O que começou como venda transformou-se numa simples auscultação de valor
O Montepio Geral, uma das mais antigas instituições mutualistas portuguesas, recuou silenciosamente de um plano que chegou a mobilizar bancos de investimento e despertar o interesse de grandes seguradoras europeias. A venda da Lusitânia Vida e da Lusitânia Seguros, anunciada com abertura pelo novo presidente Virgílio Lima no início do ano, esbarrou num obstáculo que revelou ser intransponível: a recusa em aceitar acordos de bancassurance como condição de qualquer transação. O que parecia ser uma transformação estratégica acabou por ser, afinal, um exercício de avaliação de mercado — e agora a Lusitânia olha para a Europa como novo horizonte de crescimento.
- O Montepio abriu formalmente o processo de venda das suas seguradoras em março, contratando a Société Générale para sondar compradores — e a CNP Assurances francesa chegou a avançar com interesse concreto.
- A negociação colapsou quando a exigência de um acordo de bancassurance se revelou uma linha vermelha que nenhuma das partes conseguiu ultrapassar.
- A mutualista reagiu às notícias com desmentidos públicos, negando ter contratado o banco francês e afirmando que nunca recebeu uma proposta formal — contradizendo o que fontes próximas do processo tinham confirmado.
- As seguradoras chegam a este impasse fragilizadas: os prémios caíram 2,8% em 2025, para 412 milhões de euros, e o grupo desceu ao 11.º lugar no ranking nacional.
- Em contramovimento surpreendente, a Lusitânia Vida notificou autoridades de supervisão em 16 países europeus da sua intenção de operar em livre prestação de serviços — sinalizando que a expansão além-fronteiras pode ser a nova aposta estratégica.
Quando Virgílio Lima tomou posse como presidente da Associação Mutualista Montepio Geral, em janeiro, deixou no ar uma possibilidade que o mercado rapidamente interpretou como sinal de mudança: a Lusitânia Vida e a Lusitânia Seguros podiam ser parcialmente vendidas. Não era necessário, disse, manter 100% do capital para continuar a operar no setor.
O processo ganhou forma em março, com a contratação da Société Générale para sondar potenciais compradores. A CNP Assurances, grande seguradora francesa, manifestou interesse e as negociações avançaram. Mas o negócio acabou por não se concretizar. O principal obstáculo foi a oposição a um acordo de bancassurance — a venda de seguros através de balcões bancários —, uma condição que se revelou intransponível. O que tinha começado como uma venda transformou-se numa mera auscultação de mercado para avaliar o valor das companhias.
Face às notícias publicadas, a Mutualista Montepio desmentiu ter contratado a Société Générale e afirmou que a CNP nunca apresentou uma proposta formal. As negações chegaram depois das reportagens, sugerindo uma tentativa de reescrever um processo que outras fontes tinham confirmado.
O contexto financeiro ajuda a perceber por que razão a venda foi sequer equacionada: em 2025, os prémios das duas seguradoras caíram 2,8%, para 412 milhões de euros, e o grupo desceu ao 11.º lugar no ranking nacional — reflexo das dificuldades num mercado cada vez mais concentrado.
Mas há um sinal que aponta para uma nova direção. A Lusitânia Vida notificou recentemente as autoridades de supervisão de 16 países europeus — de Alemanha à Suécia, passando por França, Itália e Polónia — da sua intenção de exercer atividade em livre prestação de serviços a partir de Portugal. Uma empresa não faz este tipo de comunicação regulatória sem ter clientes nesses mercados ou contar vir a tê-los. Enquanto as negociações domésticas falharam, a Lusitânia parece estar a preparar-se para crescer além-fronteiras.
Em janeiro, quando Virgílio Lima tomou posse como presidente da Associação Mutualista Montepio Geral, abriu a porta para uma possível transformação das suas seguradoras. Falou em "parcerias de desenvolvimento" e admitiu publicamente que a Lusitânia Vida e a Lusitânia Seguros poderiam ser parcialmente vendidas — que não era necessário manter 100% do capital para continuar a operar no setor. Era uma sinalização clara de que o Montepio estava aberto a negócios.
O que se seguiu foi um processo que começou em março, quando a mutualista contratou a Société Générale para sondar o mercado em busca de compradores para as duas seguradoras. Em abril, a CNP Assurances, uma grande seguradora francesa, manifestou interesse e as negociações avançaram. Tudo parecia estar em movimento. Mas agora, meses depois, o Jornal Económico apurou que o negócio não vai acontecer. A venda foi abandonada.
O que correu mal? Segundo fontes próximas do processo, o principal obstáculo foi a oposição a um acordo de bancassurance — a prática de vender seguros através dos balcões de um banco. Este ponto revelou-se intransponível. O que começou como uma tentativa séria de venda transformou-se, afinal, numa simples auscultação do mercado para determinar quanto valeriam estas duas companhias se fossem vendidas. Nada mais.
Quando confrontada com as notícias sobre o envolvimento da Société Générale e as negociações avançadas com a CNP, a Mutualista Montepio respondeu com negações. Disse que nunca tinha contratado o banco francês e que a CNP nunca tinha apresentado uma proposta formal de compra. Estas desmentidas chegaram após a publicação desta reportagem, sugerindo uma tentativa de reescrever o que tinha sido anteriormente noticiado e confirmado por outras fontes.
O contexto financeiro das seguradoras ajuda a explicar por que razão o Montepio tinha considerado a venda. Em 2025, a Lusitânia Vida e a Lusitânia Seguros viram os seus prémios caírem 2,8%, totalizando 412 milhões de euros. O desempenho as fez descer para o 11.º lugar no ranking dos grupos seguradores em Portugal — uma posição que reflete dificuldades competitivas num mercado cada vez mais concentrado.
Mas há um sinal intrigante de que a estratégia mudou de direção. A Lusitânia Vida notificou recentemente as autoridades de supervisão de 16 países europeus — Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Hungria, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polónia, Roménia e Suécia — bem como a EIOPA, a autoridade reguladora europeia, da sua intenção de exercer atividade em livre prestação de serviços nestes mercados a partir da sua sede em Portugal. A notificação apanhou o mercado de surpresa. Uma empresa não faz este tipo de comunicação regulatória a menos que tenha clientes naqueles países ou conte vir a tê-los. É um movimento que sugere que o Montepio está agora a olhar para a expansão europeia como alternativa à venda. Enquanto as negociações domésticas falharam, a Lusitânia parece estar a preparar-se para crescer além-fronteiras.
Citações Notáveis
Não precisamos de ter 100% para manter a atividade seguradora, portanto é natural que possamos fazer alguma parceria de desenvolvimento no momento adequado— Virgílio Lima, presidente da Associação Mutualista Montepio Geral, em janeiro de 2026
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que o Montepio mudou de ideias tão rapidamente? Em janeiro estava aberto a vender, em abril tinha propostas, e agora desistiu.
O bancassurance foi o ponto de rutura. Quem quisesse comprar a Lusitânia queria também vender seguros nos balcões de um banco. O Montepio não aceitou isso.
Mas isso não é estranho? Se a empresa está em dificuldades, porque recusar uma oportunidade?
Porque o Montepio é uma mutualista. Tem uma lógica diferente de um banco comercial. Vender através de balcões de banco significaria perder controlo sobre como os seus produtos chegam aos clientes.
E agora? A Lusitânia vai ficar como está, a perder quota de mercado?
Não. Está a notificar autoridades de 16 países europeus que quer vender seguros lá. É uma mudança de estratégia — em vez de vender a empresa, vão tentar crescer noutros mercados.
Isso é mais arriscado, não é?
Talvez. Mas é também mais coerente com o que o Montepio disse que queria: manter uma posição relevante nas suas seguradoras.