto, um português que o levou para a Ericeira. Enquanto a família se reorganizava, ele trabalhava na pastelaria do padrinho para ajudar em casa — três irmãos para sustentar — e jogava nos distritais de Lisboa. Ninguém o procurava. Ninguém o queria. Mas havia algo nele que os olhos certos conseguiam ver.
Quando o Sporting decidiu investir meio milhão de euros por metade do passe de um jogador de vinte anos, quase sem formação estruturada e com um currículo que se resumia a jogos regionais, o clube estava em crise profunda. Cinco treinadores numa época. Presidente novo. Tudo instável. O risco era enorme. Mas o relatório do scouting e a recomendação de Alexandre Santos, então treinador dos sub-23, foram claros: este rapaz tinha um talento raro, e com a estrutura certa, explodiria. José Chieira, diretor de scouting na altura, explicou depois que Matheus tinha um perfil diferente — características que não se encontravam facilmente no mercado. Sim, havia limitações. A perceção de espaço não era a ideal. Os movimentos ainda eram imprecisos. Mas tudo isso era treinável. Tudo isso podia evoluir.
O que ninguém podia treinar era o que Chieira chamou de perfil psicológico. Matheus tinha uma presença empática no grupo, uma disponibilidade genuína para aprender, e uma seriedade que contrastava com aquela descaradura juvenil. Ele ouvira tantas vezes "não fica", "não serve", "não é o que procuramos". Chegou a duvidar de si próprio. Mas a mãe não o deixou desistir do futebol.
Quando Rúben Amorim chegou ao Sporting, tudo mudou de velocidade. O treinador percebeu exatamente o que fazer com Matheus. Deu-lhe soluções, instrumentos para crescer com o jogo, e num assunto de meses, as fraquezas transformaram-se em mais-valias. O rapaz que tinha dificuldade em ler os espaços começou a dominar o meio-campo com uma verticalidade que assustava. Não jogava para trás, não jogava para o lado — jogava para a frente, criando transições que pareciam naturais, quase óbvias. Alexandre Santos, que o tinha recomendado, via-o agora jogar nos grandes jogos com uma naturalidade que o impressionava. "Não é fácil encontrar um médio que pressione bem em zonas altas e seja agressivo em zonas baixas", dizia. "Ele faz isso sem pensar."
Pep Guardiola, depois de ver o Sporting golear o Manchester City cinco a zero, chamou-lhe um dos melhores jogadores do mundo naquele momento. Matheus recebeu a mensagem de parabéns de Alexandre Santos e respondeu que preferia ter ganho o jogo. Isso dizia tudo sobre ele — nunca teve nada dado, tudo foi conquistado. Nunca se queixava de jogar cinco minutos. Aproveitava-os ao máximo.
Em outubro, Fernando Santos chamou-o à seleção portuguesa. Matheus estreou-se contra o Qatar e depois entrou na segunda parte do jogo contra a Macedónia, em qualificação para o Mundial de 2022. Marcou. De quinas ao peito. "Marcar foi incrível", disse depois, radiante. "Mas o sabor da vitória foi ainda melhor. O golo não teria o mesmo sabor se não tivéssemos vencido." Frederico Varandas, presidente do Sporting, tinha dito meses antes que só Matheus Nunes pagaria Rúben Amorim — uma frase que soou estranha na altura, porque o treinador tinha custado dez milhões de euros. Mas agora, com Matheus avaliado em trinta milhões pelo Transfermarkt e o Sporting à espera de sessenta milhões no mercado de verão, aquela aposta de meio milhão de euros parecia ter sido a mais inteligente que o clube poderia ter feito. Um rapaz que trabalhou numa pastelaria na Ericeira estava agora a caminho de ser uma das jóias raras do futebol europeu.
Notable Quotes
Marcar foi incrível. Mas o sabor da vitória foi ainda melhor. O golo não teria o mesmo sabor se não tivéssemos vencido.— Matheus Nunes, após estreia a marcar pela seleção portuguesa
Um dos melhores jogadores do mundo neste momento— Pep Guardiola, sobre Matheus Nunes
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que um clube em crise profunda consegue tomar uma decisão tão acertada como contratar Matheus Nunes?
Porque alguém — neste caso, Alexandre Santos — viu algo que ia além do currículo. Matheus não tinha formação de academia, não tinha seleções, não tinha o percurso típico. Mas tinha características raras que não se encontram facilmente no mercado.
E o que é que o Sporting fez diferente depois de o contratar?
Esperou pelo treinador certo. Rúben Amorim chegou e percebeu exatamente como potenciar aquele talento. Deu-lhe estrutura, deu-lhe confiança, deu-lhe um sistema onde aquela verticalidade natural dele podia florescer.
Mas havia risco. Meio milhão de euros por alguém que só tinha jogado nos distritais.
Havia, sim. Mas o scouting sabia que o risco era calculado. Matheus tinha um perfil psicológico muito forte — era empático, respeitador, tinha uma disponibilidade genuína para aprender. Essas coisas não se treinam. Ou as tens ou não tens.
E a história pessoal dele — trabalhar numa pastelaria enquanto jogava — isso importava?
Importava muito. Porque significava que ele nunca tinha tido nada dado. Tudo foi conquistado. Quando chegou ao Sporting, não se queixava, não tinha arrogância. Aproveitava cada minuto que lhe davam.
Pep Guardiola chamou-lhe um dos melhores jogadores do mundo. Como é que Matheus reagiu?
Pediu a Alexandre Santos para lhe dar os parabéns, mas depois disse que preferia ter ganho o jogo. Isso resume tudo o que ele é — o individual nunca vem em primeiro lugar.
Agora o Sporting espera sessenta milhões de euros por ele. Aquele meio milhão parece uma moeda de um cêntimo.
Parece. Mas a verdade é que ninguém sabia. Ninguém podia garantir que aquele rapaz da Ericeira ia chegar aqui. O que o Sporting fez foi acreditar num potencial que outros não viam.