Que mais crianças possam crescer sentindo-se felizes por terem nascido
Equipe de 58 profissionais japoneses realiza cirurgias gratuitas anuais no Delta do Mekong desde 1993, com mais de 3 mil procedimentos bem-sucedidos. No Vietnã rural, acesso limitado a especialistas e dificuldades financeiras levam famílias a adiar ou renunciar ao tratamento de fissuras labiopalatinas.
- Equipe de 58 profissionais japoneses realiza cirurgias gratuitas anuais desde 1993
- Mais de 3 mil cirurgias de lábio leporino e fenda palatina já realizadas no Vietnã
- Programa de microcrédito beneficiou mais de 1.200 pessoas desde 1997
- Apenas um cirurgião bucomaxilofacial atua na região rural de Vinh Long
Fundação japonesa completa 34 anos de missão voluntária no Vietnã, realizando mais de 3 mil cirurgias gratuitas de lábio leporino e fenda palatina em crianças de famílias carentes.
No Delta do Mekong, a três horas de carro de Ho Chi Minh, uma equipe de médicos, dentistas e enfermeiros japoneses chega todo ano para fazer o que ninguém mais na região consegue fazer: corrigir cirurgicamente o lábio leporino e a fenda palatina em crianças que nasceram com essas malformações. Há 34 anos isso acontece. Neste ano, em março, foram 58 profissionais de saúde vindos de diferentes regiões do Japão que se instalaram na província rural de Vinh Long, na base do Hospital Geral Nguyen Dinh Chieu, um hospital de 1.400 leitos que se tornou sinônimo dessa missão anual. Ao longo de três décadas e meia, a Japan Cleft Palate Foundation — organização sem fins lucrativos sediada em Nagoya — já realizou mais de 3 mil cirurgias gratuitas no país. O Vietnã é o destino mais visitado pela fundação, embora ela tenha atuado em cerca de dez países, incluindo Mianmar, Mongólia e Laos.
Tudo começou em 1993, quando moradores locais ouviram falar das atividades internacionais da fundação e fizeram um pedido simples: venham ajudar. Na época, o Vietnã tinha poucos especialistas em tratamento de fissuras labiopalatinas e dependia fortemente de apoio técnico estrangeiro. Para Natsume, de 69 anos, diretor executivo da fundação e professor da Escola de Odontologia da Universidade Aichi Gakuin, o Vietnã já é como um segundo lar — um sentimento que se renova a cada viagem. A diferença entre o Japão e muitos países em desenvolvimento é clara: lá, crianças nascidas com essas condições recebem tratamento adequado da infância à adolescência e levam uma vida normal. Aqui, o tratamento é adiado por dificuldades financeiras e acesso limitado a cuidados especializados, deixando alguns pacientes chegarem à vida adulta sem operar, enfrentando discriminação no mercado de trabalho e no casamento.
No dia 22 de março, com temperaturas acima de 30°C, a equipe transformou um corredor do hospital em clínica de triagem. Mesas, cadeiras e ventiladores foram distribuídos enquanto cerca de 50 famílias se reuniam na esperança de que seus filhos pudessem finalmente ser operados. Pais e pacientes expressaram suas esperanças um após o outro — alguns pediam que não restasse cicatriz visível, outros apenas queriam melhorar a aparência. Natsume examinou cuidadosamente cada paciente, avaliando as condições bucais e a saúde geral antes de decidir se a cirurgia poderia ser realizada. Na manhã seguinte, o trabalho começou às 7h em três salas cirúrgicas equipadas com instrumentos trazidos do Japão. Cirurgiões bucomaxilofaciais e enfermeiros operaram enquanto médicos mais jovens e estudantes observavam para aprender as técnicas especializadas.
Em uma das salas, um cirurgião marcou as linhas de incisão ao redor do lábio superior de um menino de 5 anos, sob anestesia geral. Com precisão meticulosa, a equipe reparou músculos e tecidos que haviam permanecido separados desde o nascimento. Três horas depois, o menino acordou e foi levado a uma sala de recuperação, onde a mãe esperava ansiosa. O pediatra Reizo Baba, professor de 69 anos da Universidade Chubu, recebeu o garoto com um sorriso tranquilizador, garantindo que estava tudo bem. Ao final do primeiro dia, oito cirurgias haviam sido concluídas. Entre os pacientes estava um bebê de apenas 3 meses. Sua mãe, Le Thi Be Trang, de 31 anos, ficou visivelmente aliviada depois que a cirurgia terminou com sucesso. Durante o exame pré-natal, os médicos haviam descoberto que o bebê teria lábio leporino e fenda palatina. Parentes do lado paterno chegaram a pressionar a família para que interrompesse a gravidez. Le e o marido vivem do cultivo de frutas, e as finanças são apertadas. Ainda assim, ela decidiu seguir com a gestação, temendo não conseguir arcar com o tratamento — e agora se sentia profundamente grata por médicos japoneses terem realizado a cirurgia gratuitamente.
No Vietnã, os avanços no diagnóstico pré-natal reduziram o número de bebês nascidos com essas condições visíveis. Muitos pais optam pelo aborto ao saber que o filho terá uma fissura labiopalatina, frequentemente por causa de sistemas de apoio médico insuficientes e da crença equivocada de que a condição não pode ser corrigida. Mesmo quando os casais decidem seguir com a gravidez, o acesso ao tratamento continua sendo um desafio nas áreas rurais. Enquanto as grandes cidades vietnamitas vivem um rápido crescimento econômico, muitas áreas rurais ainda enfrentam escassez de médicos e de cuidados especializados. O Hospital Geral Nguyen Dinh Chieu é a única unidade da região capaz de tratar lábio leporino e fenda palatina — e conta com apenas um cirurgião bucomaxilofacial, Tran Le Duy, de 41 anos. Tran estudou por quatro anos, a partir de 2015, na Escola de Odontologia da Universidade Aichi Gakuin, período em que ganhou experiência cirúrgica. Desde que retornou ao Vietnã há mais de cinco anos, realizou apenas cerca de 20 cirurgias de fissura labiopalatina por conta própria.
Na província de Vinh Long, o salário mínimo mensal é inferior à metade do custo de uma internação hospitalar — e despesas com remédios, alimentação e transporte tornam o tratamento ainda mais inacessível para famílias de baixa renda. Tran costuma orientar os pacientes a aguardar a missão médica anual dos japoneses como uma das alternativas mais viáveis. Para ajudar famílias que hesitam em buscar tratamento por causa de restrições financeiras, a fundação mantém, desde 1997, um programa de microcrédito com juros de cerca de 0,7% ao mês. Segundo uma associação local de mulheres que administra o programa, mais de 1.200 pessoas já foram beneficiadas. Ao longo de 29 anos, o fundo cresceu para mais de 800 milhões de dongs vietnamitas, ampliando sua capacidade de apoiar famílias de baixa renda. Nesta primavera, com o objetivo de reduzir o número de abortos relacionados a fissuras labiopalatinas, a fundação introduziu um novo incentivo: famílias cujos filhos foram tratados pela missão médica passam a ter direito a um limite maior de empréstimo. Ao observar os rostos sorridentes de pais e filhos após as cirurgias bem-sucedidas, Natsume resumiu o propósito por trás de décadas de trabalho voluntário: o desejo de que mais crianças possam crescer sentindo-se felizes por terem nascido.
Citas Notables
Correu tudo bem. Estou muito grata— Le Thi Be Trang, mãe de bebê de 3 meses operado pela missão
O desejo de que mais crianças possam crescer sentindo-se felizes por terem nascido— Natsume, diretor executivo da Japan Cleft Palate Foundation
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que uma fundação japonesa escolheu o Vietnã como seu principal destino, entre tantos países em desenvolvimento?
Começou com um pedido. Em 1993, moradores locais ouviram falar das atividades da fundação e pediram ajuda. O Vietnã tinha poucos especialistas em fissuras labiopalatinas e dependia de apoio técnico estrangeiro. Depois que a primeira missão chegou, as pessoas começaram a retornar todo ano — e isso criou uma relação que virou como um segundo lar para os médicos.
O que torna tão difícil o acesso ao tratamento nas áreas rurais do Vietnã?
Não é só falta de dinheiro. É a combinação de tudo: o salário mínimo mensal é menos da metade do custo de uma internação. Tem só um cirurgião bucomaxilofacial para toda a região. As famílias precisam pagar remédios, alimentação, transporte. E há uma crença de que a condição não pode ser corrigida, então muitos pais optam pelo aborto quando descobrem durante o pré-natal.
Como a fundação conseguiu criar um sistema de microcrédito que funcionasse em uma comunidade rural?
Eles parceriaram com uma associação local de mulheres que administra o programa desde 1997. Os juros são muito baixos — 0,7% ao mês — e o fundo cresceu organicamente. Mais de 1.200 pessoas já foram beneficiadas. Agora eles estão oferecendo limites maiores de empréstimo para famílias que tratam seus filhos, tentando reduzir abortos.
Qual é o impacto real de uma cirurgia bem-sucedida para uma criança que nasceu com essa malformação?
Muda tudo. No Japão, essas crianças recebem tratamento e levam uma vida normal. Aqui, sem tratamento, enfrentam discriminação no trabalho, no casamento, na vida social. Uma mãe que viu seu filho de 3 meses acordar após a cirurgia disse que estava profundamente grata — porque sem essa missão, ela não teria conseguido pagar.
O que mudou quando a fundação introduziu esse novo incentivo de microcrédito?
Eles estão tentando atacar o problema pela raiz. Se mais famílias souberem que podem acessar crédito para o tratamento, talvez menos pais optem pelo aborto ao descobrir a condição no pré-natal. É uma forma de dizer: essa criança pode ter uma vida normal, e nós vamos ajudar você a tornar isso possível.