Magreza extrema em mulheres acima de 40 anos aumenta risco de transtornos alimentares

Mulheres mais velhas enfrentam riscos significativos de desnutrição, transtornos alimentares, fraturas ósseas e doenças cardiovasculares ao perseguir padrões estéticos de magreza extrema.
É uma loucura o que as mulheres acabam fazendo para tentar obter isso
Endocrinologista sobre a busca por manter o corpo dos 20 anos após os 40.

Em um país que lidera o mundo em procedimentos estéticos, mulheres brasileiras acima dos 40 anos tornaram-se as maiores consumidoras de medicamentos emagrecedores, perseguindo um ideal de magreza que celebridades internacionais ajudam a normalizar. O que parece uma escolha estética revela, na verdade, uma vulnerabilidade fisiológica e psicológica singular: o corpo na meia-idade não suporta restrições severas sem perder músculo, osso e equilíbrio metabólico. Especialistas alertam que a busca por parecer jovem através da magreza extrema pode acelerar exatamente o envelhecimento que se tenta evitar — e, em casos graves, custar a vida.

  • Mulheres com idade média de 47 anos lideram o consumo de emagrecedores no Brasil, muitas vezes sem qualquer acompanhamento médico, impulsionadas por imagens de celebridades em tapetes vermelhos.
  • A menopausa já fragiliza o organismo — e a restrição calórica severa nesse período acelera a perda de massa muscular, colágeno e tecido ósseo, abrindo caminho para osteoporose, arritmias e desnutrição.
  • Pesquisadores alertam que as mudanças hormonais da menopausa podem ser tão propícias ao desenvolvimento de transtornos alimentares quanto a puberdade, criando uma janela de risco invisível para mulheres mais velhas.
  • Um estudo publicado na Nature revelou que, em mulheres acima de 60 anos, os índices de massa corporal mais baixos estão associados à maior mortalidade — invertendo a lógica estética dominante.
  • Especialistas recomendam que qualquer emagrecimento nessa faixa etária seja conduzido com treino de força, proteína adequada e supervisão médica — não como concessão, mas como condição mínima de segurança.

Nas grandes cidades brasileiras, mulheres com mais de 40 anos carregam uma pressão estética que antes recaía sobre adolescentes. A magreza extrema voltou como padrão cultural, alimentada pela visibilidade de atrizes internacionais que surgem em eventos públicos com corpos cada vez mais enxutos. Esse espelho midiático reverbera nos consultórios e nas farmácias: mulheres com idade média de 47 anos são hoje as maiores consumidoras de medicamentos emagrecedores no Brasil, segundo levantamento da Folha com dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados. O país também lidera o mundo em procedimentos estéticos, com mais de 2,3 milhões de cirurgias realizadas em 2024.

O problema central é que o corpo na meia-idade não responde como respondia aos 20 anos. A menopausa redistribui gordura, reduz colágeno e altera o metabolismo ósseo. Quando essas transformações naturais encontram uma cultura que as associa ao fracasso, instala-se um conflito interno com consequências clínicas reais. O psiquiatra Fábio Salzano, do Instituto de Psiquiatria da USP, descreve esse período como uma janela de vulnerabilidade única para transtornos alimentares — comparável, segundo artigo publicado em 2025, ao impacto da puberdade na adolescência.

Os riscos físicos são graves e concretos. A restrição severa de calorias e nutrientes consome massa muscular — que não é apenas estética, mas um órgão regulador do metabolismo, como explica a endocrinologista Karen de Marca. Perde-se também tecido ósseo, aumentando o risco de fraturas e osteoporose. Arritmias, cabelos quebradiços, pele envelhecida e sinais de desnutrição completam o quadro. E há um paradoxo cultural perverso: quando uma mulher mais velha emagrece drasticamente, em vez de preocupação, recebe elogios.

Um estudo publicado na Nature em 2023, acompanhando mais de 18 mil adultos por quase sete anos, revelou que, em mulheres mais velhas, os índices de massa corporal mais baixos estão associados à maior mortalidade. Isso não condena o emagrecimento, mas exige que ele seja conduzido de forma radicalmente diferente: com treino de força, proteína, cálcio, vitaminas e acompanhamento médico. A mensagem dos especialistas não é de resignação, mas de lucidez — saúde e longevidade não cabem dentro de um corpo esquálido.

Nas ruas de qualquer grande cidade brasileira, mulheres com mais de 40 anos carregam uma pressão estética que antes era privilégio das adolescentes. A magreza extrema voltou à moda — não como um capricho passageiro, mas como um padrão que atravessa gerações. Atrizes como Olivia Wilde, aos 42 anos, Nicole Kidman, aos 59, e Demi Moore, aos 63, aparecem nos tapetes vermelhos com corpos cada vez mais enxutos, e essa visibilidade reverbera nas consultórios e nas farmácias brasileiras.

Os números revelam a dimensão do fenômeno. Mulheres com idade média de 47 anos são as maiores consumidoras de medicamentos emagrecedores no Brasil, conforme levantamento realizado este ano pela Folha a partir dos dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados. Muitas delas recorrem a esses remédios sem orientação médica ou simplesmente restringem drasticamente a ingestão de alimentos, movidas por uma lógica que parece simples: parecer mais jovem é parecer mais magra, e parecer mais magra é parecer bem-sucedida. O Brasil, aliás, lidera o mundo em procedimentos estéticos faciais — 910.879 em 2024 — seguido pelos Estados Unidos com 563.426 e pelo México com 292.478. Somos também campeões mundiais em cirurgias nas pálpebras e em procedimentos estéticos cirúrgicos, totalizando 2.354.513 em 2024.

O que torna essa busca particularmente perigosa nessa faixa etária é que o corpo aos 40, 50 ou 60 anos não responde como responderia aos 20. A menopausa traz mudanças inevitáveis: gordura se deposita na região abdominal, o colágeno diminui, rugas surgem. Essas transformações são naturais, mas quando encontram uma cultura que as rejeita e as associa ao fracasso, criam um conflito interno devastador. Fábio Salzano, psiquiatra e vice-coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP, descreve esse período como uma janela de vulnerabilidade única. Um artigo publicado no International Journal of Eating Disorders em 2025 sugere que as mudanças da menopausa podem ser tão significativas para o desenvolvimento de transtornos alimentares em mulheres quanto a puberdade é na adolescência.

Os riscos físicos são concretos e graves. Quando uma mulher acima de 40 anos restringe severamente calorias, nutrientes e minerais como cálcio, seu corpo começa a se consumir de dentro para fora. A massa muscular desaparece — e aqui está o paradoxo: o músculo não é apenas fonte de força ou definição. Ele é um órgão regulador do metabolismo, explica Karen de Marca, endocrinologista e presidente eleita da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. É dentro do músculo que a sensibilidade à insulina melhora, onde receptores para o GLP-1 funcionam. Perder muita massa muscular significa perder também esses benefícios metabólicos. Além disso, a restrição alimentar acelera a perda de tecido ósseo, aumentando o risco de osteoporose e fraturas. Arritmias e outras doenças cardiovasculares podem surgir. Cabelos e unhas ficam quebradiços. A pele envelhece mais rapidamente. Mulheres que usam medicamentos emagrecedores relatam fraqueza, desânimo e baixa energia — sinais de desnutrição.

Há também uma questão cultural profunda em jogo. Salzano aponta que as pessoas acreditam que parecer mais jovem e mais magra as fará "contar mais pontos". E quando uma mulher perde muito peso, em vez de gerar preocupação, ela recebe elogios: "Que ótimo, você tem 60 anos com o corpo de uma adolescente". Mas por que esse deveria ser o foco nessa idade? Por que se submeter a um risco aumentado de desenvolver um transtorno alimentar para alcançar um ideal que é, fundamentalmente, impossível? De Marca é direta: "É impossível manter o mesmo corpo, a mesma pele e o mesmo cabelo que você tinha aos 20, 30 anos. E é uma loucura o que as mulheres acabam fazendo para tentar obter isso".

Um estudo publicado na Nature em 2023, acompanhando mais de 18 mil adultos por quase sete anos, revelou algo contra-intuitivo: a gordura tem um efeito protetor. Em mulheres mais velhas, a mortalidade por todas as causas foi mais alta entre aquelas com o índice de massa corporal mais baixo. Isso não significa que o emagrecimento seja contraindicado para essa faixa etária, mas que ele precisa ser conduzido de forma radicalmente diferente. O caminho, segundo os especialistas, é associar qualquer estratégia de perda de peso a treino de força e aporte adequado de proteína, cálcio e vitaminas — sempre com acompanhamento médico. Não se trata de aceitar passivamente as mudanças do envelhecimento, mas de reconhecer que a saúde e a longevidade não cabem dentro de um corpo esquálido.

É impossível manter o mesmo corpo, a mesma pele e o mesmo cabelo que você tinha aos 20, 30 anos
— Karen de Marca, endocrinologista e presidente eleita da SBEM
Há uma questão cultural que faz com que as pessoas pensem que se parecerem mais novas e mais magras, contarão mais pontos
— Fábio Salzano, psiquiatra e vice-coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do IPq
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que essa pressão estética afeta especificamente mulheres acima de 40 anos agora? Não era assim antes.

Model

Porque a magreza extrema voltou à moda como padrão, e agora temos celebridades com 50, 60 anos exibindo corpos de adolescentes. Antes, havia uma aceitação maior das mudanças do envelhecimento. Agora, a mensagem é: você pode — e deve — parecer sempre jovem.

Inventor

E por que as mulheres dessa idade são as maiores consumidoras de medicamentos emagrecedores?

Model

Porque é um período de vulnerabilidade. A menopausa traz mudanças corporais que as mulheres rejeitam, há pressão estética, e esses medicamentos prometem uma solução rápida. Sem contar que muitas usam sem orientação médica.

Inventor

Qual é o perigo real de perder muita massa muscular?

Model

Você perde mais do que força. O músculo regula o metabolismo, melhora a sensibilidade à insulina. Se você perde muita massa muscular perseguindo magreza, perde também esses benefícios metabólicos. É um tiro que sai pela culatra.

Inventor

Então o Brasil está especialmente vulnerável a isso?

Model

Sim. Somos o país com mais procedimentos estéticos faciais do mundo. A cultura de transformação estética é muito forte aqui. Isso amplifica a mensagem de que você precisa estar sempre se modificando.

Inventor

Os especialistas estão dizendo que as mulheres não devem emagrecer?

Model

Não. Estão dizendo que o emagrecimento precisa ser acompanhado, associado a treino de força, proteína adequada, cálcio, vitaminas. Sem radicalismo. O problema é a obsessão pela magreza extrema, não o emagrecimento em si.

Fale Conosco FAQ