A meningite bacteriana no Brasil não é mais meningocócica, é pneumocócica
A VPC15 oferece proteção ampliada contra 15 sorotipos da bactéria pneumocócica, com esquema de vacinação variável conforme a idade do paciente. A vacina está disponível apenas na rede privada por cerca de R$ 350 a dose, enquanto o SUS oferece a VPC10, considerada inferior por especialistas.
- VPC15 protege contra 15 sorotipos da bactéria pneumocócica
- Disponível apenas na rede privada por cerca de R$ 350 a dose
- Sorotipos 19A e 3 causam quase 50% dos casos graves em menores de 5 anos
- Ainda sem negociações para incorporação ao SUS
Laboratórios privados começam a oferecer a VPC15, vacina que protege contra 15 sorotipos da doença pneumocócica, causadora de pneumonia e meningite. Especialistas recomendam sua incorporação ao SUS.
Clínicas e laboratórios privados brasileiros começaram a oferecer em outubro de 2023 a VPC15, uma vacina que amplia significativamente a proteção contra a doença pneumocócica. O imunizante, produzido pela MSD sob o nome comercial VaxNeuvance, cobre 15 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae — um avanço em relação às versões anteriores que protegiam contra 10 ou 13 tipos. A doença causada por essa bactéria pode evoluir para pneumonia, meningite e até infecções generalizadas do sangue, tornando a vacinação uma questão de saúde pública relevante.
O esquema de vacinação varia conforme a idade. Bebês entre 2 e 15 meses recebem quatro doses, com intervalo de dois meses entre a primeira e a terceira, seguidas de reforço. Para crianças mais velhas, adolescentes e adultos com doenças crônicas que aumentam o risco de infecção pneumocócica grave, recomenda-se uma dose de VPC15 complementada pela vacina polissacarídica 23-valente. Pessoas com 60 anos ou mais devem seguir um esquema sequencial: uma dose de VPC15, seguida de VPP23 entre 6 e 12 meses depois, e outra dose de VPP23 cinco anos após. As sociedades brasileiras de Pediatria e Imunizações recomendam o uso preferencial da VPC13 ou VPC15 sempre que possível.
A disponibilidade, porém, permanece restrita ao setor privado. O preço sugerido gira em torno de R$ 350 por dose — cerca de 5% a 10% mais caro que a VPC13. O Sistema Único de Saúde continua oferecendo apenas a VPC10, considerada inferior por especialistas. Marina Della Negra, diretora médica da MSD e infectologista, informou que ainda não há negociações para incorporação da VPC15 ao SUS. Essa lacuna é particularmente preocupante porque, no Brasil, dois sorotipos específicos — o 19A e o 3 — estão associados a quase metade dos casos de doença pneumocócica invasiva em crianças menores de cinco anos.
Os efeitos colaterais da VPC15 são geralmente leves a moderados. Em bebês e crianças, podem ocorrer irritabilidade, febre acima de 38°C, sonolência, dor e inchaço no local da injeção, além de diminuição do apetite. Em adultos, os sintomas incluem dor local, manchas vermelhas, inchaço, fadiga, dor de cabeça e dores musculares ou articulares. A vacina pode ser administrada junto com outras vacinas pediátricas e não depende de sazonalidade — pode ser tomada em qualquer época do ano. Diferentemente da vacina contra influenza, não requer doses anuais; o esquema é completado uma única vez.
Quem já recebeu a VPC10 ou VPC13 em 2023 não precisa ser revacinado com a VPC15, segundo orientação de Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. Porém, para quem tomou apenas a VPC10, as doses da VPC15 são recomendadas. Kfouri enfatiza a urgência de incorporação de vacinas com maior valência ao Programa Nacional de Imunizações. "A 13 e a 15 são muito superiores em relação à 10", afirma.
A importância clínica dessa discussão fica evidente quando se considera que a doença pneumocócica é agora a principal causa de meningite bacteriana no Brasil — não mais a meningocócica. Della Negra relata que um estudo brasileiro, apresentado em congresso internacional em Boston, revelou que 90% dos pacientes idosos internados desconheciam se haviam sido vacinados contra pneumococo, e apenas 1% dos hospitalizados com doença pneumocócica invasiva sabiam que tinham recebido a vacina. Essa falta de conhecimento sobre os benefícios da vacinação pneumocócica aponta para um desafio não apenas de acesso, mas também de comunicação e conscientização sobre a importância da imunização.
Citações Notáveis
A 13 e a 15 são muito superiores em relação à 10— Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações
90% dos pacientes idosos internados não sabiam se tinham tomado a vacina pneumocócica— Marina Della Negra, diretora médica da MSD
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a VPC15 é considerada um avanço se já existem outras vacinas pneumocócicas disponíveis?
Os dois sorotipos 19A e 3 causam quase metade das infecções graves em crianças pequenas no Brasil. A VPC10 que o SUS oferece não cobre esses tipos. A VPC15 cobre ambos, além de outros 13, o que muda significativamente a proteção.
Se a vacina é tão importante, por que não está no SUS ainda?
Não há negociações em andamento para incorporação. É uma decisão que envolve custo, prioridades orçamentárias e processos de aprovação. Mas especialistas dizem que é urgente — a VPC10 está defasada.
Quanto custa para quem quer tomar agora?
Cerca de R$ 350 por dose. Para uma criança pequena que precisa de quatro doses, estamos falando de mais de mil reais. Para muitas famílias, é inacessível.
Qual é o risco real da doença pneumocócica?
Pode causar pneumonia, meningite e infecção generalizada do sangue. É transmitida por gotículas de saliva quando alguém tosse ou espirra. A meningite bacteriana causada por pneumococo é agora a mais comum no país.
Quem já tomou a VPC13 precisa tomar a VPC15?
Não há recomendação para revacinação. Mas quem tomou apenas a VPC10 deveria tomar as doses da VPC15, porque a cobertura é significativamente melhor.
Qual é o maior problema que você vê nessa situação?
A desigualdade. Quem pode pagar tem acesso a uma vacina superior. Quem depende do SUS fica com uma versão mais antiga e menos eficaz. E a maioria das pessoas não sabe disso.