Israel pagou despesas e planejava instalá-lo no poder
Em algum ponto entre a retórica inflamada e os bastidores da geopolítica, inimigos declarados podem tornar-se instrumentos uns dos outros. Segundo o New York Times, o Mossad teria recrutado Mahmoud Ahmadinejad — ex-presidente iraniano e histórico adversário de Israel — como agente de inteligência, com o objetivo de instalá-lo no poder em Teerã durante os ataques de fevereiro de 2026. A operação, que envolveu o próprio chefe do Mossad viajando a Budapeste para o encontro inicial, fracassou, deixando mais perguntas do que respostas sobre lealdades, motivações e os limites do pragmatismo na política de segurança.
- O Mossad teria transformado um dos maiores inimigos públicos de Israel em ativo de inteligência, pagando suas despesas e organizando encontros secretos no exterior.
- David Barnea, chefe do Mossad, viajou pessoalmente a Budapeste em 2024 para recrutar Ahmadinejad sob a cobertura de um seminário acadêmico sobre mudança climática.
- O plano previa extrair e posicionar Ahmadinejad como novo líder iraniano durante os primeiros dias dos ataques americanos e israelenses ao Irã, no fim de fevereiro.
- A operação fracassou — os detalhes permanecem obscuros, mas fontes dos EUA e do Irã confirmaram ao New York Times que o esquema existiu e não produziu o resultado esperado.
- A revelação expõe a profundidade da aposta israelense em uma mudança de regime no Irã e levanta dúvidas sobre as verdadeiras lealdades do ex-presidente iraniano.
No início de 2024, Mahmoud Ahmadinejad aceitou um convite para um seminário sobre mudança climática em Budapeste. O evento, segundo o New York Times, era uma fachada montada pelo Mossad. O próprio chefe do serviço de inteligência israelense, David Barnea, viajou pessoalmente à capital húngara para recrutar o ex-presidente iraniano como agente — uma escolha que, à primeira vista, parece paradoxal.
Ahmadinejad havia acelerado o programa nuclear iraniano durante seus anos no poder e era conhecido por declarações negacionistas sobre o Holocausto e chamados à destruição de Israel. Para Tel Aviv, ele era um inimigo histórico. Mas em algum momento, a avaliação mudou: Israel passou a vê-lo como possível instrumento de uma mudança de regime. Após o encontro em Budapeste, Israel começou a cobrir suas despesas de viagem e operadores israelenses se reuniam com ele ocasionalmente. A CIA foi notificada da operação.
O objetivo era claro: quando a oportunidade surgisse, Ahmadinejad seria instalado como novo líder do Irã. Essa janela pareceu abrir-se no fim de fevereiro, com o início dos ataques americanos e israelenses ao país. O plano previa localizar e transferir o ex-presidente — que vivia sob vigilância rigorosa em Teerã — durante os primeiros dias da ofensiva, posicionando-o para assumir o poder.
A operação fracassou. Os detalhes do que deu errado permanecem sem divulgação. O que ficou foi a imagem de um Israel disposto a apostar em um antigo adversário para remodelar o Irã — e a pergunta, ainda sem resposta, sobre o que Ahmadinejad sabia, queria e esperava ganhar com tudo isso.
No início de 2024, Mahmoud Ahmadinejad recebeu um convite para participar de um seminário sobre mudança climática em uma universidade de Budapeste. O ex-presidente iraniano, que havia deixado o cargo anos antes, aceitou. O que ele não sabia — ou talvez soubesse — era que o evento era uma fachada. Segundo reportagem do New York Times, aquele encontro na capital húngara marcava o início de um esforço extraordinário do Mossad, o serviço de inteligência israelense, para recrutá-lo como agente de espionagem.
A reviravolta é notável porque Ahmadinejad nunca foi visto como candidato óbvio para tal papel. Durante seus anos no poder, ele havia acelerado o programa nuclear iraniano e feito chamados públicos pela destruição de Israel. Ficou conhecido também por negar o Holocausto. Para Tel Aviv, ele era um inimigo histórico. Mas em algum momento, a avaliação mudou. Fontes oficiais dos Estados Unidos e do Irã, que falaram sob condição de anonimato, confirmaram ao jornal americano que Israel havia identificado nele um possível instrumento para uma mudança de regime.
O recrutamento era tão importante que David Barnea, então chefe do Mossad, viajou pessoalmente a Budapeste no começo de 2024 para encontrar Ahmadinejad. Após esse encontro, um segundo estava planejado para o ano seguinte, como parte de um esforço de longo prazo. Israel também começou a cobrir despesas de viagem do ex-presidente e operadores israelenses no exterior se encontravam com ele ocasionalmente. Quando o Mossad estabeleceu contato com Ahmadinejad, notificou a CIA sobre a operação.
O plano tinha um objetivo claro: quando a oportunidade surgisse, Ahmadinejad seria instalado como novo líder do Irã. Essa oportunidade pareceu chegar no final de fevereiro, quando ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o país começaram. Ahmadinejad vivia sob vigilância rigorosa em Teerã, mas a operação israelense previa localizá-lo e transferi-lo durante os primeiros dias dos ataques. Uma vez seguro, ele seria posicionado para assumir o poder e derrubar o regime atual.
Mas a operação fracassou. Os detalhes do que deu errado não foram divulgados. O que restou foi a revelação de que Israel havia investido tempo, dinheiro e capital político em um esquema que, ao menos por enquanto, não produziu o resultado esperado. Para Ahmadinejad, a história levanta questões sobre suas próprias lealdades e motivações. Para Israel, ela expõe uma tentativa ambiciosa de remodelar a política iraniana que não saiu como planejado.
Citas Notables
A decisão de Israel sobre Ahmadinejad é uma reviravolta extraordinária quanto ao ex-presidente iraniano, conhecido por ter acelerado o programa nuclear do país e feito convocações públicas à destruição de Israel— New York Times
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Israel escolheria justamente Ahmadinejad, alguém que sempre foi tão hostil a eles?
Porque ele tinha algo que importava mais: legitimidade dentro do Irã. Ele não era um desconhecido imposto de fora. Havia governado o país. Para um plano de mudança de regime funcionar, você precisa de alguém que os iranianos possam reconhecer como uma alternativa viável.
E como você convence um homem como esse a trabalhar para você?
Dinheiro ajuda. Proteção ajuda mais. Se você está oferecendo a ele uma chance de voltar ao poder, com o apoio de uma potência estrangeira, a ideologia anterior pode se tornar negociável.
O plano fracassou em fevereiro. Você acha que Ahmadinejad foi capturado, ou simplesmente não conseguiram localizá-lo?
A reportagem não diz. Mas ele estava sob vigilância rigorosa. Talvez o regime iraniano soubesse do que estava acontecendo. Talvez a operação tenha sido descoberta antes de começar.
Qual é o risco para Israel agora, com essa história vindo à tona?
Eles revelaram uma operação que não funcionou, o que enfraquece sua credibilidade em futuras tentativas. E confirmaram que estão dispostos a trabalhar com figuras que historicamente foram inimigas, se isso servir seus interesses estratégicos.
E para Ahmadinejad?
Ele está exposto. Se o regime iraniano não sabia antes, sabe agora. Sua posição dentro do país ficou muito mais complicada.