Toda vez que você adia esse acompanhamento, pode estar se expondo a riscos desnecessários
Exames variam conforme idade, histórico de saúde e fatores genéticos; adolescentes precisam de avaliações básicas enquanto mulheres acima de 40 anos necessitam mamografia e avaliações hormonais. HPV está associado a 90% dos casos de câncer de colo uterino, mas vacinação antes dos 17 anos reduz risco em 88%; acompanhamento regular permite identificação precoce de alterações.
- Exames variam conforme idade, histórico de saúde e fatores genéticos
- HPV está associado a 90% dos casos de câncer de colo uterino
- Vacinação antes dos 17 anos reduz risco de câncer cervical invasivo em 88%
- Tempo médio entre infecção por HPV e possível evolução para câncer é de 7 a 10 anos
- Acompanhamento ginecológico deve continuar na terceira idade, independentemente de atividade sexual
Médicas explicam a importância dos exames ginecológicos para prevenção e diagnóstico precoce, detalhando quais procedimentos são recomendados em cada etapa da vida da mulher, desde a adolescência até a terceira idade.
A mulher que entra no consultório de ginecologia aos vinte anos não precisa dos mesmos exames daquela que chega aos quarenta. Não precisa, também, daqueles que a esperam aos sessenta. O acompanhamento ginecológico é um roteiro que se reescreve a cada década, ajustado não apenas pela idade, mas pela história de cada corpo, seus riscos herdados, seus hábitos, suas escolhas.
Segundo a ginecologista Rita de Cássia de Almeida, essa variação é essencial. Na adolescência e no início da vida adulta — antes dos vinte e cinco anos — o foco recai sobre exames de sangue que mapeiam vitaminas, minerais, glicemia, colesterol, triglicerídeos e ferro. Verifica-se também a imunização contra hepatites e rubéola. Se houver indicação, adiciona-se o exame citopatológico ou o teste de DNA para o papilomavírus humano. Após o início da vida sexual, entram em cena os testes para infecções sexualmente transmissíveis: sífilis, HIV. A partir dos vinte e cinco anos, o preventivo — aquele exame do colo do útero que tantas mulheres conhecem — passa a integrar a rotina, ou o teste molecular para HPV, conforme a avaliação médica.
Para quem planeja engravidar, a investigação se expande. Além dos exames de rotina, acrescentam-se testes para citomegalovirose, toxoplasmose, avaliação da tireoide, tipagem sanguínea e fator Rh. Uma ecografia transvaginal verifica se o útero está anatomicamente preparado para gestar. Aos quarenta anos, surgem a mamografia e a ecografia mamária. Entre quarenta e cinco e cinquenta anos, recomenda-se a primeira colonoscopia com um coloproctologista. Aos sessenta e cinco anos, ou antes se houver indicação clínica, solicita-se a densitometria óssea para avaliar a saúde dos ossos.
Mas o que significa um resultado alterado no preventivo? Caroline Peixoto Bandeira, ginecologista e obstetra do Hospital Tacchini, é clara: não significa necessariamente câncer. Significa que investigação mais detalhada é necessária. O próximo passo costuma ser a colposcopia, um exame que permite visualizar o colo do útero em detalhes através de um equipamento chamado colposcópio. Durante o procedimento, aplicam-se soluções que alteram a coloração dos tecidos, revelando lesões e indicando onde fazer biópsias. A colposcopia é obrigatória quando o exame citopatológico sugere lesão de alto grau, quando há alterações nas células cervicais, ou quando o teste molecular identifica os subtipos 16 e 18 do HPV — aqueles com maior risco de evoluir para câncer.
O HPV em si é extremamente prevalente. Estima-se que cerca de oitenta por cento das pessoas terão contato com o vírus em algum momento da vida. Na maioria dos casos, o organismo o elimina naturalmente. Mas alguns subtipos apresentam potencial maior de causar lesões que podem evoluir para câncer cervical. O HPV está associado a mais de noventa por cento dos casos de câncer do colo do útero. Importante: sua presença não indica promiscuidade, infidelidade ou falta de higiene. O vírus pode permanecer incubado por anos, impossibilitando identificar quando ou por quem a transmissão ocorreu.
As alterações no colo do útero dividem-se em dois grupos. As lesões de baixo grau têm baixa probabilidade de evoluir para algo grave e costumam resolver-se espontaneamente em até dois anos; o tratamento conservador é preferencial. As de alto grau apresentam probabilidade maior de evolução para câncer e exigem tratamento cirúrgico. Entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento de uma lesão que possa evoluir para câncer, o tempo médio estimado é de sete a dez anos. Essa janela temporal é precisamente por que o acompanhamento regular importa tanto: permite identificação precoce e tratamento adequado em tempo hábil.
A vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde desde dois mil e quatorze, reduz o risco de câncer cervical invasivo em oitenta e oito por cento quando administrada antes dos dezessete anos, segundo estudos populacionais. Rita ressalta que a menopausa e o período pós-menopausa exigem atenção especial. Ondas de calor, alterações no sono, irritabilidade, dores articulares, secura vaginal, infecções urinárias, perda involuntária de urina — esses sintomas afetam a qualidade de vida. Hormonioterapia, laser, ultrassom microfocado, eletroporação e outras tecnologias podem oferecer alívio. Mas nada disso funciona sem consultas em dia.
Rita enfatiza que adiar as consultas de rotina compromete o diagnóstico precoce e dificulta o tratamento de problemas que, inicialmente, poderiam ser resolvidos de forma simples. Toda vez que se deixa de fazer a consulta de rotina, corre-se o risco de não identificar uma condição que, com o passar do tempo, pode se tornar mais grave. E isso vale também na terceira idade. Muitas pacientes perguntam se ainda precisam consultar o ginecologista porque já estão idosas ou não têm mais relações sexuais. A resposta é sempre a mesma: devem continuar indo ao médico, independentemente da idade ou da atividade sexual. O acompanhamento feminino é contínuo, adaptado conforme as necessidades de cada paciente, porque cada mulher tem sua própria história clínica.
Citações Notáveis
Quanto mais velhos estivermos, maiores são as chances de termos doenças ou complicações decorrentes delas. Além disso, a nossa genética pode ser favorável ou desfavorável.— Rita de Cássia de Almeida, ginecologista
Um resultado alterado no exame preventivo não significa, necessariamente, que a paciente tenha câncer. A alteração indica a necessidade de uma investigação mais detalhada.— Caroline Peixoto Bandeira, ginecologista e obstetra do Hospital Tacchini
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que os exames mudam tanto ao longo da vida? Não seria mais simples ter um protocolo único?
Porque o corpo feminino não é estático. Aos vinte anos, o risco é diferente do risco aos cinquenta. A genética, os hábitos, a história reprodutiva — tudo isso muda o que você precisa investigar. Um protocolo único deixaria muita gente desprotegida.
E quando um resultado sai alterado? As mulheres imediatamente pensam em câncer.
É compreensível, mas alterado não é sinônimo de câncer. Significa que você precisa olhar mais de perto. A colposcopia, por exemplo, é justamente esse segundo olhar. E entre a infecção e um possível câncer, há sete a dez anos. Tempo suficiente para tratar.
Sete a dez anos é bastante tempo. Por que então as mulheres adiam as consultas?
Porque a rotina consome. Porque às vezes não há sintomas. Porque a prevenção é invisível — você não sente o benefício no dia a dia. Mas é exatamente isso que a torna tão importante. Você está evitando algo que não vai aparecer.
E a vacinação? Oitenta e oito por cento de redução é um número impressionante.
É. E está disponível gratuitamente desde dois mil e quatorze. Mas muita gente ainda não sabe, ou acha que é só para adolescentes. A verdade é que quanto mais cedo, melhor. Mas mesmo quem não foi vacinada pode se proteger através do acompanhamento regular.
Na terceira idade, as mulheres realmente precisam continuar indo ao ginecologista?
Sim. Porque o corpo continua mudando. Secura vaginal, infecções urinárias, perda de urina — esses problemas afetam a qualidade de vida e podem ser tratados. Parar de ir ao médico porque envelheceu é deixar de cuidar de si mesma justamente quando mais se precisa.