Os tanques suecos eram alvos fáceis depois de detetados a partir do ar
Gotland, a 300 km de Kaliningrada, é descrita como um 'porta-aviões inafundável' cuja localização central no Báltico a torna crucial para a segurança da NATO. A Suécia investiu mais de 200 milhões de euros na modernização de infraestruturas e atualmente tem 4500 militares na ilha, com planos para aumentar presença e instalar sistemas de defesa aérea.
- Gotland fica a 300 km de Kaliningrada, o exclave russo militarizado
- A Suécia investiu mais de 200 milhões de euros na modernização de infraestruturas da ilha
- 18 mil militares de 13 países participaram no exercício Aurora 26
- Atualmente 4500 militares estão em Gotland, com planos para adicionar mais mil
- Nos últimos 18 meses, a ilha sofreu sabotagem, corte de cabos submarinos e interferências de rádio
A NATO acelera o reforço militar de Gotland, ilha sueca estratégica no Báltico, com exercícios envolvendo 18 mil militares de 13 países, enquanto enfrenta ameaças híbridas russas e incertezas sobre apoio americano.
Gotland não parece à primeira vista um lugar que justifique a atenção de uma aliança militar global. É uma ilha sueca no Báltico, relativamente pequena, com paisagem de pinhais e rochedos. Mas para os estrategas da NATO, Gotland é algo muito diferente: uma posição de poder que poderia determinar quem controla toda uma região. Fica a cerca de 300 quilómetros de Kaliningrada, o exclave russo fortemente armado entre a Polónia e a Lituânia, e ocupa o centro do Báltico de forma que qualquer força aérea baseada ali consegue alcançar as capitais dos Estados bálticos em minutos. Os militares chamam-lhe um "porta-aviões inafundável". A NATO, que vê Gotland como uma das suas linhas da frente mais expostas num eventual confronto futuro com a Rússia, está agora a acelerar o reforço da ilha.
Em junho de 2026, a Suécia — que aderiu à NATO apenas dois anos antes — realizou o seu primeiro grande exercício militar em Gotland desde essa adesão. O exercício Aurora 26 reuniu 18 mil militares de 13 países: forças suecas, canadianas e dinamarquesas, caças F-18 finlandeses, atiradores britânicos, fuzileiros norte-americanos e noruegueses, helicópteros holandeses. O objetivo era testar como a NATO responderia a um ataque russo. O exercício revelou tanto o que a Aliança consegue fazer como aquilo em que ainda falha.
A Suécia tem investido seriamente em Gotland. Nos últimos anos, reverteu décadas de desinvestimento militar que tinham deixado a ilha quase desprotegida. Estocolmo gastou mais de 200 milhões de euros na modernização de infraestruturas, reativou sistemas de defesa aérea e estabeleceu um regimento equipado com veículos blindados CV90 e tanques Leopard 2. Atualmente, cerca de 4500 militares estão na ilha, com planos para adicionar pelo menos mais mil elementos em rotação no próximo ano. Sistemas de defesa aérea IRIS-T de médio alcance deverão chegar a partir de 2028. Se a Rússia conseguisse tomar Gotland, poderia instalar defesas aéreas que perturbassem as linhas de abastecimento da NATO e atrasassem o envio de reforços para a região. Enquanto a NATO mantiver a ilha, pode restringir o acesso russo ao Báltico e usar-a como base para operações defensivas de maior alcance.
Mas Gotland enfrenta ameaças que não aparecem nos mapas militares tradicionais. Nos últimos 18 meses, a ilha sofreu uma fuga súbita de água após sabotagem de uma bomba crítica, o corte de um cabo submarino de fibra ótica e interferências de rádio repetidas que afetaram aviões, ambulâncias e outros serviços. As autoridades suecas acreditam que estes incidentes fazem parte de um padrão russo de sondagem de vulnerabilidades e criação de incerteza — operações na zona cinzenta entre a paz e a guerra aberta, envolvendo drones, sabotagem, espionagem, ciberataques, desinformação e ataques a infraestruturas críticas. Os responsáveis militares e civis estão particularmente preocupados com estas ameaças híbridas, que são difíceis de responder sem desencadear uma resposta militar convencional.
O exercício Aurora 26 trouxe também uma lição inesperada. Uma pequena unidade ucraniana participante nas manobras derrotou repetidamente forças blindadas suecas, obrigando à repetição de partes do exercício. Os carros de combate suecos eram alvos fáceis depois de detetados a partir do ar por drones. Um responsável militar ucraniano afirmou que as forças suecas têm muito a aprender sobre guerra com drones — um campo em que a Ucrânia se tornou especialista. O comandante do regimento de Gotland, Andreas Gustafsson, reconheceu que a experiência mostrou a necessidade de muito mais treino com drones.
Há também a questão do apoio americano. Washington reduziu o número de militares no exercício em Gotland, embora 300 soldados norte-americanos tenham participado. Oficiais dos EUA afirmaram que os níveis de participação variam frequentemente e que a cooperação com as forças suecas se mantém forte. Mas a incerteza sobre o futuro compromisso americano com a segurança europeia paira sobre tudo. A Suécia é um dos membros da NATO que mais gasta em defesa — 2,5% do PIB — e tem uma indústria nacional de armamento significativa. Ainda assim, continua dependente de Washington em sistemas críticos, incluindo mísseis Patriot PAC-3 e apoio logístico.
As autoridades civis de Gotland também se estão a preparar. Reúnem agora semanalmente com a guarda costeira, a polícia, os bombeiros, o exército, o hospital e os operadores de energia e água para planear respostas a cenários que incluem escassez energética, bloqueios de abastecimento e ataques a infraestruturas locais. Apesar de todas estas iniciativas, alguns diplomatas da NATO defendem que a Aliança deve ir mais longe, instalando permanentemente sistemas de defesa aérea de longo alcance na ilha. Gotland está a transformar-se numa fortaleza, mas ainda está longe de ser inexpugnável.
Citações Notáveis
Os carros de combate suecos eram alvos fáceis depois de detetados a partir do ar— Responsável militar ucraniano durante o exercício Aurora 26
A experiência mostrou que as forças suecas têm de treinar muito mais com drones— Andreas Gustafsson, comandante do regimento de Gotland
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que uma ilha sueca no meio do Báltico importa tanto à NATO?
Porque controla o acesso a toda a região. Se a Rússia a tomar, pode bloquear as rotas de abastecimento da NATO para os Estados bálticos e a Finlândia. Se a NATO a mantiver, consegue fazer o oposto — restringir a Rússia.
Mas a Suécia não é um país pequeno. Porque é que precisa de tanta ajuda?
A Suécia gasta muito em defesa, é verdade. Mas Gotland é uma posição tão importante que uma única ilha não consegue defender-se sozinha. Precisa de aliados, de sistemas de defesa sofisticados, de coordenação constante.
O exercício mostrou que as forças suecas foram derrotadas por drones ucranianos. Isso não é preocupante?
É muito preocupante. Significa que a guerra mudou de forma fundamental. Os tanques e os veículos blindados que a Suécia tem — que custaram milhões — podem ser destruídos por um drone que custa uma fração disso. Os militares sueco ainda estão a aprender essa lição.
E as ameaças híbridas? A sabotagem, os ciberataques?
São talvez mais perigosas do que um ataque militar direto, porque não há uma resposta clara. Se a Rússia corta um cabo submarino, é guerra? Se interfere nas comunicações, é um ato de agressão? Fica-se numa zona cinzenta onde é difícil responder sem escalar.
Os americanos parecem estar menos interessados. Isso muda tudo?
Muda, sim. A Suécia pode gastar o que quiser em defesa, mas sem o apoio logístico e os sistemas de armas americanos, fica vulnerável. É essa a realidade da NATO — a Europa depende ainda muito de Washington.