Novo livro de Guga Chacra analisa como pandemia reconfigurou ordem geopolítica mundial

A pandemia causou milhares de mortes nos EUA, com o país batendo recordes de vítimas diárias, e impactou profundamente cidades como Nova York, onde o sistema de saúde entrou em colapso.
Do coronavírus não há fuga.
Chacra contrasta a pandemia com guerras e desastres que cobriu: diferentemente destes, não há escapatória possível.

O fracasso dos EUA no combate à pandemia deteriorou sua imagem internacional e polarizou a resposta política, influenciando decisivamente o resultado das eleições presidenciais. A crise sanitária acelerou a disputa EUA-China, fortaleceu a Ásia e trouxe de volta o debate sobre o papel do Estado na sociedade, enfraquecendo a ideologia de Estado mínimo.

  • EUA foi o país mais atingido em mortos e infectados, batendo recordes diários de vítimas
  • Chacra viveu 15 anos em Nova York e teve sintomas leves de Covid-19 em março de 2020
  • A resposta polarizada à pandemia foi decisiva para a derrota de Trump nas eleições presidenciais
  • Bolsonaro é classificado como "pária pandêmico" por sua posição anticiência e fracasso no combate ao vírus
  • A pandemia acelerou a Guerra Fria EUA-China e trouxe de volta o debate sobre o papel do Estado

Novo livro de Guga Chacra analisa como a pandemia de Covid-19 acelerou movimentos geopolíticos, incluindo a Guerra Fria EUA-China, e foi crucial para a derrota de Donald Trump nas eleições americanas.

Guga Chacra passou quinze anos em Nova York. Em março de 2020, sentado em um estúdio de televisão, ele chorou ao compreender que a cidade nunca mais seria a mesma. As ambulâncias tocavam sem parar. Um hospital de campanha estava sendo construído no Central Park. Um navio-hospital havia atracado em Manhattan. A maior economia do mundo estava colapsando diante de um vírus invisível.

Em seu novo livro "Confinado no front", lançado pela editora Todavia, Chacra reconstrói como a pandemia de coronavírus reconfigurou a geopolítica global — e como o fracasso americano em contê-la selou o destino de Donald Trump. O jornalista, que cobriu guerras e desastres naturais ao longo de sua carreira, argumenta que nada se compara à pandemia. Numa guerra, é possível fugir. Do coronavírus não há fuga.

Os Estados Unidos foram o país mais atingido do mundo em número de mortos e infectados. Na semana em que o livro foi escrito, antes da eleição presidencial, o país batia recordes diários de vítimas. Chacra detalha como essa catástrofe sanitária — e a resposta política polarizada que a acompanhou — tornou-se decisiva para a derrota de Trump. Enquanto estados governados por democratas e republicanos respondiam de maneiras radicalmente diferentes, o presidente subestimou o vírus mesmo conhecendo seu potencial mortal. O isolamento e o uso de máscaras viraram símbolos políticos em vez de medidas de saúde pública. A pandemia não apenas matou americanos; dividiu ainda mais uma nação já fraturada.

Mas o livro vai além da política doméstica americana. Chacra mostra como a crise sanitária acelerou movimentos geopolíticos que já estavam em movimento. A Guerra Fria entre Estados Unidos e China atingiu seu pico máximo, transbordando até para as redes sociais — o TikTok tornou-se um campo de batalha ideológica. A pandemia ajudou a aflorar teorias da conspiração nos dois lados: Trump insistia em chamar de "vírus chinês", enquanto Pequim ocultava informações sobre o surto em Wuhan por semanas. A falta de transparência típica de um regime ditatorial, escreve Chacra, foi crucial para que a doença se espalhasse pelo mundo. Simultaneamente, a Ásia se fortaleceu enquanto a imagem internacional dos Estados Unidos se deteriorava. Como a maior potência econômica do planeta lidou tão mal com uma crise que exigia coordenação, planejamento e confiança pública?

O próprio Chacra teve sintomas leves em março, no auge da transmissão em Nova York. Só fez o teste de anticorpos meses depois. Deu positivo. Ele se pergunta: e se tivesse precisado de internação, com todo o sistema de saúde colapsado? A pergunta não é retórica. Ela aponta para o colapso real que ocorreu em cidades americanas.

No Brasil, a história ecoou com variações sombrias. Estados que agiram rapidamente esbarraram no discurso negacionista do presidente Jair Bolsonaro. Ministros da Saúde que se recusaram a abandonar os protocolos científicos foram demitidos. O combate à pandemia tornou-se mais um campo de batalha política do que um esforço de saúde pública. Chacra classifica Bolsonaro como um "pária pandêmico" — um líder que escolheu a ideologia sobre a ciência e fracassou em proteger seu povo. Com a derrota de Trump, Bolsonaro ficaria ainda mais isolado no cenário internacional.

A conclusão de Chacra desafia suposições convencionais. O regime político de um país — democracia ou ditadura — não foi tão crucial quanto se poderia esperar. A riqueza também não foi determinante. O que importou foi a localização geográfica: países mais isolados tiveram menos casos e lidaram melhor com o vírus. E houve uma mudança ideológica profunda. A pandemia trouxe de volta o debate sobre o papel do Estado. "A ideologia de Estado mínimo perdeu força diante da grande tragédia sanitária e humanitária da nossa geração", afirma. "Seria simplesmente impossível a iniciativa privada lidar sozinha com esse problema."

Apesar do baque inicial, Chacra é otimista sobre Nova York. Ele discorda veementemente de quem acredita que a cidade entrará em decadência. Após o 11 de Setembro, a cidade se recuperou. Ele acredita que ela tem tudo para se reerguer e ser ainda melhor. Na Europa, contrariamente aos temores, a pandemia não desunificou o continente. Pelo contrário, o espírito será de reconstrução. A ordem geopolítica foi reconfigurada, mas nem tudo foi destruído. Algumas cidades, algumas regiões, algumas alianças emergirão mais fortes.

A ideologia de Estado mínimo perdeu força diante da grande tragédia sanitária e humanitária da nossa geração. Seria simplesmente impossível a iniciativa privada lidar sozinha com esse problema.
— Guga Chacra
Acredito que a cidade tem tudo para se reerguer e ser ainda melhor do que era antes da pandemia.
— Guga Chacra, sobre Nova York
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Você escreve que a localização geográfica importou mais que o regime político. Como assim? Não deveríamos esperar que democracias lidassem melhor que ditaduras?

Model

A intuição é natural, mas a realidade foi mais complexa. Alguns países democráticos falharam espetacularmente — veja os Estados Unidos. Outros autoritários, como a China, conseguiram conter o vírus rapidamente, embora escondendo informações. O que realmente importou foi se um país estava geograficamente isolado ou conectado ao resto do mundo. Ilhas e nações remotas tiveram menos casos simplesmente porque o vírus chegou depois.

Inventor

Você diz que a pandemia trouxe de volta o debate sobre o Estado. Mas não é um pouco ingênuo acreditar que a ideologia de Estado mínimo desaparecerá?

Model

Não desaparecerá, claro. Mas a pandemia expôs uma verdade que é difícil negar: quando a crise é existencial, ninguém acredita que o mercado privado resolverá sozinho. Hospitais de campanha em Central Park, navios-hospitais em Manhattan — isso é Estado agindo. A ideologia pode voltar quando a crise passar, mas o argumento ficou mais fraco.

Inventor

Você estava em Nova York quando tudo desabou. Como foi pessoalmente?

Model

Devastador. Eu tinha sintomas leves em março, mas não sabia. Só descobri meses depois quando fiz o teste de anticorpos. Mas o que realmente marcou foi ver a cidade que eu amava — onde vivi quinze anos — ser transformada em zona de guerra sanitária. As ambulâncias, o hospital no Central Park, o navio-hospital. Chorei na televisão porque percebi que aquilo era real, que não havia fuga.

Inventor

E agora? Você realmente acredita que Nova York se recuperará?

Model

Sim. A cidade se recuperou do 11 de Setembro. Ela tem resiliência, infraestrutura, capital humano. Será diferente, mas pode ser melhor. O que me preocupa mais é o resto do mundo — especialmente países como o Brasil, onde a negação política impediu uma resposta adequada.

Inventor

Bolsonaro como "pária pandêmico" — essa é uma acusação forte.

Model

É precisa. Ele escolheu a ideologia sobre a ciência. Demitiu ministros que queriam seguir protocolos científicos. Transformou a saúde pública em batalha política. Quando Trump caiu, Bolsonaro ficou sozinho nessa posição. Isso tem consequências geopolíticas reais.

Quieres la nota completa? Lee el original en O GLOBO ↗
Contáctanos FAQ