É o meu espaço zen — sem regras, sem limite de tempo
Numa ilha dos Açores onde a arte sempre circulou entre gerações — pincéis de pintura, navalhas de barbeiro, louça decorada —, Catarina Rocha encontrou na maquilhagem artística a síntese de tudo o que a família lhe ensinou sobre transformação. Aos vinte e poucos anos, esta jovem terceirense já venceu concursos internacionais e enfrentou caracterizações de grande complexidade técnica, construindo, passo a passo, a prova de que uma vocação nascida em festividades pode tornar-se uma profissão legítima. O seu percurso levanta uma questão que atravessa muitas histórias criativas: quando a herança encontra a determinação, quanto tempo demora o talento a ser reconhecido pelo mundo?
- Catarina cresceu entre telas, esculturas e barbearias, mas foi o Halloween e o Carnaval que revelaram onde a sua criatividade realmente vivia.
- O maior teste chegou no Carnaval da Terceira: quatro dias seguidos para transformar um ator numa personalidade conhecida da ilha, usando técnicas e materiais que nunca tinha experimentado antes.
- Em 2022, uma decisão de última hora antes de viajar rendeu-lhe a vitória num concurso internacional de Halloween — uma confirmação inesperada de que o seu trabalho ultrapassava fronteiras locais.
- Inspirada por nomes como Pat McGrath e Nikkie Tutorials, Catarina recusa a ideia de que a maquilhagem artística é apenas um hobby, e trabalha para provar que pode ser uma carreira a tempo inteiro.
- O caminho aponta para sets de cinema e projetos editoriais — espaços onde a transformação do rosto humano é levada a sério como forma de arte e narrativa.
Catarina Rocha cresceu num ambiente onde criar era tão natural quanto respirar. A mãe e a avó pintavam telas e esculturas; o pai e o avô eram barbeiros. Neste cruzamento entre arte e estética, ela aprendeu cedo que transformar uma superfície — ou uma pessoa — era não só possível como desejável. Hoje, essa herança converteu-se numa paixão obsessiva pela maquilhagem artística.
Foi o Halloween e o Carnaval que moldaram o seu percurso. Quando trabalha em si mesma, dedica dias inteiros ao processo: pesquisa imagens, filma cada passo, verifica se a ilusão funciona. As horas desaparecem. Ela descreve esse estado como um espaço zen — sem regras certas ou erradas, apenas criatividade sem limites. O seu método é meticuloso: estuda técnicas de múltiplos ângulos, escolhe materiais com cuidado, e domina a estrutura do rosto para criar dimensão com sombras e brilhos.
O maior desafio surgiu no Carnaval da Terceira, quando teve de transformar o ator Cláudio Oliveira na figura do Sr. João Gil — torná-lo careca, aplicar uma prótese de cabelo, alterar a expressão facial — durante quatro dias consecutivos, com técnicas que nunca tinha usado antes. Mas nem sempre o sucesso exige tanto planeamento: em 2022, participou de última hora num concurso internacional de Halloween e, já noutro país, começou a receber notificações. Tinha ganho.
Inspirando-se em artistas internacionais como Mei Pang, Nikkie Tutorials e Pat McGrath, Catarina vê neles a prova de que este tipo de criatividade pode ser uma carreira legítima. O seu sonho é trabalhar em sets de filmes e projetos editoriais — espaços que exijam verdadeira transformação. Tudo indica que tem as ferramentas, a dedicação e o talento para chegar lá.
Catarina Rocha cresceu rodeada de tinta e criatividade. A mãe e a avó pintavam telas, louça e esculturas. Do outro lado da família, o pai era barbeiro, como o avô antes dele. Neste ambiente onde a arte e a estética se entrelaçavam naturalmente, ela aprendeu cedo que transformar algo — uma superfície, uma pessoa, uma ideia — era possível e desejável. Hoje, aos vinte e poucos anos, essa herança familiar converteu-se numa paixão obsessiva pela maquilhagem artística, e ela sonha fazer disso uma profissão.
O caminho até aqui foi pavimentado por Halloween e Carnaval. Foram estas festividades que moldaram o seu percurso criativo, transformando pequenos interesses dispersos numa única vocação: criar ilusões no rosto humano, recriar personagens, mergulhar na fantasia. Quando trabalha em si mesma, dedica dias inteiros ao processo. Começa devagar, fotografa cada passo, verifica se a ilusão funciona. As horas desaparecem. Os filmes acabam. Ela continua, perdida no trabalho, até que a imagem final corresponde exatamente ao que tinha imaginado. É, diz ela, um espaço zen — sem regras certas ou erradas, sem pressão de tempo, apenas criatividade sem limites.
O seu método é meticuloso. Quando escolhe uma caracterização para recriar, começa por pesquisar intensivamente: imagens, vídeos do processo vistos de múltiplos ângulos, técnicas utilizadas. Depois vem a escolha de materiais — o que foi usado originalmente, o que tem disponível, o que pode improvisar ou substituir. Compreender a estrutura do rosto humano é fundamental. Saber criar dimensão com sombras e brilhos é indispensável. Os produtos precisam de ser bem pigmentados. As tintas de água opacas em branco e preto são essenciais. Os pincéis têm de ser finos o suficiente para os detalhes mais minuciosos.
O maior desafio que enfrentou até agora aconteceu no Carnaval da Terceira, no bailinho do Grupo Amigos do Carnaval de São Brás. Teve de transformar o ator Cláudio Oliveira na figura do Sr. João Gil, uma personalidade bem conhecida na ilha. Não era apenas uma questão de maquilhagem: precisava de o tornar careca, aplicar uma prótese de cabelo para imitar o penteado da personagem, alterar a sua expressão facial. Tudo isto durante quatro dias seguidos, com um horário apertado e usando técnicas e produtos que nunca tinha experimentado antes. Foi um teste completo às suas capacidades.
Mas nem sempre o sucesso requer tanto planeamento. Em 2022, participou de última hora num concurso internacional de Halloween organizado pela criadora @mindofmary_. Não tinha planeado participar — ia viajar. Mas no último dia possível antes de sair da ilha, decidiu arriscar. Dias depois, já noutro país, começou a receber notificações. Tinha ganho. A vitória chegou de forma inesperada, quase acidental, mas revelou algo importante: o seu trabalho tinha qualidade suficiente para competir e vencer em plataformas internacionais.
Quando trabalha em outras pessoas, a sua abordagem muda. Prefere a simplicidade — uma forma de transformar o rosto mantendo a naturalidade. As suas inspirações vêm de artistas que segue desde que começou a explorar maquilhagem pelo YouTube: Mei Pang, Nikkie Tutorials, Mykie, Mind of Mary, Doniella Davy, Pat McGrath. Nomes internacionais que mostram que este tipo de criatividade pode ser uma carreira legítima, não apenas um hobby.
Para o futuro, o sonho é claro: transformar esta paixão numa carreira a tempo inteiro. Não quer apenas maquilhar para eventos locais. Quer trabalhar em sets de filmes, em projetos editoriais, em trabalhos que exijam criação e transformação. Quer criar, transformar e inspirar. É este o caminho que pretende continuar a seguir, e tudo indica que tem as ferramentas, a dedicação e o talento para o fazer.
Notable Quotes
Cresci com a minha mãe e a minha avó a pintar, desde telas, louça, esculturas. Tive a liberdade de explorar imensos tipos de suportes e técnicas.— Catarina Rocha
Para mim, é uma escapatória criativa que, embora seja um processo demorado e cheio de pormenor, me relaxa e enche de felicidade.— Catarina Rocha
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que uma pessoa passa de gostar de maquilhagem a vencer concursos internacionais?
Acho que é a diferença entre fazer algo porque gosta e fazer algo com intenção. Catarina não estava apenas a brincar com maquilhagem — estava a estudar, a pesquisar, a testar técnicas. Quando participou naquele concurso em 2022, mesmo de última hora, levava consigo anos de prática.
Mas ela diz que nem planeava participar. Como é que isso resulta em vitória?
Porque o trabalho fala por si. Quando tens a base técnica sólida — quando sabes como funciona a estrutura do rosto, como criar dimensão, quais são os materiais certos — consegues improvisar bem. A falta de planeamento não foi uma desvantagem; foi quase uma prova de que ela domina o ofício.
O que a distingue de outras pessoas que também gostam de maquilhagem?
A dedicação ao detalhe. Ela passa dias inteiros num único trabalho. Fotografa cada passo. Estuda vídeos de vários ângulos. Não é alguém que faz maquilhagem; é alguém que estuda maquilhagem como se fosse uma língua estrangeira que precisa de dominar completamente.
E a herança familiar — quanto é que isso conta?
Muito. Crescer num ambiente onde a mãe e a avó pintavam, onde o pai era barbeiro — isso não é coincidência. Ela aprendeu desde cedo que transformar algo é um ato criativo legítimo. Não teve de convencer ninguém de que isto era válido; estava já no DNA da família.
Qual é o maior obstáculo agora?
Profissionalizar isto. Os Açores são pequenos. Há espaço para eventos locais, para Carnaval, para Halloween. Mas para trabalhar em sets de filmes ou em projetos editoriais internacionais? Isso requer estar onde está a indústria. É o passo seguinte que ela precisa de dar.