Marcelo critica Tribunal de Contas por ultrapassar competências em decisões políticas

Uma opinião que conta em matéria de lei, não em matéria de política
Marcelo define os limites do poder do Tribunal de Contas sobre as decisões dos autarcas eleitos.

Marcelo argumenta que juízes do TdC devem verificar legalidade, não questionar escolhas políticas dos autarcas eleitos. O Tribunal de Contas recusou visto prévio ao Matadouro em 2019, mas Câmara do Porto ganhou recurso um ano depois.

  • Tribunal de Contas recusou visto prévio ao Matadouro em 2019; Câmara do Porto ganhou recurso um ano depois
  • Projeto de reconversão do Matadouro representou investimento de 40 milhões de euros
  • Governo prepara alteração à lei para reduzir visto prévio e aumentar fiscalização a posteriori
  • Marcelo argumenta que juízes devem verificar legalidade, não questionar escolhas políticas dos eleitos

Presidente da República criticou o Tribunal de Contas por ultrapassar competências legais em decisões políticas e administrativas, usando o caso do Matadouro do Porto como exemplo de atraso desnecessário.

No coração do Porto, num edifício que já foi matadouro e agora se chama M-ODU, está em curso uma transformação de 40 milhões de euros. Mas durante anos, esse projeto esteve preso numa batalha administrativa que o Presidente da República veio criticar duramente esta semana. Marcelo Rebelo de Sousa visitava a cidade quando decidiu falar sobre os limites do poder judicial — e sobre quando as instituições ultrapassam as suas fronteiras.

O caso é específico. Em 2019, o Tribunal de Contas recusou o visto prévio ao contrato para a reabilitação do antigo Matadouro de Campanhã. A decisão atrasou o projeto. Mais de um ano depois, a Câmara do Porto ganhou o recurso e conseguiu prosseguir. Agora, com o equipamento em funcionamento, Marcelo questiona se o tribunal deveria ter ido tão longe.

O Presidente argumenta que há uma confusão de papéis. Os juízes do Tribunal de Contas, diz, têm uma função clara: verificar se uma decisão respeita a lei. O que não têm é o direito de questionar as escolhas políticas em si — por que a cultura, por que ali, por que não noutro sítio. Essas decisões pertencem aos autarcas eleitos. "Os autarcas são eleitos para tomarem decisões políticas e administrativas", afirmou Rebelo de Sousa aos jornalistas. "A função dos juízes que controlam a legalidade é saber se respeita a lei ou não."

No caso do Matadouro, Marcelo vê uma lógica clara. O edifício fica numa zona periférica, mais pobre, com menos oferta cultural. Precisamente por isso, argumenta, deveria haver investimento ali — para puxar a cultura para cima, para unir a cidade, para dinamizar a economia. O visto prévio recusado foi, na sua perspetiva, um problema não com o Porto, mas com o próprio tribunal.

O Presidente foi direto na sua crítica: "É uma opinião que conta em matéria de lei, não conta em matéria de administração política e administrativa." Marcelo sublinhou que respeitava a legalidade final do projeto, que foi confirmada, e que se alegrava com a conclusão de que o investimento era legal e respeitava a vontade do presidente da câmara, da assembleia municipal e dos cidadãos. Mas deixou claro que a opinião dos magistrados sobre as escolhas políticas não deveria ter peso.

Este discurso surge num contexto em que o Governo está a preparar uma alteração à lei do Tribunal de Contas. A proposta visa simplificar ou reduzir o visto prévio — aquela aprovação prévia que o tribunal dá antes de um contrato ser executado — e aumentar a fiscalização a posteriori, ou seja, depois de as coisas já terem acontecido. A crítica presidencial alinha-se com essa direção.

Durante a mesma visita ao Porto, Marcelo respondeu também a críticas de Henrique Gouveia e Melo, o almirante que é candidato presidencial e que tinha dito que o Presidente não pode ser um cavalo de troia de partido ou um populista. Marcelo foi tolerante: os candidatos presidenciais têm o direito e o dever de comentar o passado, o presente e o futuro. Ele próprio será Presidente até 9 de março de 2026, mas isso não silencia quem quer suceder-lhe.

O que fica em aberto é se a alteração à lei do Tribunal de Contas conseguirá encontrar consenso. A instituição liderada por Filipa Calvão tem um papel importante na fiscalização das contas públicas. A questão é até onde vai esse papel — se é apenas verificar se a lei foi cumprida, ou se inclui questionar as prioridades políticas dos eleitos.

Os autarcas são eleitos para tomarem decisões políticas e administrativas. A função dos juízes que controlam a legalidade é saber se respeita a lei ou não.
— Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República
É uma opinião que conta em matéria de lei, não conta em matéria de administração política e administrativa.
— Marcelo Rebelo de Sousa, sobre a opinião do Tribunal de Contas
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Inventor

Quando Marcelo diz que o Tribunal de Contas ultrapassou competências, está a falar de um problema real ou é apenas uma discordância política com uma decisão que não gostou?

Model

É ambos. O tribunal recusou o visto prévio em 2019, e a câmara ganhou o recurso um ano depois. Então tecnicamente o tribunal estava errado. Mas a questão mais profunda é: até onde vai o poder de um tribunal de contas? Pode questionar não apenas se a lei foi cumprida, mas também se a escolha política faz sentido?

Inventor

E qual é a resposta que Marcelo dá a isso?

Model

Que não. Que o tribunal verifica legalidade, ponto final. As escolhas políticas — por que investir em cultura numa zona periférica, por que ali e não noutro sítio — essas são responsabilidade dos autarcas eleitos. Se o tribunal começa a questionar essas escolhas, está a fazer política, não justiça.

Inventor

Mas não há um risco em deixar os autarcas completamente livres? Não é para isso que existem instituições de controlo?

Model

Claro que existem. Mas há uma diferença entre controlar se alguém cumpriu a lei e controlar se alguém fez a melhor escolha política. O tribunal de contas deveria fazer o primeiro. O segundo é responsabilidade dos eleitores, nas eleições seguintes.

Inventor

O Governo está a mudar a lei. Isso significa que Marcelo tem razão?

Model

Significa que há uma maioria política que concorda com ele. Mas isso não é o mesmo que ter razão. É uma escolha sobre como queremos que as instituições funcionem. Menos visto prévio, mais fiscalização depois. Mais liberdade para os autarcas, menos poder preventivo para o tribunal.

Inventor

E o Matadouro? Afinal, o projeto correu bem?

Model

Correu bem, sim. Investimento de 40 milhões, zona periférica do Porto, agora tem cultura e dinâmica económica. Marcelo tem razão em dizer que o atraso foi um problema. Mas o tribunal tinha dúvidas legítimas na altura. Só que as resolveu de forma errada — questionando a política, não a legalidade.

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