Seu silêncio no tribunal significou o arquivamento do processo
Lucimar Freitas registrou quatro ocorrências de violência doméstica contra ex-marido que a ameaçava de morte, mas desistiu do processo em 2018. Márcio de Oliveira Vicente foi preso em flagrante pelo duplo homicídio de Lucimar e sua filha Adriana, que também foi esfaqueada.
- Lucimar registrou quatro ocorrências de violência doméstica entre 2015 e 2017
- Processo foi arquivado em agosto de 2018 quando Lucimar desistiu de prosseguir
- Márcio de Oliveira Vicente preso em flagrante pelo duplo homicídio
- Calça com mancha de sangue encontrada na residência do suspeito em Sapinhatuba
Garçonete de 46 anos foi morta a facadas por ex-namorado em Angra dos Reis após sofrer agressões e ameaças de morte do ex-marido entre 2015 e 2017. Processo foi arquivado quando vítima desistiu de prosseguir.
Na tarde de quarta-feira, 3 de novembro, Lucimar Freitas da Silva Vasconcelos, garçonete de 46 anos, foi morta a facadas em Angra dos Reis por Márcio de Oliveira Vicente, um ex-namorado. Sua filha, Adriana Vasconcelos da Silva, técnica de enfermagem, também foi esfaqueada e morreu. Os dois corpos seriam enterrados no Cemitério do Bracuí, na Costa Verde fluminense. O que os registros policiais revelam é uma história de violência que precedeu o crime em anos — uma sequência de agressões, ameaças de morte e, no final, um processo abandonado.
Entre 2015 e 2017, Lucimar procurou a polícia quatro vezes. Ela denunciava Paulo Henrique Vasconcelos, seu ex-marido, por ameaças e agressões físicas. Segundo seus depoimentos à Delegacia de Atendimento a Mulher e à 166ª DP de Angra dos Reis, ele a ameaçava desde 2014, dizendo que a mataria porque ela não dormia mais com ele. Em 11 de novembro de 2015, ela registrou ter sido agredida. Quase um ano depois, em 10 de julho de 2016, durante uma festa junina na Rodovia Governador Mario Covas, Paulo Henrique a agrediu novamente — socos no rosto, chutes nas pernas — e depois a ameaçou: "Vou dar cinco tiros na sua cara".
A filha testemunhou parte dessa violência. Em depoimento, Adriana contou que o pai havia dito a ela: "Se a sua mãe colocar homem dentro de casa, eu vou matar ela". Paulo Henrique quebrou o portão da casa onde a família vivia e agrediu Lucimar mais uma vez. Quando questionado, ele optou por ficar em silêncio.
Em agosto de 2018, o caso chegou ao julgamento. Lucimar compareceu, mas se recusou a prosseguir. Seu silêncio no tribunal significou o arquivamento do processo. Paulo Henrique foi absolvido. Adriana, que havia testemunhado a agressão da mãe, viu o homem que a ameaçava sair impune.
Três anos depois, Márcio de Oliveira Vicente matou as duas. Ele foi preso em flagrante. Quando abordado pela polícia, negou envolvimento no crime. Disse que o ferimento cortante em seu dedo indicador direito era resultado de um acidente — teria cortado a mão com uma faca enquanto cortava cana em um sítio na Sapinhatuba no dia anterior. Quando perguntado sobre seu celular, que poderia ajudar nas investigações, respondeu que o aparelho estava em manutenção.
Os policiais foram à casa de Márcio, um quarto dentro de um complexo de casas tipo cortiço na comunidade Sapinhatuba I. O local tinha poucos móveis, apenas roupas e objetos pessoais. Entre as peças de roupa, encontraram uma calça jeans comprida que estava úmida. Márcio confirmou que era sua. Na perna esquerda da calça havia uma mancha avermelhada, compatível com sangue. As investigações continuam em andamento, mas as evidências já apontam para uma conclusão que os registros de violência doméstica de anos atrás já sugeriam: que Lucimar e Adriana estavam em risco, e que ninguém conseguiu impedi-lo.
Citações Notáveis
Vou dar cinco tiros na sua cara— Paulo Henrique Vasconcelos, ex-marido de Lucimar, durante agressão em julho de 2016
Se a sua mãe colocar homem dentro de casa, eu vou matar ela— Paulo Henrique Vasconcelos, conforme testemunho da filha Adriana
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o processo contra Paulo Henrique foi arquivado se havia quatro registros de agressão?
Lucimar desistiu de prosseguir no julgamento em 2018. Ela compareceu, mas se recusou a continuar. Sem sua disposição em testemunhar, o caso não pôde avançar e ele foi absolvido.
E a filha, que havia testemunhado as agressões?
Adriana testemunhou contra o pai no processo, mas a desistência da mãe foi determinante. O sistema depende muito da vítima estar disposta a levar adiante a denúncia.
O que mudou entre 2018 e o crime em 2021?
Não sabemos exatamente. Mas Márcio de Oliveira Vicente, um ex-namorado de Lucimar, foi quem a matou. Talvez a absolvição de Paulo Henrique tenha deixado Lucimar ainda mais vulnerável, sem proteção legal.
Como a polícia conectou Márcio ao crime?
Ele foi preso em flagrante. Tinha um ferimento cortante no dedo. Sua explicação sobre um acidente com faca não convenceu. Depois encontraram uma calça dele com mancha de sangue.
Ele confessou?
Não. Negou envolvimento. Também se recusou a fornecer seu celular para investigação, dizendo que estava em manutenção. Mas as evidências físicas falam por si.
Qual é a lição aqui?
Que a violência doméstica não termina quando um processo é arquivado. Lucimar denunciou, mas quando desistiu, ficou desprotegida. E sua filha pagou o preço junto com ela.