Documentou a vida real das pessoas que viviam à margem, com dignidade
Quase cinquenta anos depois de entrar numa sala em Boston com fotografias que a América conservadora não sabia como receber, Nan Goldin é homenageada na 12.ª edição do Multiplex da Universidade Lusófona do Porto. A honraria reconhece uma artista que escolheu documentar os invisíveis — drag queens, comunidades queer, vidas devastadas pelo HIV — com dignidade e sem julgamento, transformando a câmera num instrumento de resistência e de amor. O que a sociedade de 1973 recusou nomear como honra, o tempo e a história finalmente reconhecem.
- Uma artista que começou à margem da aceitação social recebe, meio século depois, o reconhecimento institucional que sua obra sempre mereceu.
- A tensão entre o que Goldin fotografou e o que a cultura dominante queria ver criou um arquivo visual de pessoas e momentos que a história oficial preferia apagar.
- A epidemia de HIV devastou as comunidades que ela documentava, tornando seu trabalho não apenas arte, mas testemunho de uma perda coletiva irreparável.
- Goldin continua a desafiar a ideia de obra fechada, remontando e recontextualizando suas imagens para que a memória siga viva e em transformação.
- A homenagem em Portugal sublinha como o impacto de seu trabalho transcendeu fronteiras culturais e geracionais, consolidando-a como referência incontornável da fotografia contemporânea.
Em 1973, Nan Goldin entrou numa sala em Boston com fotografias de drag queens radiantes. A América conservadora não sabia o que fazer com elas. O país saía do movimento hippie e ainda cultuava heróis à moda antiga — e o que Goldin oferecia era outra coisa inteiramente: a vida real das pessoas que viviam à margem, documentada com dignidade e sem filtro.
Quase cinquenta anos depois, a fotógrafa norte-americana — nascida em 1953, filha de pais judeus de classe média — recebe uma honraria na 12.ª edição do Multiplex, iniciativa da Universidade Lusófona do Porto. O reconhecimento chega tarde, mas chega com peso. Goldin tornou-se uma das artistas vivas mais influentes de sua geração precisamente porque fez o que a sociedade de então não esperava: tornou imortais aqueles que a cultura dominante preferia esquecer.
Sua obra é um arquivo da perda. Amigos, amantes, comunidades inteiras devastadas pela epidemia de HIV nos anos 1980 e 1990 — Goldin fotografou o que estava ali, o que era verdadeiro, enquanto o mundo olhava para outro lado. Suas imagens de mulheres trans, homens gays e artistas vivendo suas vidas tornaram-se testemunho visual de uma época e de pessoas que a história oficial apagou.
O que torna seu trabalho particularmente notável é a recusa em deixar a obra estática. Através da remontagem de fotografias — reorganizando, recontextualizando, recombinando imagens —, Goldin faz a memória trabalhar de novo. Não é nostalgia: é transformação. Ela própria admite que sempre quis ser cineasta, e essa tensão entre o fixo e o móvel, entre o instante congelado e a narrativa em fluxo, atravessa tudo o que cria.
O que a Universidade Lusófona do Porto reconhece agora é uma artista que fez da câmera um instrumento de resistência e de amor. A palavra honra — que a sociedade de 1973 jamais teria associado àquelas primeiras imagens — finalmente faz sentido.
Nan Goldin entrou em uma sala em Boston em 1973 com fotografias de drag queens radiantes, e a América conservadora não sabia o que fazer com elas. Estávamos saindo do movimento hippie, entrando numa era de reorganização dos códigos tradicionais, e a sociedade esperava heróis à moda antiga — John Wayne, veteranos do Vietname, os mitos que Hollywood ainda cultivava. Honra, naquele contexto, significava uma coisa muito específica. Não era o que Goldin estava oferecendo.
Quase cinquenta anos depois, a fotógrafa norte-americana — nascida em 1953, filha de pais judeus de classe média — recebe uma honraria na 12.ª edição do Multiplex, iniciativa da Universidade Lusófona do Porto. O reconhecimento chega tarde, mas chega. Goldin tornou-se uma das artistas vivas mais influentes de sua geração, referência para quantos vieram depois, precisamente porque fez algo que a sociedade de 1973 não esperava: documentou a vida real das pessoas que viviam à margem, com dignidade, sem julgamento, sem filtro.
Sua obra é um arquivo da perda. Não apenas a perda de pessoas — amigos, amantes, comunidades inteiras devastadas pela epidemia de HIV nos anos 1980 e 1990 — mas também a perda de momentos, de intimidade, de formas de estar no mundo que desapareceram. Goldin fotografou o que estava ali, o que era verdadeiro, enquanto a cultura dominante olhava para outro lado. Suas imagens de mulheres trans, de homens gays, de artistas e músicos vivendo suas vidas, tornaram-se um testemunho visual de uma época e de pessoas que a história oficial preferia esquecer.
O que torna seu trabalho particularmente notável é como ela continua a reinventar sua própria obra. Através da remontagem de suas fotografias — reorganizando, recontextualizando, recombinando imagens — Goldin encontrou uma forma de lidar com a perda que é simultaneamente pessoal e coletiva. Não é nostalgia. É um processo de transformação, de fazer a memória trabalhar de novo, de permitir que as imagens falem de formas novas.
Em conversa sobre sua trajetória, Goldin é clara sobre uma coisa: sempre quis ser cineasta. Sempre gostou mais de cinema do que de fotografia. A fotografia foi, de certa forma, um acidente — ou talvez uma necessidade. Mas essa tensão entre os dois meios, entre o fixo e o móvel, entre o instante congelado e a narrativa em fluxo, permeia tudo o que faz. Suas fotografias têm a qualidade de fotogramas; seus filmes têm a intimidade de uma série de retratos.
O que a Universidade Lusófona do Porto reconhece agora é precisamente isso: uma artista que não apenas documentou seu tempo, mas que transformou a documentação em arte, que fez da câmera um instrumento de resistência e de amor. Goldin fotografou pessoas que a sociedade havia descartado e as tornou imortais. Cinquenta anos depois, essa honra — a palavra que a sociedade de 1973 nunca teria associado àquelas primeiras imagens de drag queens — finalmente faz sentido.
Citações Notáveis
Sempre quis ser cineasta, sempre gostei mais de cinema do que de fotografia— Nan Goldin
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Quando você olha para aquelas primeiras fotografias de 1973, o que vê?
Vejo coragem, mas também ingenuidade. Não sabia que estava fazendo algo radical. Estava apenas fotografando meus amigos, pessoas que amava.
A sociedade americana daquela época não estava pronta para isso.
Não estava. Mas havia uma urgência em documentar, em dizer: estas pessoas existem, importam, merecem ser vistas.
Há uma diferença entre fotografia e cinema que parece importante para você.
Sempre senti que o cinema era meu verdadeiro desejo. A fotografia captura um momento; o cinema permite que o tempo respire, que a narrativa se desenvolva.
E a remontagem das suas fotografias agora — é uma forma de aproximar-se desse desejo?
Sim. É como se estivesse a reconstruir o tempo, a permitir que as imagens conversem umas com as outras de formas novas.