Mulher com lúpus realiza sonho de maternidade em duas gestações de alto risco

Mulheres com lúpus enfrentam riscos significativos de complicações maternas e fetais, incluindo pré-eclâmpsia, trombose, perda renal e morte fetal, exigindo cuidados especializados.
Quero ter meus filhos enquanto ainda sou nova e vou tomar todos os cuidados
Adriana decidiu desafiar os prognósticos médicos e engravidar apesar do diagnóstico de lúpus.

O lúpus é doença autoimune crônica que pode afetar múltiplos órgãos e representa risco significativo durante a gravidez, exigindo monitoramento intenso. Há 30 anos, mulheres com lúpus eram desencorajadas a engravidar; hoje, medicamentos mais seguros e protocolos multidisciplinares permitem gestações bem-sucedidas.

  • Adriana diagnosticada com lúpus aos 20 anos
  • Teve dois filhos: Arthur (28 anos) e Ana Catarina (27 anos)
  • Gestações exigiram monitoramento intenso com ultrassonografias mensais
  • Há 30 anos, mulheres com lúpus eram desencorajadas a engravidar
  • Doença deve estar controlada por 6-12 meses antes da concepção

Adriana foi diagnosticada com lúpus aos 20 anos e contrariou prognósticos médicos ao ter dois filhos com sucesso, demonstrando que gestações de alto risco são possíveis com acompanhamento adequado.

Aos 20 anos, Adriana Conceição de Torres Magalhães recebeu um diagnóstico que parecia encerrar muitos dos seus planos de vida. O lúpus eritematoso sistêmico, uma doença autoimune crônica, havia se instalado em seu corpo com força: emagrecimento acelerado, queda de cabelo, dores articulares intensas e um cansaço que a deixava imobilizada. "Parecia que eu tinha sido atropelada", ela recorda daqueles primeiros meses.

A servidora pública e contadora, moradora do Gama e natural de Brasília, passou quase três anos procurando respostas. Sem plano de saúde, dependia das consultas em hospitais públicos do Distrito Federal até conseguir atendimento particular por indicação de uma tia. Foi durante uma investigação dermatológica, após o surgimento de manchas avermelhadas no rosto — o chamado "rash malar" ou "asa de borboleta" — que veio a confirmação. "Quando o médico falou que era lúpus, eu não fazia ideia do que era. Naquele momento, chorei de medo", conta.

Na época em que Adriana recebeu o diagnóstico, há cerca de três décadas, as orientações médicas eram claras e desanimadoras: mulheres com lúpus deveriam evitar a gravidez. Os riscos eram reais e os tratamentos disponíveis — principalmente corticoides em altas doses — causavam efeitos adversos significativos. Mas Adriana nunca abandonou o sonho da maternidade. "Eu pensava: 'Quero ter meus filhos enquanto ainda sou nova e vou tomar todos os cuidados que os médicos mandarem'", relembra. Poucos meses depois, descobriu a primeira gravidez.

Arthur nasceu em 26 de setembro, data dedicada a São Cosme e Damião, santos aos quais Adriana diz ter recorrido em oração durante todo o processo. A gestação exigiu monitoramento intenso: ultrassonografias mensais e acompanhamento conjunto entre reumatologista e obstetra. O maior medo era que o bebê tivesse má-formação ou que a doença provocasse abortos espontâneos. "Naquela época, muita gente dizia que eu era corajosa por engravidar tomando tantos remédios", relembra. Depois viria Ana Catarina, sua segunda filha. Hoje, aos 55 anos, Adriana vê seus dois filhos — Arthur com 28 anos e Ana Catarina com 27 — e reconhece que contrariou os prognósticos médicos que a desestimulavam.

O lúpus é uma doença inflamatória em que o sistema imunológico passa a atacar o próprio organismo, podendo atingir pele, articulações, rins, coração, pulmões e vasos sanguíneos. Segundo Flora Maria Marcolino, reumatologista e chefe da equipe de Retaguarda de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês, durante a gestação as alterações hormonais e imunológicas podem desencadear atividade da doença e aumentar riscos tanto para a mãe quanto para o bebê. As complicações maternas mais frequentes incluem pré-eclâmpsia, trombose venosa, piora da nefrite lúpica, perda da função renal, crises inflamatórias, parto prematuro e restrição do crescimento do bebê. Algumas pacientes apresentam anticorpos específicos associados ao risco de lúpus neonatal.

O cenário mudou significativamente nas últimas décadas. Hoje existem protocolos nacionais e internacionais, além de medicamentos mais seguros — como a hidroxicloroquina, corticosteroides em doses controladas e imunossupressores como a azatioprina — que permitem um melhor controle da doença durante a gravidez. Flora reforça que o ideal é que a mulher esteja com a doença controlada por pelo menos seis a 12 meses antes da concepção e que o acompanhamento seja multidisciplinar e contínuo.

Hoje, aos 55 anos, Adriana aprendeu a reconhecer os sinais do próprio corpo e adaptar sua rotina para evitar crises. Mantém acompanhamento com reumatologista, cardiologista, nutricionista, psicóloga, psiquiatra e dermatologista. Evita exposição solar intensa, faz atividade física e segue rigorosamente o tratamento medicamentoso. "Os médicos me ensinaram a entender meu corpo. Quando percebo um cansaço diferente ou dores mais profundas, desacelero e procuro ajuda", explica. Para Flora, o principal alerta é que nenhuma mulher com lúpus deve iniciar uma gravidez sem orientação médica — mas também que o lúpus não precisa impedir a maternidade. Com informação e tratamento adequado, muitas mulheres conseguem viver uma gestação saudável.

Parecia que eu tinha sido atropelada
— Adriana, descrevendo os primeiros sintomas do lúpus
O acompanhamento precisa começar antes da concepção e continuar durante toda a gestação. Planejamento, estabilidade da doença e monitoramento multidisciplinar são fundamentais para reduzir riscos
— Flora Maria Marcolino, reumatologista
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o lúpus era considerado uma barreira tão intransponível para a maternidade há 30 anos?

Model

Os medicamentos disponíveis na época — principalmente corticoides em altas doses — causavam efeitos adversos graves. Não havia alternativas seguras. Os médicos simplesmente não sabiam como proteger nem a mãe nem o bebê.

Inventor

O que mudou?

Model

Surgiram medicamentos mais seguros e protocolos que permitem controlar a doença sem prejudicar a gravidez. Mas a mudança mais importante foi reconhecer que uma gestação bem planejada e monitorada é possível.

Inventor

Adriana ouviu que não poderia engravidar. Como ela encontrou coragem para desafiar isso?

Model

Ela tinha 20 anos e queria ser mãe enquanto era jovem. Decidiu que tomaria todos os cuidados que os médicos mandassem. Era um ato de fé e determinação ao mesmo tempo.

Inventor

Qual era o maior risco que ela enfrentava?

Model

Má-formação do bebê, abortos espontâneos, complicações maternas graves como pré-eclâmpsia. Cada ultrassom era uma incerteza. Mas o acompanhamento intenso — reumatologista e obstetra juntos — reduzia esses riscos.

Inventor

E hoje, qual é a mensagem para outras mulheres com lúpus que querem ser mães?

Model

Que é possível, mas não sozinhas. Planejamento, controle da doença, medicamentos adequados e uma equipe multidisciplinar são fundamentais. O lúpus não precisa ser o fim do sonho.

Contact Us FAQ