Chegamos apenas no ano passado, então temos de acelerar
Num movimento que redefine as fronteiras do comércio global, empresas chinesas elegeram o Brasil como seu principal campo de expansão fora da Ásia, injetando seis bilhões de dólares em 2025 em setores que vão de veículos elétricos a infraestrutura de energia. Aproveitando o fechamento dos mercados ocidentais e a proximidade diplomática entre Brasília e Pequim, essa presença cresce com uma velocidade que surpreende até os próprios executivos envolvidos. O Brasil, historicamente receptor passivo de capitais estrangeiros, encontra-se agora no centro de uma disputa tecnológica e comercial cujas consequências — econômicas, sociais e geopolíticas — ainda estão por se revelar.
- Empresas como BYD, Great Wall e Geely avançam sobre o mercado automotivo brasileiro com fábricas bilionárias e estratégias de marketing que contratam as maiores celebridades do país.
- A urgência é declarada: executivos chineses admitem que precisam 'acelerar' para compensar a chegada recente, enquanto Huawei e Hisense elevam o Brasil ao topo de suas prioridades globais.
- O governo brasileiro facilita a expansão — inclusive tomando empréstimos em yuan pela primeira vez — mas enfrenta acusações de ter protegido a BYD de uma lista de empregadores com condições análogas à escravidão.
- Em 2024, mais de 160 trabalhadores chineses foram resgatados em condições precárias na obra da fábrica da BYD na Bahia, expondo a face humana mais sombria desse avanço econômico.
- A próxima disputa será pelas baterias de armazenamento de energia: um leilão em dezembro pode movimentar 1,5 bilhão de dólares, com empresas chinesas já posicionadas para dominar o setor.
Nos últimos dezoito meses, o Brasil tornou-se o principal campo de expansão comercial da China fora da Ásia. Em 2025, empresas chinesas investiram pelo menos seis bilhões de dólares no país — superando os tradicionais fluxos de capital para petróleo e mineração. A estratégia é deliberada: barreiras protecionistas nos Estados Unidos e na Europa empurram essas empresas para mercados alternativos, e o Brasil oferece tanto escala quanto um governo receptivo.
A transformação mais visível acontece nas ruas. A Great Wall Motors assumiu uma antiga fábrica da Mercedes-Benz. A BYD inaugurou sua maior planta fora da Ásia — um investimento de um bilhão de dólares no Nordeste, no terreno onde funcionava uma fábrica da Ford. A Geely adquiriu 26% da Renault Brasil. Essas marcas, junto com a Chery, cresceram mais do que qualquer concorrente no mercado automotivo brasileiro no ano passado.
Para conquistar o consumidor, as empresas chinesas apostaram pesado em marketing. Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert viraram embaixadores da Geely. Bruna Marquezine foi contratada pela Chery por cerca de dez milhões de reais. A Geely patrocinou o Big Brother Brasil — descrito por um executivo como o melhor investimento da empresa até então. A BYD inseriu seus carros em novelas de horário nobre, associando a marca a personagens ricos e modernos.
A próxima fronteira é ainda mais estratégica: baterias de grande porte para armazenamento de energia em redes elétricas. Um leilão previsto para dezembro deve movimentar 1,5 bilhão de dólares, e a BYD já anunciou que essa será sua próxima fase de investimentos no Brasil. Mineradoras de lítio relatam um fluxo constante de visitantes chineses interessados em escala industrial.
Mas esse avanço carrega sombras. Em 2024, a polícia brasileira resgatou mais de 160 trabalhadores chineses trazidos para construir a fábrica da BYD na Bahia, vivendo em condições precárias e com salários muito baixos. A empresa culpou uma subcontratada. O governo, por sua vez, foi acusado de demitir um funcionário do Ministério do Trabalho que havia incluído a BYD em uma lista de empregadores com condições análogas à escravidão. Apesar dessas tensões, a percepção pública mudou: cerca de metade dos brasileiros já considera a China a maior potência tecnológica do mundo — uma virada que, há poucos anos, seria improvável.
Nos últimos dezoito meses, empresas chinesas transformaram o Brasil em um de seus principais campos de batalha comercial. Em 2025, injetaram pelo menos seis bilhões de dólares em diferentes setores da economia brasileira — um volume que superou os investimentos tradicionais em petróleo e mineração. Essa ofensiva não é acidental. É o resultado de uma estratégia deliberada, alimentada por barreiras protecionistas nos Estados Unidos e na Europa, e facilitada por um relacionamento diplomático cada vez mais próximo entre Brasília e Pequim.
A presença mais visível dessa invasão comercial está nas ruas: carros elétricos com marcas que poucos brasileiros conheciam há dois anos. A Great Wall Motors começou a produzir em uma fábrica que pertenceu à Mercedes-Benz em agosto. A BYD, gigante chinesa de baterias e veículos, inaugurou uma fábrica de um bilhão de dólares — a maior que construiu fora da Ásia — em outubro, no Nordeste, ocupando o terreno de uma antiga planta da Ford. A Geely adquiriu uma participação de 26% na Renault Brasil. Essas três marcas, junto com a Chery, cresceram mais que qualquer concorrente no mercado automotivo brasileiro no ano passado.
Mas o que torna essa expansão particularmente agressiva é o investimento em marketing. As empresas chinesas contrataram os rostos mais conhecidos do Brasil para vender seus produtos. Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert — o casal mais querido da televisão brasileira, cujos filhos gêmeos são modelos — tornaram-se embaixadores da Geely. A atriz Bruna Marquezine foi contratada pela Chery por aproximadamente dez milhões de reais. A Geely patrocinou o reality show Big Brother Brasil, que Jianjun Chen, executivo da Renault Geely, descreveu como o melhor investimento da empresa até então. A BYD pagou para que seus carros aparecessem em novelas de horário nobre, em cenas onde personagens ricos escolhiam seus veículos elétricos como símbolo de modernidade e acessibilidade.
Essa estratégia de marketing agressivo reflete a urgência das empresas chinesas. "Chegamos ao Brasil apenas no ano passado, então temos de acelerar", explicou Chen. A China não está aqui apenas para vender carros. Está aqui para dominar setores de alta tecnologia. Executivos da Hisense e da Huawei afirmaram que o Brasil é agora uma prioridade máxima para suas operações globais. A Huawei declarou que o Brasil será seu mercado mais lucrativo em 2026, com exceção da própria China.
A próxima fronteira é ainda mais ambiciosa: baterias de grande porte para armazenar energia em redes elétricas. Um leilão previsto para dezembro deve arrecadar 1,5 bilhão de dólares em investimentos em sistemas de armazenamento de energia solar e eólica, além de alimentação de data centers. Em junho, a BYD anunciou que sua próxima fase de investimentos no Brasil seria precisamente em baterias. Daniel Abdo, da Sigma Lithium — a maior empresa de lítio do Brasil — relatou que a principal mina da empresa em Araçuaí, Minas Gerais, tem recebido uma enxurrada de visitantes chineses interessados em escala de rede.
O bom relacionamento entre os governos facilita tudo isso. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. Em junho, o ministro da Fazenda anunciou que o Brasil tomaria empréstimos em yuan pela primeira vez. Mas esse relacionamento também mascara tensões. Em abril, o governo foi acusado de demitir um funcionário do Ministério do Trabalho por incluir a BYD em uma lista de empregadores acusados de submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão. A empresa alegou desconhecimento e culpou uma subcontratada.
Em 2024, a polícia brasileira resgatou mais de 160 trabalhadores chineses trazidos para construir a fábrica da BYD na Bahia. Viviam em condições precárias e recebiam salários muito baixos. A BYD afirmou ter corrigido as irregularidades. Apesar disso, a percepção pública sobre a China mudou. Pesquisas mostram que cerca de metade dos brasileiros agora considera a China a maior potência tecnológica do mundo — uma mudança significativa em relação aos anos anteriores, quando as marcas chinesas enfrentavam desconfiança. "No passado, os consumidores tinham reservas", reconheceu um executivo da Huawei. "Isso mudou."
Notable Quotes
Uma família bonita como essa tem uma influência real aqui no Brasil. Chegamos ao Brasil apenas no ano passado, então temos de acelerar o marketing.— Jianjun Chen, executivo da Renault Geely
Foi o melhor investimento que fizemos este ano até agora— Jianjun Chen, sobre o patrocínio do Big Brother Brasil
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que agora? Por que a China escolheu o Brasil como prioridade neste momento?
Porque os caminhos tradicionais fecharam. Os Estados Unidos e a Europa ergueram barreiras protecionistas. A China precisa de novos mercados para seus produtos de alta tecnologia, e o Brasil oferece três coisas: acesso a recursos naturais como lítio, um mercado consumidor em crescimento, e um governo que não coloca obstáculos.
Mas há um custo humano aqui. Trabalhadores chineses em condições precárias, salários baixíssimos. Como as empresas justificam isso?
Elas dizem que não sabiam, que foi culpa de subcontratadas. Mas a verdade é que quando você traz 160 pessoas de um país para outro e as coloca em condições análogas à escravidão, alguém sabia. O governo brasileiro resgatou essas pessoas, mas a BYD continua expandindo.
E os brasileiros? Eles estão percebendo essa contradição?
Alguns sim, mas muitos não. A percepção mudou. Metade dos brasileiros agora vê a China como líder em tecnologia. As celebridades que contrataram — Fernanda Lima, Bruna Marquezine — têm mais influência do que qualquer relatório sobre direitos trabalhistas.
Então é uma vitória completa para a China?
Ainda não. O leilão de baterias em dezembro será o teste real. Se a China conseguir dominar o armazenamento de energia no Brasil, terá controle sobre uma infraestrutura crítica. Isso é poder de verdade.
E o Brasil? Ganha ou perde?
Ganha empregos e tecnologia no curto prazo. Mas perde soberania tecnológica no longo prazo. Quando você deixa uma potência estrangeira controlar seus setores de alta tecnologia, você fica dependente dela.