Cordialidade diplomática que não apagava uma tensão crescente
Em meio à designação americana do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas globais, Brasil e Estados Unidos sentaram-se à mesa no Peru para discutir os contornos de uma possível cooperação no combate ao narcotráfico. O ministro José Múcio acolheu o diálogo com cautela, lembrando que a soberania brasileira impõe limites claros a qualquer parceria estrangeira em matéria de segurança interna. O que poderia ser um gesto de alinhamento tornou-se, em poucos dias, um campo minado diplomático — quando o próprio Itamaraty admitiu, em documento oficial, o risco de ação militar americana em solo brasileiro.
- Os EUA classificaram CV e PCC como terroristas globais em junho e já aplicaram sanções econômicas contra brasileiros e empresas ligadas ao PCC, escalando a pressão sobre o Brasil.
- O ministro Múcio reuniu-se com assessor americano no Peru, sinalizando abertura à cooperação, mas frisando que o combate ao tráfico é prerrogativa soberana do Brasil.
- O Itamaraty acendeu um alarme ao citar, em documento enviado ao Congresso, o risco de intervenção militar americana — declaração que vazou e provocou reação imediata de Washington.
- O Departamento de Estado americano classificou a avaliação brasileira de 'absurda', negando qualquer plano de ação militar e reafirmando que age dentro de sua própria legislação.
- A Comissão de Relações Exteriores da Câmara convocou o chanceler Mauro Vieira para prestar esclarecimentos, transformando uma reunião de defesa em crise diplomática bilateral.
José Múcio viajou ao Peru na terça-feira para a Conferência de Ministros de Defesa das Américas, mas o encontro mais significativo da viagem foi bilateral: uma reunião com Evan Colby, principal assessor do secretário de Defesa americano Pete Hegseth. O pedido havia partido dos próprios Estados Unidos, e o contexto era inequívoco.
Em junho, Washington havia oficializado a designação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas estrangeiras — medida anunciada em maio pelo Departamento de Estado e acompanhada de promessas do secretário Marco Rubio de usar 'todas as ferramentas disponíveis' contra os grupos. Dias antes do encontro no Peru, o Departamento do Tesouro já havia aplicado sanções econômicas contra dois brasileiros, três empresas no Brasil e uma empresa portuguesa por supostos vínculos com o PCC.
Na reunião em Lima, os americanos colocaram sobre a mesa a proposta de cooperação no combate ao narcotráfico, apresentando o Brasil como parceiro estratégico em potencial. Múcio demonstrou interesse, mas foi cuidadoso: lembrou que a segurança pública é prerrogativa do Ministério da Justiça e das Forças Armadas brasileiras, e que qualquer parceria teria de respeitar esses limites. A nota oficial descreveu o clima como cordial e com 'convergência de opiniões'.
A cordialidade, porém, durou pouco fora da sala de reuniões. Na semana anterior, o chanceler Mauro Vieira havia enviado à Câmara dos Deputados um documento em que citava, por duas vezes, o risco de ação militar americana no Brasil como consequência da classificação terrorista. Quando o texto vazou, Washington reagiu com irritação: um porta-voz do Departamento de Estado chamou a avaliação de 'absurda' e negou qualquer intenção de intervenção. A Comissão de Relações Exteriores da Câmara, por sua vez, aprovou a convocação de Vieira para esclarecimentos.
O que começou como uma agenda de cooperação transformou-se em um teste sobre os limites da soberania brasileira — e sobre até onde o Brasil está disposto a ir em nome de uma parceria com Washington.
José Múcio chegou ao Peru na terça-feira para participar da Conferência de Ministros de Defesa das Américas, uma reunião bienal que reúne representantes de defesa do continente. Horas antes de embarcar para Cusco, ele havia se encontrado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio da Alvorada. O que se seguiu foi um encontro bilateral que os Estados Unidos havia solicitado: uma conversa entre Múcio e Evan Colby, principal assessor do secretário de Defesa americano Pete Hegseth para assuntos de política de defesa e relações internacionais.
O timing não era casual. Em maio, o Departamento de Estado dos EUA havia anunciado que o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital — duas das facções criminosas mais violentas do Brasil — seriam designadas como "organizações terroristas estrangeiras" e "terroristas globais especialmente designados". A medida entrou em vigor em 5 de junho. Os americanos argumentaram que ambos os grupos comandam milhares de integrantes, são responsáveis por ataques brutais contra policiais e civis, e que sua atuação ultrapassa as fronteiras brasileiras, chegando aos Estados Unidos. O secretário de Estado Marco Rubio havia declarado que o governo Trump usaria "todas as ferramentas disponíveis" para cortar financiamento e recursos desses grupos.
Na reunião em Lima, os EUA trouxeram à pauta exatamente isso: cooperação no combate ao narcotráfico. Segundo nota do Ministério da Defesa brasileiro, os americanos pontuaram que buscam parceiros no continente para essa luta e veem no Brasil um grande parceiro em potencial. Múcio demonstrou interesse, mas deixou claro que o combate ao tráfico é prerrogativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública, citando também algumas iniciativas das Forças Armadas brasileiras nas fronteiras. A nota oficial descreveu o encontro como tendo ocorrido "em clima de cordialidade e com convergência de opiniões".
Mas a cordialidade diplomática não apagava uma tensão crescente. Na semana anterior ao encontro, os EUA haviam formalizado a primeira rodada de sanções econômicas contra o PCC: dois brasileiros, três empresas baseadas no Brasil e uma empresa portuguesa foram alvo de sanções do Departamento do Tesouro americano por suposta ligação com a facção. A escalada era clara.
O que gerou ainda mais fricção foi uma manifestação do Ministério das Relações Exteriores enviada à Câmara dos Deputados. O chanceler Mauro Vieira citou, por duas vezes, o risco de uma ação militar dos Estados Unidos no Brasil após a classificação do CV e PCC como organizações terroristas. A mensagem era uma resposta a um pedido de informações do deputado Evair de Melo sobre as medidas do governo Trump. Quando a declaração vazou, na segunda-feira, gerou reação imediata. Um porta-voz do Departamento de Estado classificou a avaliação do Itamaraty como "absurda", afirmando que os EUA estão adotando medidas com base em sua própria legislação para combater os grupos brasileiros — não planejando intervenção militar.
Mesmo assim, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou a convocação de Mauro Vieira para esclarecimentos. O que começou como uma reunião de defesa no Peru havia se transformado em um ponto de tensão diplomática entre os dois países. Os EUA buscavam parceria e cooperação; o Brasil, enquanto demonstrava interesse, também sinalizava preocupação com os limites dessa cooperação e o que ela poderia significar para sua soberania.
Citações Notáveis
O governo Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e cortar financiamento e recursos de narcoterroristas— Secretário de Estado Marco Rubio
O combate ao narcotráfico no Brasil é prerrogativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública— Ministro José Múcio, em nota do Ministério da Defesa
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que os EUA decidiram classificar essas duas facções como terroristas agora, especificamente?
Porque o alcance delas ultrapassou as fronteiras brasileiras. O PCC e o CV não operam só aqui — o dinheiro, as drogas, a influência chegam aos Estados Unidos. Para Trump, isso é uma ameaça de segurança nacional que justifica ação.
E o Brasil estava preparado para essa classificação?
Não parecia estar. O Itamaraty chegou a alertar para o risco de ação militar americana. Havia preocupação real de que a designação de terrorista fosse um passo para intervenção direta.
Mas Múcio aceitou conversar sobre parceria?
Aceitou, mas com ressalvas. Deixou claro que o combate ao tráfico é responsabilidade do Ministério da Justiça, não da Defesa. Era um jeito de dizer: vocês podem ajudar, mas dentro de certos limites.
Qual é o risco real aqui para o Brasil?
Que a cooperação vire supervisão. Que sanções econômicas se transformem em pressão para ações que o Brasil não quer tomar. Que a parceria seja menos entre iguais e mais entre quem tem poder e quem precisa dele.
E se o Brasil recusar a parceria?
Fica isolado numa questão que os EUA consideram central. Perde influência sobre como a estratégia americana nas Américas vai se desenrolar. É um dilema sem saída fácil.