Múltiplo alto com crescimento real não é a mesma coisa que múltiplo alto com crescimento imaginário
Michael Burry voltou a apostar contra a tecnologia com sua maior posição baixista em anos, mirando Nvidia, Tesla, Caterpillar e semicondutores. Um gestor com décadas de experiência argumenta que Burry, célebre por prever a crise de 2008, cometeu desta vez um erro de categoria: confundiu quem fabrica os modelos de IA com quem cobra pelo tráfego que eles geram. Na história das grandes apostas, distinguir o fabricante de carros da praça de pedágio pode ser a diferença entre a fortuna e o prejuízo.
- Burry montou sua maior aposta baixista desde o fechamento da Scion, com puts contra Nvidia, Tesla, Caterpillar, Applied Materials e o ETF SOXX rolados até março de 2027.
- A tese de Burry prevê compressão de demanda por tokens — mas um gestor de R$ 38 bilhões rebate que essa compressão atinge os laboratórios de modelos, não os operadores de nuvem que cobram pedágio independentemente de quem passa.
- Os números contradizem o alarme: o Google processou 1,3 quadrilhão de tokens por mês no terceiro trimestre de 2025, a Microsoft quintuplicou seu volume anual, e a margem do Google Cloud chegou perto de 33%.
- Enquanto 116 municípios americanos impõem moratórias a data centers e Nova York aprova a primeira moratória estadual de IA, o capital de infraestrutura busca destinos com energia barata e menos resistência regulatória.
- O Brasil emerge como candidato estratégico: matriz energética limpa, infraestrutura de data center disponível e custos operacionais muito abaixo dos praticados nos EUA ou na Coreia do Sul.
Michael Burry voltou a apostar contra a tecnologia com força inédita desde que encerrou a gestão da Scion Asset Management no fim de 2025. Desta vez, a cesta inclui Nvidia, Tesla, Caterpillar, Applied Materials e o ETF de semicondutores SOXX, com contratos rolados para março de 2027. Para um gestor com mais de R$ 38 bilhões sob gestão que assina o artigo, Burry está completamente errado — e o erro tem nome: ele confundiu o fabricante de carro com a praça de pedágio.
O respeito pela história de Burry é real. Em 2008, ele previu a crise do subprime e lucrou bilhões enquanto Wall Street o ridicularizava. Mas entre aquele acerto e hoje passaram-se 18 anos de alarmes repetidos. A tese atual parte de um fenômeno verdadeiro — o tokenmaxxing, fase em que empresas queimam tokens para treinar modelos proprietários — mas aponta o paciente errado. Quando essa fase comprimir, quem sofre são os laboratórios de modelo como OpenAI e Anthropic. Amazon, Microsoft e Google são a praça de pedágio: cobram pelo tráfego independentemente de quem passa, e quanto mais barato o modelo fica, mais viagens acontecem. Os dados confirmam isso — 1,3 quadrilhão de tokens processados pelo Google em um único trimestre, margem operacional do Google Cloud perto de 33%.
O segundo erro foi ignorar a oferta. Custos industriais pressionam o mundo: o PPI coreano subiu 8,5% em base anual em maio de 2026, o americano avançou 6,5%. Quando Burry lê os cerca de US$ 520 bilhões em investimentos coreanos como exuberância irracional, o analista enxerga uma guerra global por capacidade de processamento — e quem tem energia barata está do lado certo.
O terceiro erro foi citar múltiplos sem contexto de crescimento. Comparar os valuations atuais com os de 2000 ignora que em 2000 não havia um quadrilhão de tokens processados por mês nem infraestrutura de IA respondendo por metade do crescimento de lucro projetado do S&P 500, segundo a Goldman Sachs.
Enquanto isso, os Estados Unidos amarram as próprias pernas: 116 municípios com moratórias a data centers, Nova York com a primeira moratória estadual de IA, propostas federais de Sanders e Ocasio-Cortez. O capital migra para onde operar custa menos — e o Brasil, com matriz energética limpa e infraestrutura disponível a fração do custo americano, aparece como a grande oportunidade que este cenário revela.
Michael Burry voltou a apostar contra a tecnologia, e desta vez colocou mais dinheiro na mesa. Não se trata apenas de posições isoladas contra Nvidia e Palantir. Agora há uma cesta que inclui Tesla, Nvidia, Caterpillar, Applied Materials e o ETF de semicondutores SOXX, com contratos de venda a descoberto rolados para março de 2027. É sua maior aposta baixista desde que encerrou a gestão de terceiros e fechou o registro da Scion Asset Management no final de 2025. E segundo quem escreve este texto — um gestor de fundos com mais de R$ 38 bilhões sob gestão — Burry está completamente errado desta vez.
O respeito pela história de Burry é inegável. Em 2008, ele previu a crise do subprime americano e lucrou bilhões shorteando mortgage-backed securities enquanto Wall Street inteira o ridicularizava. Mas há um detalhe incômodo: entre aquele acerto espetacular e hoje passaram-se 18 anos. Ele acertou uma vez e passou quase duas décadas repetindo o mesmo alarme. É como um relógio quebrado que marca a hora correta duas vezes por dia. O acerto de 2008 valeu uma fortuna, mas 18 anos avisando que o teto vai cair não é previsão — é postura. Alex Karp, CEO da Palantir, resumiu melhor: as duas empresas que Burry shorteou primeiro são exatamente as que mais ganham dinheiro. Shortear chip e ontologia, disse Karp, é uma escolha difícil de defender.
O primeiro erro de Burry foi confundir o fabricante de carro com a praça de pedágio. A tese do tokenmaxxing é real — empresas mandam funcionários queimar tokens para coletar dados, treinar modelos proprietários e montar rankings internos. Essa fase é temporária, e quando acabar, a demanda pode comprimir. Mas para quem? Os laboratórios de modelo, como OpenAI, Anthropic e xAI, são os fabricantes de carros. Se a demanda por tokens comprimir, eles sofrem. Amazon, Microsoft e Google são a praça de pedágio. Não importa se você passa de Ferrari ou de Honda — o pedágio cobra. E quanto mais barato o modelo fica, mais viagens acontecem, mais pedágios são pagos. Os dados provam isso em tempo real. O Google processou 1,3 quadrilhão de tokens por mês no terceiro trimestre de 2025, mais de 20 vezes o volume de um ano antes. A Microsoft processa mais de 100 trilhões de tokens em um único trimestre, cinco vezes mais que no ano anterior. A margem operacional do Google Cloud, que durante anos foi um ponto de dúvida, chegou perto de 33%. Isso não é projeção — é o número divulgado em resultado corporativo.
O segundo erro foi construir uma tese de demanda e ignorar completamente a oferta. Os custos industriais voltaram a pressionar o mundo. Na Coreia do Sul, o índice de preços ao produtor fechou maio de 2026 com alta de 8,5% em base anual, a maior desde julho de 2022, puxado por insumos industriais, energia e componentes ligados à manufatura. Nos Estados Unidos, o PPI subiu 6,5% em 12 meses no mesmo período. É um fenômeno global de custo de produção. Samsung e SK Hynix, duas das maiores fabricantes de memória do mundo, operam sob pressão crescente de custo, capacidade e demanda. Do outro lado, a necessidade de energia para data centers americanos segue em trajetória de forte alta, com estimativas apontando expansão relevante da carga ao longo da década. Quando Burry vê o anúncio de cerca de US$ 520 bilhões em novos investimentos coreanos e diz que é o começo do fim, ele lê exuberância irracional. Mas aquele investimento é a confirmação de que o mundo está em guerra por capacidade de processamento, e que quem tem energia barata e infraestrutura assegurada está do lado certo da história.
Aqui os Estados Unidos estão amarrando as próprias pernas. Até o fim de junho de 2026, 116 municípios americanos já haviam imposto moratórias locais a data centers. Nova York aprovou a primeira moratória estadual de IA do país, ainda à espera da assinatura da governadora. Sanders e Ocasio-Cortez propuseram uma moratória federal. Projetos bilionários vêm sendo bloqueados ou atrasados por oposição local. O capital de infraestrutura de IA está sendo empurrado para fora dos Estados Unidos por decisão política, no exato momento em que a demanda explode. O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Existe infraestrutura de data center no país com energia contratada, travada por questões regulatórias temporárias, a uma fração do custo americano ou coreano, e sem a guerra de moratórias que trava a expansão lá fora. Quando a compressão que Burry prevê acontecer — e ela vai acontecer em parte — o capital não desaparece. Ele migra para onde operar custa menos. Sempre foi assim.
O terceiro erro foi citar o múltiplo sem o contexto do crescimento. Burry diz que o setor negocia a 16 vezes a receita, 65% acima da média de 200 dias, em níveis de 2000. Tecnicamente, os números estão certos. Mas em 2000 não existia um quadrilhão de tokens sendo processados por mês. Em 2000 não havia infraestrutura de IA respondendo por uma parcela tão relevante do crescimento de lucro do S&P 500. A Goldman Sachs projeta que os beneficiários de infraestrutura de IA responderão por cerca de metade do crescimento de lucro por ação do índice em 2026. Múltiplo alto com crescimento real e acelerado não é a mesma coisa que múltiplo alto com crescimento imaginário. Essa diferença é tudo. Um estudo do Financial Times com quase 22 mil empresas americanas mostrou que as que investem mais pesado em IA estão contratando mais rápido que as concorrentes. O emprego de nível inicial também cresceu. A automação ainda está na fase de expansão de capacidade, não de substituição em massa. De um lado, Burry diz que é o começo do fim. Do outro, Jeff Bezos, fundador da Amazon e operador da maior praça de pedágio do mundo, disse que a IA deve criar escassez de trabalhadores, não desemprego. A tecnologia amplia a produtividade humana e abre espaço para novas atividades.
Burry acertou o diagnóstico. A fase de exuberância é real. Vai ter compressão. Alguns ativos vão sofrer. Quem chegou tarde, se endividou demais e não tem vantagem de custo operacional vai pagar caro. Mas ele errou o paciente. Quem vai sofrer são os laboratórios de modelo mal capitalizados e os operadores de data center sem vantagem estrutural. Quem vai ganhar é quem é dono do pedágio, quem tem energia barata assegurada, quem construiu infraestrutura física com disciplina e visão de longo prazo. O que este artigo revela, no fim, é o tamanho da oportunidade para o Brasil — não apenas para se tornar um protagonista global em IA, mas também para construir um grande legado de infraestrutura em geração e armazenamento de energia, transmissão de dados e tudo mais que cerca e abastece um grande data center.
Citas Notables
Shortear chip e ontologia é uma escolha difícil de defender— Alex Karp, CEO da Palantir
A IA deve criar escassez de trabalhadores, não desemprego— Jeff Bezos, fundador da Amazon
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que você acha que Burry continua errando depois de acertar tão espetacularmente em 2008?
Porque acertar uma vez não te torna profeta. Ele construiu uma narrativa de alarme e passou 18 anos repetindo ela. Quando você tem um martelo, tudo parece prego.
Mas ele está shorteando Nvidia e Tesla, que são empresas reais com números reais. Como isso é completamente errado?
Ele acertou que há exuberância. O erro é em quem vai sofrer. Ele shorteou os fabricantes de carros quando deveria estar preocupado com quem cobra o pedágio.
Explica melhor essa metáfora do pedágio.
OpenAI, Anthropic — eles fazem os modelos. Mas Amazon, Microsoft, Google — eles vendem a infraestrutura. Não importa se o modelo fica mais barato. Quanto mais barato, mais gente usa, mais infraestrutura é consumida.
E por que o Brasil entra nessa história?
Porque os EUA está bloqueando data centers com moratórias. O Brasil tem energia limpa barata e ninguém está impedindo. Quando o capital sair dos EUA, ele vem para cá.
Você está apostando nisso?
Tenho posições que provam isso. Coloco meu nome nisso. A conta chega.