Morte de menino que comeu lixo simboliza colapso econômico da Venezuela

Menino de 12 anos morreu após ingerir alimento de lixão; mãe faleceu um ano antes por complicações na vesícula; sete filhos vivem em extrema pobreza dependendo de coleta de lixo.
Meu filho morreu após comer lixo, mas também porque os médicos o ignoraram
Rudy Arzolar sobre a morte de seu filho Manuel, que recebeu atendimento inadequado no hospital após ingerir alimento contaminado.

Na Venezuela devastada por uma década de colapso econômico, a morte de Manuel Arzolar, 12 anos, após ingerir alimento encontrado em um lixão, tornou-se símbolo de uma crise que reduziu a economia do país em 75% e empurrou milhões à fome. O menino não morreu apenas pela pobreza — morreu também, segundo sua família, pela indiferença de um sistema hospitalar que não o atendeu a tempo. Sua história condensa, em uma única tragédia doméstica, o que os números da ONU confirmam: 6,5 milhões de venezuelanos passam fome, e famílias inteiras encontraram no lixo não apenas sustento, mas destino.

  • Manuel foi ao lixão com o pai em busca de comida e recicláveis — e voltou envenenado, morrendo quatro horas depois de chegar ao hospital sem receber o tratamento indicado pelos próprios médicos.
  • A família Arzolar perdeu a mãe um ano antes, possivelmente por desnutrição e exposição ao lixão, deixando sete filhos sob os cuidados de um pai que não consegue trabalho nem dinheiro para sementes.
  • Uma vizinha resume a transformação do lugar: antes havia pobreza, mas nunca se viu gente comer lixo — hoje, vender plástico recolhido rende mais do que o salário mínimo de dois dólares por mês.
  • A morte de Manuel comoveu a Venezuela e expôs a negligência hospitalar, mas a prefeitura e o hospital não responderam às perguntas da imprensa.
  • A Fundação Cuidarte passou a apoiar a família após a tragédia, buscando emprego para o pai e sonhando com o dia em que ele possa cultivar suas próprias terras — e os filhos não precisem mais buscar comida no lixo.

Rudy Jose Arzolar Olivero chora há semanas. Seu filho Manuel, de 12 anos, morreu em 7 de abril depois de ingerir algo encontrado num lixão perto de casa, em Caicara de Maturín, no estado de Monagas. O pai, de 47 anos, acredita que o menino poderia ter sido salvo — mas diz que o hospital não deu a atenção necessária.

A família ia ao lixão como tantas outras na região: para coletar recicláveis e também para procurar o que comer. Naquele dia, enquanto Rudy trabalhava, uma das filhas correu gritando que Manuel estava no chão, imóvel. Ana García, enteada de 24 anos, o levou ao hospital, onde fizeram uma lavagem estomacal e indicaram transferência urgente com nova lavagem. Ela transmitiu as orientações médicas, mas conta que os profissionais ignoraram o pedido. Manuel morreu quatro horas depois, em convulsão.

A tragédia pessoal ecoa uma crise coletiva. Entre 2013 e 2021, a economia venezuelana encolheu mais de 75%. Sete milhões de pessoas emigraram. Uma vizinha lembra que antes havia pobreza, mas nunca se via gente comer lixo — hoje, vender plástico recolhido rende mais do que o salário mínimo de cerca de dois dólares mensais. Rudy chegou a recusar um emprego na prefeitura ao perceber que ganharia menos do que já obtinha catando recicláveis.

A esposa de Rudy morreu um ano e quatro meses antes, por complicações na vesícula — ele suspeita que a desnutrição e as condições do lixão também contribuíram. Agora ele cria sozinho sete filhos, entre 8 e 24 anos, sem dinheiro para sementes nem fertilizantes para as terras que possui mas não consegue cultivar.

Segundo relatório da ONU de 2022, ao menos 6,5 milhões de pessoas passam fome na Venezuela, e 4,1% das crianças menores de cinco anos apresentam desnutrição aguda. Após a repercussão da morte de Manuel, a Fundação Cuidarte passou a apoiar a família. Ana sonha que o governo ajude o padrasto a trabalhar suas terras — para que a família possa, enfim, deixar de buscar sustento no lixo.

Rudy Jose Arzolar Olivero passa semanas chorando. Seu filho Manuel, de 12 anos, morreu em 7 de abril depois de ingerir algo que encontrou num lixão perto de casa, na cidade de Caicara de Maturín, no estado de Monagas. O pai, agora com 47 anos, lamenta que o menino poderia estar vivo. "Ele poderia ter sido salvo no hospital, mas não foi bem atendido. Não nos deram atenção", diz ele em sua casa.

Rudy e sua família iam ao lixão como muitos outros naquela região — não apenas para coletar vidro, plástico e ferro para vender por alguns bolívares, mas também para procurar o que comer. "Aqui não tem trabalho", explica. Naquele dia de abril, enquanto Rudy estava no lixão com os filhos, sua filha correu para casa gritando que Manuel estava no chão, imóvel, possivelmente envenenado. A morte do menino comoveu a Venezuela inteira porque ela resume, em uma tragédia pessoal, o colapso econômico que devasta o país há uma década.

Entre 2013 e 2021, a economia venezuelana encolheu mais de 75%. Sete milhões de pessoas emigraram — um quarto da população total. Uma vizinha do menino que morreu observa a transformação: "Antes, havia pobreza, mas nunca tinha visto gente comendo lixo. A gente se mantinha com agricultura e trabalho. Agora, é mais rentável ir ao lixão e vender plástico do que trabalhar por um salário de 45 bolívares, cerca de dois dólares por mês." Rudy mesmo recusou um emprego na prefeitura quando percebeu que ganharia apenas dois dólares mensais — menos do que conseguia recolhendo recicláveis.

Embora a economia tenha crescido no último ano, essa melhora não chegou aos setores mais pobres. O Observatório Venezuelano de Finanças registrou uma contração de 8,3% da atividade econômica no primeiro trimestre de 2023 em relação ao mesmo período do ano anterior. Rudy, que era agricultor, tem terras mas não consegue plantá-las. "Não tenho dinheiro para comprar sementes nem fertilizantes", diz. Agora atua como "pai e mãe" de sete filhos com idades entre 8 e 24 anos. Sua esposa, Katiuska, morreu um ano e quatro meses antes, por complicações na vesícula — Rudy suspeita que também foi consequência da desnutrição e das condições do lixão.

Ana García, enteada de Rudy com 24 anos, lembra de tempos melhores quando sua mãe tinha emprego na colheita de alimentos e a família vivia melhor. Depois que a mãe perdeu o trabalho, passaram a depender do lixão. Foi Ana quem encontrou Manuel passando mal e o levou ao Hospital de Caicara, onde fizeram uma lavagem estomacal. Os médicos pediram transferência urgente para o Hospital Manuel Núñez Tovar de Maturín, com orientação para outra lavagem. Manuel estava com batimentos fracos e em convulsão. "Pedi que fizessem outra lavagem e não fizeram, apesar de eu ter passado as orientações dos médicos. Só o puseram numa cama e ele morreu quatro horas depois", relata Ana. Rudy corrobora: "Meu filho morreu após comer lixo, mas também porque os médicos o ignoraram."

A BBC Mundo contatou a prefeitura e o hospital, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem. Ana recorda Manuel como um menino alegre, que gostava de ir à escola para brincar, mesmo que muitas vezes fosse sem comer. Yolanda Pérez, vice-presidente da Fundação Cuidarte, uma organização que ajuda crianças em situação de rua na Venezuela, afirma que a pobreza extrema aumentou "enormemente" nos últimos quatro anos. "A pobreza extrema, especialmente na região de Las Delicias de Caicara de Maturín, é impressionante. Há uma rua inteira em que a maioria dos moradores vivem do lixão", diz ela.

Segundo relatório da ONU publicado em 2022, ao menos 6,5 milhões de pessoas passam fome na Venezuela. Além disso, 4,1% das crianças menores de cinco anos apresentam desnutrição aguda. Após a morte de Manuel, Rudy passou a contar com apoio da Fundação Cuidarte e do governo local. A família diz que sua situação melhorou, mas querem que a mudança seja duradoura. "Queremos apoiar Rudy, conseguindo um emprego, para que ele possa se sustentar e manter seus filhos", diz Yolanda Pérez. Ana gostaria que o governo ajudasse o padrasto a cuidar de suas terras para poder cultivar alimentos próprios e deixar de procurar restos de comida no lixão.

Aqui não tem trabalho. Depois de coletar lixo, vim para casa e meus filhos ficaram lá. Pouco depois, minha filha veio correndo e gritando: 'Papai, acho que o Manuel está envenenado porque está no chão sem conseguir se mexer'
— Rudy Jose Arzolar Olivero, pai de Manuel
A pobreza extrema, especialmente na região de Las Delicias de Caicara de Maturín, é impressionante. Há uma rua inteira em que a maioria dos moradores vivem do lixão
— Yolanda Pérez, vice-presidente da Fundação Cuidarte
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
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Por que a morte de um menino em particular comoveu tanto a Venezuela?

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Porque não é um caso isolado. Manuel é o rosto de uma crise que já dura dez anos e que transformou famílias inteiras em catadores de lixo. O que o torna simbólico é que ele morreu não apenas pela fome, mas pela negligência — havia um caminho para salvá-lo e ele não foi tomado.

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A família tinha acesso a terra e trabalho antes?

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Sim. Rudy era agricultor. Sua esposa trabalhava na colheita. Mas quando a economia desabou 75%, essas oportunidades desapareceram. Agora é mais lucrativo vender plástico do lixão do que trabalhar por dois dólares por mês.

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E o hospital? O que aconteceu lá?

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Os médicos fizeram uma lavagem estomacal inicial, mas quando Manuel foi transferido para o hospital maior, não repetiram o procedimento urgente que havia sido recomendado. Ele morreu quatro horas depois. A família acredita que foi negligência.

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Quantas pessoas vivem assim na Venezuela agora?

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Seis milhões e meio passam fome. Mas o número que importa mais é o de famílias inteiras que dependem do lixão para comer. Não são mendigos ocasionais — são pessoas que perderam tudo.

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O que muda agora para Rudy?

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A Fundação Cuidarte está ajudando-o a encontrar emprego. Mas a família quer mais: querem que o governo ajude Rudy a cultivar suas terras novamente. Sem isso, a história de Manuel pode se repetir com seus outros seis filhos.

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