MG lidera ranking de urbanização em áreas de alto risco de deslizamentos

Chuvas na Zona da Mata causaram 72 mortes (65 em Juiz de Fora, 7 em Ubá), mais de 8.500 desabrigados e desalojados, com buscas ainda em andamento.
Enquanto as cidades cresceram 2,5 vezes, o risco triplicou
Ocupação urbana em terrenos de alta declividade triplicou em quarenta anos, criando cenário de vulnerabilidade crescente.

Por quatro décadas, o Brasil construiu suas cidades não apenas em planícies, mas encosta acima — em terrenos que a própria natureza sinalizou como instáveis. Um mapeamento do MapBiomas revela que, enquanto a área urbana nacional cresceu 2,5 vezes desde 1985, a ocupação em terrenos de alta declividade triplicou, e Minas Gerais lidera esse avanço perigoso. As chuvas recentes na Zona da Mata, que deixaram 72 mortos e mais de 8.500 desabrigados em cidades como Juiz de Fora, não são apenas uma tragédia climática — são o encontro inevitável entre décadas de escolhas territoriais e a força da natureza.

  • A ocupação urbana em encostas íngremes triplicou no Brasil em 40 anos, criando um passivo de risco que nenhuma política emergencial consegue desfazer rapidamente.
  • Juiz de Fora, terceira cidade do país em urbanização em terrenos com mais de 30% de inclinação, viu sua área de encosta crescer 2,3 vezes — e pagou o preço com 65 mortos em uma única semana de chuvas.
  • Mais de 8.500 pessoas estão desabrigadas ou desalojadas na Zona da Mata mineira, enquanto equipes do Corpo de Bombeiros ainda buscam desaparecidos sob os escombros.
  • O padrão se repete nas zonas de inundação: áreas urbanas próximas a cursos d'água cresceram 145% no mesmo período, expondo milhões a enchentes em estados como Roraima, Rio de Janeiro e Amapá.
  • O desafio que se impõe agora é duplo — responder à crise imediata e repensar décadas de planejamento territorial que permitiram que cidades inteiras fossem erguidas onde não deveriam estar.

Há quarenta anos, o Brasil começou a ocupar suas encostas. Não por acidente, mas por uma combinação de pressão demográfica, ausência de planejamento e desigualdade que empurrou populações para os terrenos que ninguém mais queria — os inclinados, os instáveis, os que a natureza reservou para si. Um mapeamento divulgado pelo MapBiomas nesta quarta-feira quantifica essa escolha coletiva: a área urbana brasileira cresceu 2,5 vezes desde 1985, mas a ocupação em terrenos de alta declividade, mais suscetíveis a deslizamentos e erosão, triplicou no mesmo período, saltando de 14 mil para 43,4 mil hectares.

Minas Gerais lidera esse ranking. O estado urbanizou 14,5 mil hectares em encostas íngremes em quatro décadas, e Juiz de Fora tornou-se símbolo dessa tendência: é hoje a terceira cidade do país em ocupação de terrenos com inclinação superior a 30%, atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo. Sua área de encosta passou de 547 para 1.256 hectares entre 1985 e 2024. O Rio de Janeiro mantém a liderança absoluta com 1,7 mil hectares urbanizados em áreas íngremes, mas a ascensão de Juiz de Fora no ranking — ultrapassando até Belo Horizonte — revela como o problema se interiorizou.

O risco não se restringe às encostas. Áreas urbanas situadas em zonas naturalmente inundáveis cresceram 145% no mesmo período, chegando a 1,2 milhão de hectares. Roraima lidera a proporção estadual de área urbana vulnerável a enchentes, com 46,4%, seguido pelo Rio de Janeiro e pelo Amapá.

Esse padrão tem nome e endereço. As chuvas que devastaram a Zona da Mata mineira na última semana deixaram 72 mortos — 65 em Juiz de Fora, 7 em Ubá —, mais de 8.500 pessoas desabrigadas ou desalojadas, e equipes de busca ainda em campo. O que os dados do MapBiomas descrevem em hectares, as famílias da Zona da Mata vivem em perdas irreparáveis. O desafio que resta é aprender, antes da próxima chuva, a construir cidades que respeitem a geografia que insistimos em desafiar.

Há quarenta anos, o Brasil começou a se expandir para cima. Não para os lados — para cima, nas encostas, nos morros, nos terrenos que a natureza deixou inclinados por uma razão. Um mapeamento divulgado nesta quarta-feira pelo MapBiomas revelou o tamanho dessa escolha: enquanto as cidades brasileiras cresceram 2,5 vezes desde 1985, passando de 1,8 milhão para 4,5 milhões de hectares, a ocupação urbana em terrenos de alta declividade — aqueles mais propensos a deslizamentos e erosão — triplicou no mesmo período, saltando de 14 mil para 43,4 mil hectares.

Minas Gerais lidera esse ranking perigoso. O estado urbanizou 14,5 mil hectares em encostas íngremes entre 1985 e 2024, praticamente triplicando sua ocupação em áreas de risco. A geografia mineira, especialmente na Zona da Mata, onde o relevo é acidentado por natureza, foi progressivamente ocupada por casas, ruas e edifícios. Juiz de Fora exemplifica essa tendência: a cidade é hoje a terceira do país em urbanização em terrenos com inclinação superior a 30%, atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo. Lá, a ocupação em encostas cresceu de 547 hectares em 1985 para 1.256 hectares em 2024 — um aumento de 2,3 vezes em quatro décadas.

O ranking das cidades mais urbanizadas em áreas íngremes mudou ao longo desses anos. Em 1985, Rio de Janeiro liderava com 1,16 mil hectares, seguido por Belo Horizonte com 900 hectares e São Paulo com 730 hectares. Em 2024, o Rio mantém a liderança com 1,7 mil hectares, São Paulo subiu para 1,5 mil hectares, e Juiz de Fora ultrapassou Belo Horizonte — que ficou com 1,2 mil hectares — ao atingir 1,3 mil hectares. A progressão é clara: cidades inteiras foram construídas onde não deveriam estar.

O risco não se limita aos deslizamentos. As áreas urbanizadas próximas a cursos d'água também cresceram dramaticamente. Terrenos situados até três metros acima da linha de drenagem natural — zonas naturalmente inundáveis — aumentaram 145% em quarenta anos, passando de 493 mil para 1,2 milhão de hectares. Rio de Janeiro e São Paulo concentram a maior parte dessa ocupação de risco. Quando se analisa a proporção da área urbana estadual em situação de vulnerabilidade a enchentes, Roraima aparece em primeiro lugar com 46,4%, seguido por Rio de Janeiro com 43% e Amapá com 37,6%.

Esse padrão de ocupação não é abstrato. Ele tem consequências imediatas e mortais. Após quase uma semana de chuvas intensas que devastaram cidades da Zona da Mata mineira, o Corpo de Bombeiros ainda buscava desaparecidos. Em Juiz de Fora, 65 pessoas morreram. Em Ubá, sete. Mais de 8.584 pessoas estão desabrigadas ou desalojadas em Juiz de Fora; em Ubá, 396 foram desalojadas e 25 estão desabrigadas. Matias Barbosa, outro município atingido, não registrou mortes.

O MapBiomas destacou que o processo de urbanização mineiro desafia permanentemente a geografia do estado. Mas desafiar a geografia tem um preço. O crescimento médio de 70 mil hectares por ano de área urbana no país, combinado com a triplicação da ocupação em terrenos de risco, criou um cenário onde mudanças climáticas e maior frequência de desastres naturais encontram cidades cada vez mais vulneráveis. O desafio agora é conciliar o crescimento urbano que já aconteceu com um planejamento territorial que deveria ter impedido que acontecesse.

O processo de urbanização mineiro desafia permanentemente a geografia do estado, especialmente na Zona da Mata, onde o relevo acidentado é predominante
— MapBiomas
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que as cidades crescem justamente para os lugares mais perigosos?

Model

Porque são os lugares que ninguém quer até precisar. Encostas e áreas próximas a rios são baratas, estão à margem, fáceis de ocupar sem regulação. Quando a população cresce e não há planejamento, é para lá que as pessoas vão.

Inventor

Juiz de Fora triplicou sua ocupação em encostas em quarenta anos. Alguém não viu isso vindo?

Model

Viram. O MapBiomas documentou cada hectare. Mas documentar não é o mesmo que agir. Cidades crescem por inércia, por falta de alternativa, por ganância imobiliária. O conhecimento do risco não para o crescimento.

Inventor

E agora, com as chuvas, as pessoas morrem.

Model

Sessenta e cinco em Juiz de Fora. Sete em Ubá. Mais de oito mil desabrigadas. Não é coincidência. É consequência direta de décadas de ocupação em terrenos que a natureza deixou inclinados por uma razão.

Inventor

Roraima tem 46% de sua área urbana em risco de enchentes. Como isso é possível?

Model

Porque o crescimento urbano não segue lógica. Segue oportunidade, pressão demográfica, ausência de fiscalização. Roraima cresceu onde pôde, não onde deveria.

Inventor

O que muda agora?

Model

Tudo depende se essa morte e esse desabrigamento forçam uma mudança real no planejamento. Ou se, em alguns meses, as cidades voltam a crescer para os mesmos lugares perigosos.

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