A Academia Sueca tentou botar panos quentes, mas não adiantou.
A cada outubro, Estocolmo convoca o mundo a contemplar o valor da palavra escrita — mas a Academia Sueca chega ao Nobel de Literatura de 2020 carregando o peso de três anos de crises que expuseram as contradições entre o ideal da arte e as falhas muito humanas de quem a consagra. Escândalos de abuso sexual, a premiação de um escritor que defendeu um ditador acusado de genocídio e o debate sobre se um compositor merece o troféu máximo da literatura revelaram que nenhuma instituição, por mais prestigiosa, está imune ao tempo em que vive. A busca por normalidade, nesse contexto, é também uma busca por legitimidade.
- A Academia perdeu oito de seus dezoito membros após denúncias de abuso sexual contra o fotógrafo Jean-Claude Arnault, ficando abaixo do quórum legal e sendo forçada a cancelar o Nobel de 2018 pela primeira vez em décadas.
- A premiação de Peter Handke em 2019 reabriu feridas históricas: mais de vinte mil pessoas assinaram petição contra a escolha de um escritor que discursou no velório de Milošević, enquanto sobreviventes do massacre de Srebrenica exigiam retratação.
- A polêmica com Bob Dylan em 2016 já havia questionado os limites do próprio prêmio, com escritores como Philip Roth ironizando a decisão e o laureado se ausentando da cerimônia sem explicações convincentes.
- Em 2020, a Academia enfrenta uma pressão histórica por diversidade: 119 anos de prêmio produziram apenas 3 vencedores negros e 15 mulheres, e qualquer escolha será lida como um posicionamento político num mundo em transformação.
- A normalidade almejada pela Academia é, na prática, um fio esticado entre tradição e legitimidade — qualquer tropeço pode reacender a desconfiança que levou anos para ser parcialmente reconstruída.
A Academia Sueca se preparava para anunciar o Nobel de Literatura de 2020 carregando o peso de uma crise que começou em 2018, quando dezoito mulheres acusaram o fotógrafo franco-sueco Jean-Claude Arnault de agressão e violência sexual. Arnault era casado com Katarina Frostenson, poeta e membro da Academia, e teria usado suas conexões para silenciar as vítimas ao longo de uma década. O escândalo provocou uma debandada: oito membros deixaram a instituição, incluindo a secretária permanente Sara Danius, deixando-a abaixo do quórum mínimo exigido por lei. O Nobel de 2018 foi cancelado. Arnault foi condenado a dois anos de prisão por estupro.
Quando a Academia se recompôs, em 2019, anunciou dois prêmios de uma vez. A escolha de Olga Tokarczuk, escritora polonesa feminista, foi bem recebida. A de Peter Handke, não. O austríaco havia apoiado fervorosamente Slobodan Milošević, discursando em seu velório — o mesmo ditador responsável pelo massacre de mais de oito mil pessoas em Srebrenica. Uma petição contra o prêmio reuniu vinte mil assinaturas em vinte e quatro horas. Sobreviventes protestaram em Estocolmo com bandeiras bósnias. Até o presidente turco Erdoğan se manifestou contra a decisão.
Antes disso, em 2016, a premiação de Bob Dylan já havia dividido opiniões. Muitos não aceitaram que um compositor recebesse um prêmio reservado historicamente a escritores. Philip Roth, que morreu sem ganhar o Nobel, ironizou: 'Tudo bem, mas ano que vem espero que Peter, Paul e Mary ganhem.' Dylan demorou duas semanas para reagir, não compareceu à cerimônia e só retirou o prêmio em dinheiro meses depois.
Em 2020, a Academia enfrentava ainda a pressão por diversidade: em 119 anos, apenas três negros e quinze mulheres venceram o prêmio. Três escritoras figuravam entre os favoritos. A normalidade que a instituição buscava era, portanto, um equilíbrio frágil — entre a tradição que a fundou e as exigências de um mundo que não estava mais disposto a olhar para o outro lado.
A Academia Sueca se preparava para anunciar o Nobel de Literatura de 2020 numa quinta-feira de outubro, esperando finalmente deixar para trás três anos de crises que abalaram a reputação de uma das instituições mais prestigiosas do mundo. Mas a normalidade que buscava era relativa: qualquer escolha polêmica poderia reanimar as feridas ainda abertas.
Tudo começou em 2018, quando a Academia enfrentou seu maior escândalo. O fotógrafo franco-sueco Jean-Claude Arnault foi acusado por dezoito mulheres de agressão, assédio e violência sexual. Arnault era casado com Katarina Frostenson, poeta que ocupava um dos dezoito assentos da Academia e exercia influência nos bastidores do prêmio. As denunciantes afirmavam que ele usava suas conexões para explorar e humilhar mulheres, especialmente jovens, silenciando-as em seguida. A maioria dos abusos teria ocorrido entre 1997 e 2007 nas dependências da Academia em Estocolmo e em apartamentos luxuosos que mantinha em Paris. Katarina também foi acusada de vazar repetidamente o resultado do Nobel desde 1996.
O escândalo provocou uma reação em cadeia. Três acadêmicos renunciaram em abril de 2019 após a instituição se recusar a expulsar Katarina. A secretária permanente Sara Danius se afastou dias depois. Outras duas acadêmicas também deixaram seus cargos. Como os assentos eram vitalícios e não podiam ser preenchidos, a Academia perdeu oito membros. Isso deixou a instituição com apenas dez integrantes, quando a lei exigia no mínimo doze para validar uma votação. O resultado: o Nobel de Literatura de 2018 não foi anunciado naquele ano. A Academia declarou que precisava recuperar a confiança pública antes de premiar outro escritor. Em outubro de 2018, a Justiça sueca condenou Arnault a dois anos de prisão por estupro. Katarina deixou a Academia em janeiro de 2019.
Quando a Academia finalmente se recompôs, em outubro de 2019, anunciou dois prêmios: Olga Tokarczuk, escritora polonesa feminista e crítica do autoritarismo, e Peter Handke, austríaco conhecido por colaborações com o cineasta Wim Wenders. A escolha de Tokarczuk pareceu selar as pazes. A de Handke abriu outra ferida. O austríaco havia apoiado fervorosamente Slobodan Milošević, ditador sérvio acusado de genocídio, e discursou em seu velório. Milošević massacrou croatas e bósnios muçulmanos durante a desintegração da Iugoslávia nos anos 1990 e morreu em 2006 numa prisão da ONU. Uma petição online contra o prêmio reuniu mais de vinte mil assinaturas em vinte e quatro horas. A associação Mães de Srebrenica, formada por vítimas de Milošević, pediu que a Academia se retratasse. Srebrenica era a cidade onde mais de oito mil meninos e homens foram mortos em 1995. No dia da cerimônia, entre quinhentas e mil pessoas protestaram no centro de Estocolmo com bandeiras bósnias. Até o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan protestou, chamando a escolha de recompensa às violações dos direitos humanos.
Mas havia ainda uma terceira polêmica, anterior. Em 2016, a Academia premiou Bob Dylan, compositor americano, "por criar novas expressões poéticas na tradicional canção americana". Dylan havia publicado dois livros — a coletânea de poesia experimental Tarântula e a autobiografia Crônicas — mas muita gente não aceitou que um compositor ganhasse um prêmio tradicionalmente reservado a escritores. O escritor Alberto Mussa afirmou que era "lamentável, porque um romancista nunca vai ganhar um prêmio de música". Philip Roth, que morreu em 2018 sem receber seu merecido Nobel, respondeu com sarcasmo: "Tudo bem, mas ano que vem eu espero que Peter, Paul e Mary ganhem", referindo-se ao trio folk americano. A tirada só foi revelada após sua morte. Dylan demorou duas semanas para se pronunciar e disse que pretendia comparecer à cerimônia. Não compareceu, alegando "outros compromissos", e foi representado por Patti Smith, que cantou uma de suas músicas mais famosas. O compositor só recebeu o prêmio em dinheiro — equivalente a 2,8 milhões de reais à época — em abril de 2017.
A Academia Sueca enfrentava agora uma pressão adicional: em cento e dezenove anos de história, apenas três negros e quinze mulheres haviam vencido o prêmio. Três escritoras estavam entre os favoritos nas casas de aposta para 2020. Se os suecos escolhessem alguém com opiniões controversas, a internet se mobilizaria. Se premiassem mais um europeu ou americano branco despreocupado com problemas sociais, pareceria insensível num ano marcado pela ascensão das lutas antirracistas. A normalidade que a Academia buscava era, portanto, um equilíbrio delicado entre a tradição e as expectativas de um mundo que havia mudado.
Citas Notables
Letra de música também é arte da palavra, mas existem muitos prêmios para a música, e acho que, tradicionalmente, se separam as coisas. A literatura é a linguagem que tem menos visibilidade.— Alberto Mussa, escritor, sobre a escolha de Bob Dylan
Entregar o Prêmio Nobel de Literatura no dia dos direitos humanos a um personagem que nega o genocídio na Bósnia-Herzegovina é como recompensar violações dos direitos humanos.— Recep Tayyip Erdoğan, presidente da Turquia, sobre Peter Handke
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a Academia Sueca perdeu tantos membros de uma vez? Não havia um processo para lidar com isso?
Os assentos são vitalícios. Quando alguém renuncia, o lugar fica vazio para sempre. Então a instituição simplesmente encolheu de dezoito para dez pessoas.
E isso impediu que escolhessem um vencedor em 2018?
Exatamente. A lei exige no mínimo doze acadêmicos para validar a votação. Com dez, era impossível. Então o prêmio simplesmente não foi entregue.
Parece que a Academia tentou se redimir com Olga Tokarczuk em 2019.
Sim, ela era uma escolha segura — feminista, crítica do autoritarismo, tudo que a Academia precisava para recuperar credibilidade. Mas aí escolheram Handke também.
E Handke tinha essas ligações com um ditador?
Não apenas ligações. Ele apoiou Milošević publicamente, foi condecorado por ele, discursou em seu velório. Para muita gente, era indefensável.
Mais de oito mil pessoas foram mortas em Srebrenica. Como a Academia não viu isso vindo?
Talvez tenha visto e escolhido ignorar. A Academia insistiu que Handke não era um escritor político, que o prêmio era pela obra literária. Mas ninguém acreditou.
E Dylan? Por que um compositor ganhou um prêmio de literatura?
Porque ele escreveu livros também, tecnicamente. Mas a questão real era: por que tirar a oportunidade de um romancista ou poeta que nunca ganharia um prêmio de música?