Lula se reúne a sós com Papa Francisco no Vaticano para discutir paz e Amazônia

Um bispo foi condenado a 26 anos de prisão na Nicarágua; escolas católicas foram tomadas, rádios fechadas e ordens de freiras expulsas do país.
Um bispo foi condenado a 26 anos de prisão; escolas foram tomadas
A perseguição religiosa na Nicarágua sob o regime de Daniel Ortega foi um dos temas centrais da conversa diplomática.

Na tarde de 21 de junho, o presidente Lula e o Papa Francisco se encontraram a sós no Vaticano, unindo dois líderes que carregam, cada um à sua maneira, o peso de causas que transcendem fronteiras. Entre eles, a guerra na Ucrânia, a floresta amazônica e a perseguição à Igreja Católica na América Latina formavam uma agenda que não cabe em comunicados oficiais. O encontro revelou menos uma negociação e mais um alinhamento de consciências — dois homens tentando coordenar como o mundo deve ser defendido.

  • A Igreja Católica enfrenta uma ofensiva sem precedentes na Nicarágua: um bispo preso por 26 anos, escolas tomadas, freiras expulsas e o próprio representante do papa banido do país.
  • Francisco, que na véspera recebeu o presidente cubano Díaz-Canel, precisava de Lula como ponte diplomática para regimes de esquerda que sufocam a presença religiosa em seus territórios.
  • Lula carregava para o Vaticano não apenas escuta, mas um convite: trazer o papa de volta ao Brasil, à Amazônia, ao Círio de Nazaré em Belém — cidade que sediará a COP-30 em 2025.
  • O triângulo entre Roma, Brasília e Havana desenhava uma diplomacia delicada, onde questões religiosas tentam não se perder no ruído das negociações políticas maiores.
  • Ao sair da sala Auletta Paulo VI, Lula partia como mensageiro — carregando preocupações do papa para outros líderes, enquanto Francisco ganhava um aliado em seu próprio continente.

Na tarde de quarta-feira, 21 de junho, Lula entrou no Vaticano para uma conversa fechada com o Papa Francisco. A agenda era densa: a guerra na Ucrânia, a Amazônia sob pressão, a pobreza persistente e, sobretudo, a situação da Igreja Católica em países da América Latina onde regimes autoritários avançam sobre instituições religiosas.

A Nicarágua concentrava as maiores preocupações de Roma. O governo de Daniel Ortega havia condenado um bispo a 26 anos de prisão, tomado escolas católicas, fechado rádios religiosas e expulsado ordens de freiras e o próprio representante do papa no país. A expectativa era que Francisco pedisse a Lula que usasse sua influência para abrir algum canal com Ortega. Cuba e Venezuela também estavam na lista — e o fato de Francisco ter recebido o presidente cubano Díaz-Canel na véspera, enquanto Lula se encontraria com ele em Paris no dia seguinte, criava um triângulo diplomático delicado.

Do lado brasileiro, havia um convite a fazer. Lula queria que o papa voltasse ao Brasil — especificamente à Amazônia e às celebrações do Círio de Nazaré em Belém, cidade que sediará uma cúpula amazônica em agosto e a COP-30 em 2025. A presença de Francisco teria peso tanto simbólico quanto político num momento em que o Brasil tenta se reposicionar como voz global na agenda climática.

O encontro era, no fundo, menos sobre resolver crises imediatas e mais sobre coordenar como falar delas. Lula saía do Vaticano como mensageiro, carregando preocupações do papa para outros líderes. Francisco, por sua vez, ganhava um aliado num continente onde a Igreja enfrenta pressões crescentes.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou na sala Auletta Paulo VI do Vaticano na tarde de quarta-feira, 21 de junho, pouco depois das 14h15. Estava ali para uma conversa fechada com o Papa Francisco — o tipo de encontro que diplomatas acompanham de longe, tentando adivinhar o que foi dito pelas entrelinhas do que vem depois.

A agenda era pesada. Lula e Francisco tinham diante deles a guerra na Ucrânia, a floresta amazônica sob pressão, a pobreza que não cessa, e a Igreja Católica enfrentando perseguição em vários cantos da América Latina. Depois de conversar a sós com o papa, Lula seguiria para uma segunda rodada de discussões com o arcebispo Edgar Parra Peña, substituto da Secretaria de Estado da Santa Sé — o braço diplomático do Vaticano.

O que preocupava Roma, segundo diplomatas, era a situação na Nicarágua. O regime de Daniel Ortega tinha se movido contra a Igreja com uma dureza que surpreendia até quem acompanhava de perto. Um bispo foi condenado a 26 anos de prisão. Escolas católicas foram tomadas pelo Estado. Rádios católicas foram fechadas. Ordens de freiras foram expulsas do país, assim como o núncio apostólico — o representante do papa no território. A expectativa era que Francisco pedisse a Lula que usasse sua influência diplomática para abrir algum canal de diálogo com Ortega.

Mas a Nicarágua não era o único ponto quente. Cuba e Venezuela, ambas sob regimes de esquerda, também estavam na lista de preocupações do papa. Francisco havia recebido na véspera Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba — e Lula, por sua vez, teria um encontro marcado com ele em Paris no dia seguinte. Era um triângulo diplomático delicado, com o papa no centro tentando garantir que as questões religiosas não fossem esquecidas em meio às negociações políticas maiores.

Do lado de Lula, havia um convite a fazer. Ele queria que Francisco visitasse o Brasil novamente. O papa havia estado lá em 2013, no começo de seu pontificado, mas uma década tinha se passado. Lula tinha em mente algo específico: queria que Francisco fosse à Amazônia e participasse das celebrações do Círio de Nazaré em Belém, a capital do Pará. Não era apenas um convite religioso. Belém seria palco de dois eventos climáticos importantes nos próximos anos — uma cúpula sobre cooperação amazônica em agosto, e a COP-30, a conferência climática das Nações Unidas, em 2025. A presença do papa teria peso simbólico e político.

O encontro, portanto, era menos sobre resolver conflitos imediatos e mais sobre alinhamento. O Brasil e o Vaticano compartilhavam preocupações — a proteção ambiental, a perseguição religiosa, a busca por paz — mas precisavam coordenar como falariam sobre elas. Lula saía daquela sala com a responsabilidade de levar mensagens do papa para outros líderes, enquanto Francisco ganhava um aliado em um momento em que a Igreja enfrentava pressões crescentes em seu próprio continente.

Lula reiterou convite para que o papa visite o Brasil novamente e participasse das celebrações do Círio de Nazaré em Belém
— Diplomatas brasileiros
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o papa receberia Lula logo depois de receber o presidente de Cuba? Parece uma sequência estranha.

Model

Não é estranha se você pensar que Francisco está tentando manter canais abertos com todos os atores importantes da região. Díaz-Canel vem, Lula vem, e cada um leva uma mensagem diferente de volta para casa.

Inventor

E qual seria a mensagem para Lula especificamente?

Model

Que a Igreja está sendo atacada na Nicarágua e que o Brasil, como potência regional, tem responsabilidade em tentar mediar. Lula tem relacionamento com Ortega. Francisco não tem.

Inventor

Mas Lula é de esquerda. Por que confiaria em alguém de esquerda para defender a Igreja?

Model

Porque a perseguição religiosa transcende ideologia. Um bispo condenado a 26 anos de prisão não é uma questão de esquerda ou direita — é uma questão de direitos humanos. E Lula, apesar de sua história política, tem legitimidade para falar com regimes que outros líderes ocidentais não têm.

Inventor

E o convite para o papa ir a Belém? Isso é genuíno ou estratégia?

Model

Provavelmente os dois. Belém vai sediar cúpulas climáticas importantes. A presença do papa lá amplifica a mensagem sobre proteção ambiental e dá ao Brasil credibilidade internacional. Mas também é um convite genuíno — a Igreja quer estar presente onde as decisões sobre a Amazônia estão sendo tomadas.

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