Mongaguá e São Vicente lideram ranking de praias mais poluídas por plástico no Brasil

A poluição plástica afeta a cadeia alimentar marinha, com microplásticos entrando nos organismos de seres marinhos e potencialmente na alimentação humana.
Todas as praias brasileiras apresentam resíduos plásticos; 97% contêm microplásticos
Descoberta central do estudo que mapeou 306 praias em 17 estados do país.

Ao longo de 7 mil quilômetros de costa, pesquisadores da USP e da Sea Shepherd Brasil encontraram o que o olhar cotidiano prefere não ver: quase nenhuma praia brasileira escapou à contaminação por plástico. Mongaguá e São Vicente, no litoral paulista, emergem como símbolos extremos de uma crise que é, ao mesmo tempo, local e universal — onde o descarte humano se fragmenta em partículas invisíveis que percorrem a cadeia alimentar de volta à mesa de quem os gerou. O estudo Expedição Ondas Limpas não apenas mapeia uma ferida; ele convida o país a reconhecer sua extensão antes que a maré a aprofunde ainda mais.

  • Mongaguá registra 83 fragmentos de microplástico por metro quadrado de areia — o índice mais alto do Brasil, revelando uma contaminação que o olho humano mal consegue perceber.
  • 91% de todos os resíduos coletados nas praias brasileiras são plásticos, superando em muito a média mundial de 70%, o que indica um colapso sistêmico na gestão de resíduos costeiros.
  • Filtros de cigarro respondem por 25% dos itens encontrados, enquanto apetrechos de pesca industrial mal fiscalizada somam mais de 11% — apontando fontes concretas e evitáveis de poluição.
  • Microplásticos já estão entrando nos organismos marinhos e potencialmente chegando à alimentação humana, transformando um problema ambiental em uma questão direta de saúde pública.
  • A pesquisa estabelece uma linha de base inédita para o litoral brasileiro, pressionando por políticas de limpeza e fiscalização antes que a contaminação se torne ainda mais irreversível.

Mongaguá e São Vicente, duas cidades da Baixada Santista, ocupam o topo de um ranking que ninguém desejaria liderar: o das praias mais poluídas por plástico no Brasil. O diagnóstico vem da Expedição Ondas Limpas, estudo inédito conduzido pela Sea Shepherd Brasil em parceria com o Instituto Oceanográfico da USP, que entre abril de 2022 e agosto de 2023 percorreu 7 mil quilômetros de costa, analisando 306 praias em 201 municípios de 17 estados.

Os números revelados são perturbadores. São Vicente apresenta cerca de dez resíduos plásticos por metro quadrado, mas Mongaguá vai além: 83 fragmentos de microplástico por metro quadrado. Quase todas as praias analisadas — 97% — contêm microplásticos, e o plástico representa 91% do total de resíduos coletados, índice bem acima dos 70% registrados como média global. Filtros de cigarro respondem sozinhos por um quarto de tudo que foi encontrado.

A pesca industrial contribui de forma significativa: redes, boias e linhas somam 11,2% dos resíduos plásticos. No Rio Grande do Sul, esses materiais aparecem com frequência três vezes maior que a média nacional. Florianópolis também emerge como ponto crítico, com a Praia de Pântano do Sul entre as mais poluídas do país. Em contraste, a praia de Turiaçu, no Maranhão, não registrou microplásticos detectáveis — uma exceção que ilumina o quanto escolhas locais ainda fazem diferença.

O estudo confirma que praias urbanas concentram mais microplásticos, enquanto o plástico que se degrada lentamente na natureza fragmenta-se em partículas que penetram a cadeia alimentar marinha e potencialmente chegam à mesa humana. Mais do que um inventário de danos, a pesquisa estabelece uma linha de base urgente: um ponto de partida para intervenções concretas num litoral tão vasto quanto o desafio que ele agora representa.

Duas cidades do litoral paulista ocupam um lugar que ninguém gostaria de ter: o topo da lista das praias mais poluídas por plástico em todo o Brasil. Mongaguá e São Vicente, ambas na Baixada Santista, revelaram-se como pontos críticos de acúmulo de resíduos plásticos em um estudo inédito conduzido pela Sea Shepherd Brasil em parceria com o Instituto Oceanográfico da USP. A pesquisa, batizada de Expedição Ondas Limpas, percorreu 7 mil quilômetros de costa entre abril de 2022 e agosto de 2023, cobrindo 306 praias espalhadas por 201 municípios em 17 estados — do Rio Grande do Sul até o Amapá. Mais de cem voluntários participaram dessa coleta sistemática de dados que revelaria um quadro alarmante sobre a saúde das praias brasileiras.

Os números são perturbadores. Em São Vicente, os pesquisadores encontraram aproximadamente dez resíduos plásticos por metro quadrado de areia. Mas Mongaguá apresenta uma situação ainda mais grave: 83 fragmentos de microplástico por metro quadrado. Essas duas cidades não apenas lideram o ranking nacional — elas o fazem de formas distintas, ilustrando diferentes facetas do mesmo problema. Enquanto São Vicente se destaca pelo volume de macrorresíduos visíveis, Mongaguá lidera no acúmulo de partículas microscópicas que escapam ao olho desatento.

O estudo mapeou um cenário praticamente universal de contaminação. Todas as 306 praias analisadas apresentam algum nível de resíduos plásticos — desde embalagens até tampas de garrafas. Noventa e sete por cento delas contêm microplásticos, aquelas partículas minúsculas menores que cinco milímetros. Quando se analisa a composição total dos resíduos coletados, o plástico representa 91% do total — um índice significativamente superior aos 70% registrados como média global. Filtros de cigarro emergiram como um dos principais culpados, respondendo por um quarto de todos os itens coletados nas praias.

A pesca industrial mal regulada também contribui substancialmente para o problema. Redes, boias e linhas de pesca representam 11,2% dos resíduos plásticos encontrados. No Rio Grande do Sul, esses apetrechos aparecem com frequência três vezes maior que a média nacional, indicando uma concentração particular do problema naquela região. As diferenças geográficas revelam padrões interessantes: o Sudeste lidera em macrorresíduos, enquanto o Sul apresenta concentrações maiores de microplásticos. Florianópolis emergiu como outro ponto crítico, com a Praia de Pântano do Sul sendo a mais poluída por resíduos de todos os tipos, e a Praia do Rizzo figurando entre as mais afetadas por microplásticos.

Surpreendentemente, nem todos os estados sofreram igualmente. O Piauí e o Paraná, apesar de possuírem litorais reduzidos, registraram concentrações de microplásticos dobradas em relação à média nacional. O Rio Grande do Norte se destacou pelos altos índices de macrorresíduos, com três de suas cidades entre as cinco mais poluídas do país. Uma exceção notável surgiu no Maranhão: a praia de Turiaçu não apresentou microplásticos detectáveis e registrou níveis mínimos de macrorresíduos, contrastando drasticamente com o cenário desolador das demais regiões.

Os pesquisadores identificaram um padrão claro: praias urbanas, onde a presença humana é mais intensa, concentram maiores quantidades de microplásticos. Em áreas rurais e suburbanas, a poluição tende a ser menor, embora fatores como proximidade de rios e transporte de resíduos pelas correntes marinhas continuem desempenhando papéis significativos. O estudo detalhou como o plástico se degrada lentamente na natureza, quebrando-se em fragmentos cada vez menores que facilmente penetram a cadeia alimentar marinha. Esses microplásticos são ingeridos por organismos marinhos e, potencialmente, chegam à alimentação humana através dos peixes e frutos do mar que consumimos.

Os dados coletados pela Expedição Ondas Limpas funcionam como um alerta urgente. Eles documentam não apenas onde o problema é mais grave, mas também apontam para a necessidade de ações imediatas de limpeza e reformulação de políticas de preservação nas praias brasileiras. A pesquisa estabeleceu uma linha de base clara contra a qual futuras intervenções podem ser medidas — e revelou que o desafio é tão vasto quanto o litoral que o país precisa proteger.

Todas as praias brasileiras apresentam resíduos plásticos, como embalagens e tampas de garrafas
— Estudo da Sea Shepherd Brasil e Instituto Oceanográfico da USP
O plástico se degrada na natureza, quebrando-se em pequenas partículas que facilmente entram na cadeia alimentar dos seres marinhos
— Pesquisadores da Expedição Ondas Limpas
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que Mongaguá e São Vicente especificamente? Há algo na geografia ou na economia dessas cidades que as torna mais vulneráveis?

Model

Ambas ficam na Baixada Santista, uma região densamente urbanizada com porto industrial. A proximidade com centros urbanos, atividades portuárias e fluxo de pessoas intenso cria as condições perfeitas para acúmulo de plástico. Não é coincidência.

Inventor

O estudo encontrou 83 fragmentos de microplástico por metro quadrado em Mongaguá. Como se mede isso? Como se coleta algo tão pequeno?

Model

Os pesquisadores usam metodologias específicas para separar essas partículas da areia. Peneiras, análise visual, às vezes microscópios. É trabalho minucioso — por isso precisaram de mais de cem voluntários e cobriram 7 mil quilômetros.

Inventor

Filtros de cigarro representam 25% dos resíduos. Isso significa que um quarto da poluição vem de fumantes descartando bitucas na praia?

Model

Essencialmente, sim. É um comportamento tão normalizado que as pessoas nem pensam nisso como lixo. Mas cada filtro é plástico que vai se degradar por anos na areia.

Inventor

A praia de Turiaçu no Maranhão não tinha microplásticos. O que a torna diferente?

Model

Provavelmente isolamento relativo — menos urbanização, menos tráfego de pessoas, menos proximidade com rios poluídos. É uma exceção que prova a regra: onde há presença humana intensa, há plástico.

Inventor

Se 91% dos resíduos são plástico, o que é o outro 9%?

Model

Vidro, metal, madeira processada, outros materiais. Mas o plástico domina porque é barato, durável demais, e descartamos em quantidade massiva. É o material perfeito para poluição.

Inventor

Qual é o risco real para quem come peixe ou marisco colhido nessas praias?

Model

Os microplásticos entram na cadeia alimentar marinha. Peixes pequenos os ingerem, peixes maiores comem os pequenos. Quando comemos esses peixes, ingerimos os microplásticos também. Os efeitos a longo prazo ainda estão sendo estudados.

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