Do coronavírus não há escapatória
Em meio ao maior colapso sanitário do século, o jornalista Guga Chacra testemunhou de Nova York como a pandemia de Covid-19 não apenas ceifou vidas, mas reorganizou silenciosamente a ordem do mundo. Seu livro 'Confinado no front' argumenta que crises desta magnitude não escolhem vítimas — nem entre cidadãos, nem entre ideologias — e que a incapacidade dos Estados Unidos de responder à doença custou a Donald Trump a presidência. O que emerge dessa tragédia coletiva é uma lição antiga reaprendida com sangue: o Estado, por mais impopular que seja em tempos de bonança, é insubstituível nas horas em que o mundo para.
- Nova York virou epicentro americano da pandemia enquanto Chacra assistia de dentro: ambulâncias incessantes, hospital de campanha no Central Park e um navio-hospital atracado em Manhattan.
- Trump subestimou o vírus mesmo conhecendo seu potencial letal, e os EUA acumularam o maior número absoluto de mortos e infectados do mundo, destruindo a imagem internacional do país.
- A crise sanitária acelerou a guerra fria entre EUA e China, fortaleceu a Ásia como bloco e produziu evidências de que o avanço global do populismo foi freado — ao menos temporariamente.
- No Brasil, o negacionismo de Bolsonaro transformou a pandemia em batalha ideológica, com ministros da Saúde demitidos por seguirem protocolos científicos, isolando ainda mais o país no cenário internacional.
- A ideologia do Estado mínimo saiu enfraquecida da crise: nenhum mercado privado poderia ter enfrentado sozinho o colapso, e essa percepção promete reconfigurar o debate político econômico por anos.
Guga Chacra passou duas décadas cobrindo guerras e catástrofes ao redor do mundo, mas a pandemia de coronavírus o surpreendeu de um modo diferente: dela não se pode fugir. Estava em Nova York quando a cidade se tornou o epicentro americano da doença, teve sintomas leves em março e só confirmou a infecção meses depois, por teste de anticorpos. As imagens que guardou — ambulâncias constantes, um hospital de campanha no Central Park, um navio-hospital em Manhattan — moldaram o livro 'Confinado no front', publicado pela Todavia.
Escrito antes da eleição americana e lançado logo após, o livro sustenta que o fracasso dos EUA no combate à Covid-19 foi decisivo para a derrota de Trump. Com o maior número absoluto de mortos e infectados do mundo, e com a resposta à pandemia transformada em guerra cultural entre estados democratas e republicanos, a imagem americana foi severamente deteriorada. Trump subestimou o vírus mesmo sabendo de seu potencial — e pagou o preço nas urnas.
Mas Chacra vai além da política doméstica. A pandemia acelerou a disputa entre EUA e China, fortaleceu a Ásia como região e pode ter freado o avanço global do populismo. A convergência anti-China entre democratas e republicanos, ele acredita, não será revertida com Biden. Na Europa, ao contrário do temido, o continente saiu mais coeso do que entrou.
No Brasil, o paralelo com os EUA é evidente, mas com agravantes. O negacionismo de Bolsonaro transformou a saúde pública em campo ideológico, e ministros que seguiram a ciência foram demitidos. Com Trump fora do poder, Bolsonaro ficaria ainda mais isolado internacionalmente.
Uma conclusão atravessa o livro: nem o regime político nem a riqueza de um país foram tão determinantes quanto a qualidade da resposta de seus líderes. E essa resposta revelou algo mais fundo — a ideologia do Estado mínimo não sobreviveu intacta à tragédia. O peso do Estado voltou ao centro do debate global, e essa mudança, Chacra sugere, veio para ficar.
Guga Chacra passou duas décadas cobrindo as fraturas do mundo — guerras em Gaza, terremotos no Haiti — mas nada o preparou para o que viria. A pandemia de coronavírus, ele escreve em seu novo livro "Confinado no front", publicado pela Todavia, não oferece a ilusão de segurança que outras crises permitem. De uma guerra se pode fugir. Do vírus, não.
O jornalista e colunista do GLOBO estava em Nova York quando a cidade se tornou o epicentro americano da doença. Ele próprio teve sintomas leves em março, no auge da transmissão, mas só fez o teste de anticorpos meses depois — resultado positivo. Viu as ambulâncias passarem constantemente. Viu um hospital de campanha ser erguido no Central Park. Viu um navio-hospital atracar em Manhattan. Essas imagens marcaram profundamente não apenas sua vida, mas a de toda uma cidade que, quinze anos antes, havia escolhido como lar.
O livro, escrito antes da eleição americana e publicado logo após, argumenta que o fracasso dos Estados Unidos no combate à doença foi determinante para a derrota de Donald Trump. Os EUA tinham o maior número absoluto de mortos e infectados do mundo. Enquanto isso, a resposta americana à pandemia — polarizada em torno do isolamento social e do uso de máscaras — aprofundou ainda mais as divisões já existentes. Estados governados por democratas e republicanos reagiram de formas radicalmente diferentes. Trump subestimou o vírus mesmo sabendo de seu potencial letal. A imagem internacional dos Estados Unidos, a maior economia do mundo, foi severamente deteriorada pela incapacidade de lidar com a crise.
Mas o livro vai além da política doméstica americana. Chacra mostra como a pandemia acelerou movimentos geopolíticos que já estavam em curso. A disputa entre Estados Unidos e China intensificou-se. Teorias da conspiração floresceram em ambos os lados — Trump insistindo em chamar de "vírus chinês", enquanto Pequim propagava suas próprias narrativas. Curiosamente, essa posição anti-China aproximou democratas e republicanos, e Chacra acredita que essa convergência não será revertida mesmo com a eleição de Joe Biden. A Ásia, como região, saiu fortalecida. E há evidências de que o avanço global do populismo foi freado.
O jornalista também examina por que alguns países foram mais atingidos que outros. A Itália, particularmente sua região norte mais rica, sofreu devastação desproporcional — falta de competência das autoridades, planejamento hospitalar inadequado, população envelhecida, ou talvez todos esses fatores combinados. Chacra reconhece que ainda não tem uma resposta definitiva. Mas identifica um padrão claro: a localização geográfica importou. Países mais isolados geograficamente tiveram menos casos e controlaram melhor o vírus.
No Brasil, o cenário ecoou o americano, mas com diferenças importantes. Estados que agiram rapidamente esbarraram no discurso negacionista do presidente Jair Bolsonaro. Ministros da Saúde que se recusaram a abandonar os protocolos científicos foram demitidos. A pandemia tornou-se mais um campo de batalha ideológica do que um desafio de saúde pública. Chacra classifica Bolsonaro como um "pária pandêmico" — não apenas por sua posição anticiência, mas pelo fracasso em lidar com o coronavírus. Com Trump derrotado, Bolsonaro ficaria ainda mais isolado no cenário internacional.
Uma conclusão emerge do livro: nem o tipo de regime político — democracia ou ditadura — nem a riqueza de um país foram tão cruciais quanto se poderia esperar. O que importou foi como os líderes responderam, e isso revelou algo mais profundo sobre o papel do Estado. A ideologia do Estado mínimo perdeu força diante da tragédia sanitária. A iniciativa privada sozinha nunca poderia ter enfrentado essa crise. O peso do Estado voltou ao debate político global, e essa mudança de perspectiva provavelmente durará.
Apesar do baque inicial sofrido por Nova York — com o prefeito Bill de Blasio e o governador Andrew Cuomo, ambos democratas, demorando para agir e ignorando avisos — Chacra é otimista sobre a recuperação da cidade. Ela se recuperou do 11 de Setembro. Ela se recuperará disso também. Na Europa, apesar dos temores de que o Brexit e a pandemia a deixassem mais desunida, o continente saiu mais coeso. O espírito será de reconstrução. A ordem geopolítica global foi abalada, reconfigurada, mas não destruída. O que vem a seguir dependerá de como os líderes mundiais aprenderam — ou não — com essa crise.
Notable Quotes
A ideologia de Estado mínimo perdeu força diante da grande tragédia sanitária e humanitária da nossa geração. Seria simplesmente impossível a iniciativa privada lidar sozinha com esse problema.— Guga Chacra, no livro 'Confinado no front'
Acredito que a cidade tem tudo para se reerguer e ser ainda melhor do que era antes da pandemia— Guga Chacra, sobre Nova York
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que você acha que a pandemia foi tão diferente de outras crises que você cobriu?
Porque não havia fuga. Em uma guerra, você pode sair da zona de conflito. Aqui, o inimigo era invisível e estava em toda parte. Mesmo em Nova York, uma cidade que conhecia bem, de repente não havia segurança.
E como isso mudou a forma como você vê o papel do Estado?
A pandemia destruiu a narrativa do Estado mínimo. Nenhuma empresa privada poderia ter construído hospitais de campanha, coordenado testes em massa, ou mantido a economia funcionando. O Estado voltou a ser visto como essencial.
Trump perdeu porque fracassou na pandemia, ou a pandemia apenas revelou fracassos que já existiam?
Ambas as coisas. Mas o timing foi crucial. A resposta dele — subestimar o vírus, politizar máscaras — aconteceu exatamente quando as pessoas estavam morrendo. Isso não se perdoa em uma eleição.
E a China? Como sai dessa história?
Mais forte geopoliticamente, mesmo que tenha escondido informações no início. A pandemia acelerou a rivalidade EUA-China, e agora até democratas e republicanos concordam em desconfiar de Pequim. Isso não muda com Biden.
Você acha que Nova York vai se recuperar?
Sim. A cidade tem resiliência. Mas não será a mesma. Ninguém que viu as ambulâncias passando constantemente, o hospital de campanha no Central Park, esquece disso.