É como se um corpo muito magro estivesse associado à felicidade
Celebridades como Olivia Wilde, Nicole Kidman e Demi Moore normalizam corpos esquálidos em idades avançadas, influenciando mulheres brasileiras a buscarem emagrecedores sem orientação médica. Mulheres com idade média de 47 anos são maiores consumidoras de canetas emagrecedoras no Brasil; a menopausa intensifica vulnerabilidade a transtornos alimentares tanto quanto a puberdade na adolescência.
- Mulheres com idade média de 47 anos são as maiores consumidoras de canetas emagrecedoras no Brasil
- Brasil realizou 910.879 procedimentos estéticos faciais em 2024, mais que EUA e México juntos
- Menopausa é tão significativa para transtornos alimentares em mulheres quanto puberdade em adolescentes
- Restrição severa de calorias acelera perda óssea e aumenta risco de osteoporose, fraturas e arritmias
Mulheres acima de 40 anos enfrentam pressão estética crescente pela magreza extrema, aumentando riscos de transtornos alimentares, osteoporose e problemas cardiovasculares. Especialistas alertam que essa busca radical por corpos magros na meia-idade é especialmente perigosa.
A silhueta esquálida voltou à moda. Não é novidade — a britânica Kate Moss já havia consagrado esse padrão nos anos 1990 — mas desta vez o fenômeno não se limita às adolescentes que folheiam revistas de moda. Agora, mulheres na casa dos 40, 50 e 60 anos perseguem o mesmo ideal de magreza extrema. Olivia Wilde, aos 42 anos, Nicole Kidman, com 59, e Demi Moore, aos 63, desfilam em tapetes vermelhos com corpos cada vez mais enxutos, normalizando uma estética que, para essa faixa etária, carrega riscos sérios à saúde.
O problema não é apenas estético. Quando uma mulher passa dos 40 anos e decide correr atrás de um corpo esquálido, ela enfrenta um cenário biológico completamente diferente daquele de uma jovem. O corpo envelhece. A menopausa chega com suas mudanças inevitáveis: gordura se deposita na barriga, o colágeno cai, as rugas aparecem. Nesse contexto de vulnerabilidade física, a pressão estética não diminui — pelo contrário, intensifica-se. E as mulheres brasileiras estão respondendo a essa pressão de forma preocupante. Dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados mostram que mulheres com idade média de 47 anos são as maiores consumidoras de canetas emagrecedoras no país, muitas vezes sem qualquer orientação médica.
Segundo Fábio Salzano, psiquiatra e vice-coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP, esse período representa uma janela de vulnerabilidade tão significativa quanto a puberdade. Um artigo publicado no International Journal of Eating Disorders em 2025 confirmou essa observação: as transformações associadas à menopausa podem ser tão determinantes para o desenvolvimento de transtornos alimentares em mulheres quanto a adolescência é para meninas. Histórico familiar de problemas psiquiátricos, isolamento social, alterações na autoimagem e exposição a dietas muito restritivas — com ou sem medicamentos — aumentam esse risco de forma considerável.
O Brasil lidera o mundo em procedimentos estéticos. Em 2024, foram realizados 910.879 procedimentos faciais, mais que os Estados Unidos (563.426) e o México (292.478) juntos. Somos também campeões mundiais em cirurgias nas pálpebras e lideramos em procedimentos cirúrgicos estéticos em geral, com 2.354.513 realizados no mesmo ano. Essa cultura de transformação corporal constante cria um ambiente onde a magreza extrema é não apenas desejada, mas esperada. Karen de Marca, endocrinologista e presidente eleita da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, é clara: "É impossível manter o mesmo corpo, a mesma pele e o mesmo cabelo que você tinha aos 20, 30 anos. E é uma loucura o que as mulheres acabam fazendo para tentar obter isso."
O custo fisiológico dessa perseguição é alto. Mulheres acima de 40 ou 50 anos que buscam magreza extrema através de restrição severa de calorias, nutrientes e minerais como cálcio têm maior probabilidade de perder tecido ósseo rapidamente e desenvolver osteoporose, sofrer fraturas, e enfrentar arritmias e outras doenças cardiovasculares. Uma dieta pobre e muito restritiva deixa cabelos e unhas quebradiços e a pele com aspecto mais envelhecido — exatamente o oposto do que essas mulheres buscam. Usuárias de canetas emagrecedoras relatam fraqueza, desânimo e baixa energia, sinais de desnutrição e da falta de substratos necessários para a formação óssea e muscular.
O músculo, hoje reconhecido como um órgão regulador do metabolismo, é particularmente importante nessa equação. Conforme De Marca explica, é dentro do músculo que a sensibilidade à insulina melhora, e é lá que estão os receptores para o GLP-1, um dos fatores que contribuem para a melhora metabólica proporcionada pelas canetas emagrecedoras. Mas se uma mulher perde muita massa muscular no processo de emagrecimento, perde também esses benefícios. Um estudo publicado na Nature em 2023, acompanhando mais de 18 mil adultos por quase sete anos, mostrou algo surpreendente: em mulheres mais velhas, a mortalidade por todas as causas foi mais alta entre aquelas com o índice de massa corporal mais baixo.
Salzano toca em algo cultural que explica por que tantas mulheres se submetem a esses riscos. "Há uma questão cultural que faz com que as pessoas pensem que se parecerem mais novas e mais magras, contarão mais pontos. E, infelizmente, quando perdem muito peso, em vez de receberem preocupação, elas são recompensadas com elogios." Ninguém questiona quando alguém diz: "Que ótimo, você tem 60 anos com o corpo de uma adolescente." Mas por que esse deveria ser o foco nessa idade? Por que se submeter a um risco aumentado de transtorno alimentar para alcançar um ideal que não apenas é inatingível, mas também prejudicial?
Os especialistas não pedem que mulheres acima de 40 anos abandonem a ideia de emagrecer. De Marca é clara: o caminho não é contraindicar o emagrecimento, mas reconhecer que ele precisa ser conduzido de forma diferente, sem radicalismo. O ideal é associar qualquer estratégia de perda de peso a treino de força e aporte adequado de proteína, cálcio e vitaminas, sempre com acompanhamento médico. A questão não é se as mulheres podem emagrecer nessa idade — é como fazê-lo sem destruir o corpo que as sustenta.
Notable Quotes
É impossível manter o mesmo corpo, a mesma pele e o mesmo cabelo que você tinha aos 20, 30 anos. E é uma loucura o que as mulheres acabam fazendo para tentar obter isso.— Karen de Marca, endocrinologista e presidente eleita da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
Há uma questão cultural que faz com que as pessoas pensem que se parecerem mais novas e mais magras, contarão mais pontos. E, infelizmente, quando perdem muito peso, em vez de receberem preocupação, elas são recompensadas com elogios.— Fábio Salzano, psiquiatra e vice-coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essa pressão estética é tão intensa justamente nessa faixa etária? Não deveria ser o oposto?
A menopausa traz mudanças corporais inevitáveis, e é exatamente nesse momento que a cultura diz que você precisa parecer mais jovem. É uma combinação perfeita de vulnerabilidade biológica com pressão social amplificada.
As celebridades têm responsabilidade nisso?
Elas normalizam algo que é biologicamente prejudicial. Quando Demi Moore aparece aos 63 anos com um corpo de adolescente, a mensagem que passa é que isso é possível e desejável. Mas o custo fisiológico é invisível.
Por que as mulheres brasileiras especificamente estão usando tantas canetas emagrecedoras?
Porque vivemos em um país que faz mais procedimentos estéticos que qualquer outro no mundo. A cultura de transformação corporal é profunda aqui. E essas canetas são acessíveis, parecem seguras porque são medicamentos, e ninguém está supervisionando o uso.
A menopausa realmente torna as mulheres tão vulneráveis a transtornos alimentares quanto a puberdade?
Segundo a pesquisa, sim. As mudanças corporais são comparáveis em impacto psicológico. Mas na adolescência há mais vigilância. Aos 47 anos, a mulher está sozinha com suas escolhas.
E se uma mulher quer emagrecer nessa idade? É impossível fazer isso de forma segura?
Não é impossível. É possível, mas exige acompanhamento médico, treino de força, proteína adequada, cálcio. O problema é que a maioria tenta sozinha, com restrição severa, e aí os danos aparecem rapidamente.